Come Home the Kids Miss You
2022 • RAP/HIP-HOP/POP • GENERATION NOW/ATLANTIC
POR LEONARDO FREDERICO; 12 DE MAIO DE 2022
2.5

Quando Lil Nas X lançou o clipe para um de seus singles de maior sucesso, “Industry Baby”, no ano passado, houve algo que foi muito mais chamativo com exceção de toda representatividade e iconografia gay: Jack Harlow. Por algum motivo, que nunca foi realmente claro e aparente, Harlow fazia o papel de um homem hétero em uma peça audiovisual que instigava a representatividade e empoderamento sexual, racial e de gênero. No meio de todo o alvoroço que o vídeo foi — que, honestamente, também teve suas contradições e problemáticas —, Jack desempenhava o personagem mais sem graça e mais inútil dentro daquele contexto. Em poucas palavras, ele era o clássico rapaz hétero branco LGBT-friendly, que, apesar de nunca ter odiado gays, também não arriscaria a própria pele por eles. Em outros termos, era como se Harlow fosse o “alívio heteronormativo necessário”: ele só está ali para representação conversadora e, em segunda instância, porque grande parte das pessoas querem foder com ele. 

Da mesma forma, o segundo registro de estúdio de Jack Harlow, Come Home The Kids Miss You, é tão inútil quanto o papel dele em “Industry Baby”. Para além de ser substancialmente enfadonho e terrivelmente tedioso, o disco é a canalização em essência dessa personalidade sonsa que Harlow acredita ser agradável. Come Home é um álbum que une canções chatas que são fundamentalmente mal escritas, que soam que nem espíritos atormentados que se arrastam pelos corredores das masmorras. Essas são músicas que, em último nível, conseguem, pelo menos, concentrar uma certa coesão de narrar a vida monótona de Harlow em suas aventuras insípidas no mundo sexual e capitalista. Embora Harlow, olhando por uma lente distante, até seja simpático, sua obra raramente reflete esse caráter. 

Inicialmente, o próprio contexto do disco é… estranho. Por algum motivo, Come Home ressoa muito mais como uma estreia do que propriamente um segundo álbum. Isso, talvez, pelo fato de Harlow só tenha estourado na mídia mainstream no último ano. No entanto, esse teor faz o registro soar ainda pior: para um trabalho tão sem personalidade, criada em um desalento artístico, é quase ofensivo que ela seja uma segunda instalação. De outra forma, é tolerável que primeiros discos não sejam carregados de identidade, no entanto, para alguém como Jack, que estreou em 2020, com That’s What They All Say, e vem, na realidade, lançando singles desde 2016, é excessivamente decepcionante não conseguir construir uma individualidade musical em seis anos. 

Todavia, se Harlow pelo menos entregasse algo que fosse minimamente decente, Come Home não seria tão terrível. Porém, ainda que grande parte da obra seja bem produzida, elas não são propriamente notáveis, marcantes e elogiáveis. “Talk Of The Town”, por exemplo, conta com um contraste interessante na parte sonora, mas, por outra lente, soa inacabada. “Movie Star”, por sua vez, com seus toques atrativos de sintetizadores, não consegue criar uma relação decente entre Harlow e Pharrell Williams — felizmente o pior dos dois mundos não clicam —, bem como Drake e Jack, em “Churchill Downs”, que apenas parecem competir para ver quem consegue ser o mais chato, o mais apático. Por fim, “Dua Lipa”, com sua progressão quase nula, aparece só para provar que músicas de rap sobre cantoras pop não são uma boa ideia. 

Se tem uma coisa que Jack provou com esse álbum é que ele é um péssimo compositor. Faixa atrás faixa, uma seguida da outra, Harlow consegue entregar linhas e versos que beiram o vergonhoso, o sem noção e que representam a falta do mínimo de critério. “Young Harleezy” é a pior canção do disco nesse quesito, com metáforas baratas e vexatórias. “But I’m ten years in, it took me eight to start eating (Uh-huh) / Six to start drinking, nine to give it up”, ele canta no começo, seguindo para: “How can I pretend like this life is not amazing? / Trust me, it’s amazing, I can’t believe I used to be debating”, provando que Harlow carece do mínimo de uma noção interpessoal e social. Indo além, “First Class”, com sua linha sobre beber suco de abacaxi para adoçar seu esperma, e “I’d Do Anything to Make You Smile”, com a adoração Ed Sheeran, não ajudam muito no produto. 

Mesmo que raramente haja momentos em que Come Home The Kids Miss You seja atraente e valha apena, não me surpreenderia se ele agradasse uma (grande) parcela dos consumidores de streaming pelo seu caráter fácil. Mas, por outro lado, não me parece que nem mesmo aqueles mais toleráveis conseguiram digerir o disco, pelo menos não do jeito que Harlow imaginou. Mas, se o registro prova algo, é que a suposta esposa que não está em casa teve todas as razões para não querer estar lá.