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AFRODHIT

2023 •

Warner Music Brasil

7.1
IZA faz pop sem pudor no afrodisíaco AFRODHIT.
afrodhitiza

AFRODHIT

2023 •

Warner Music Brasil

7.1
IZA faz pop sem pudor no afrodisíaco AFRODHIT.
09/08/2023

Nos cinco anos que separaram os dois discos de IZA, o público pôde acompanhar um pouco mais de sua vida pessoal e profissional, ambas marcadas, nesse contexto pós-estrelato, por altos e baixos. Indiscutivelmente, o sucesso que veio com o Dona de mim (2018) permitiu que a cantora fortalecesse seu nome como marca; não é atoa que ela tenha figurado em diversas campanhas publicitárias e, até mesmo, fechado contrato com a Rede Globo. Por outro lado, essa exposição massiva não ficou isenta de críticas, muitas delas associadas a uma suposta saturação de imagem — algo que também se estendeu à música, num momento onde as temáticas de empoderamento se viam presentes em quase todos os seus lançamentos, sem muita originalidade ou diversidade na abordagem.

Além disso, IZA enfrentou um divórcio, o que a fez repensar sobre o rumo do novo álbum. Lançado na última quinta-feira, o intitulado AFRODHIT foi concebido em apenas cinco meses, tendo em vista que o material que vinha sendo trabalhado pelos singles “Gueto”, “Sem Filtro” e “Fé” foi completamente descartado por conter grandes contribuições do ex-marido da cantora, o produtor Sérgio Santos, e refletir um capítulo de sua vida que ficou para trás. Em recente entrevista para o Fantástico, ela revelou que, nas gravações desse antigo projeto, se sentia “podada” pelos colaboradores, e que a liberdade criativa só se fez possível agora. O resultado disso é um disco sem amarras, movido pelo prazer de se desapegar e reencontrar o romance para além das mágoas.

Como sinaliza o título, a carioca mergulhou de cabeça na estética “afro” para trazer unidade ao projeto e, mesmo com uma roupagem pop bastante comercial, as temáticas aqui abordadas não sofrem com a perda de caráter. Isso porque IZA abraçou, desavergonhadamente, a comercialidade da música popular como ferramenta para construir sua narrativa, abusando de clichês que funcionam muito bem em contraste com os fragmentos mais pessoais de seus relatos. É o caso, por exemplo, da excepcional faixa de abertura “Nunca Mais”, onde a lírica encara a desilusão amorosa como ponto de despedida da antiga paixão e de chegada da auto-valorização, que também recebe aprofundamento, de forma mais pertinente, no potencial single “Que Se Vá”: “Se é pra lavar roupa suja, eu tô te devolvendo até o pregador / De santo não tem nada / Mandava presente e até essa conta fui eu quem pagou”, rima. 

Em outro instante, explora-se a redescoberta do amor: “Tô amando quando você desce / Tá tocando meu umbigo com a testa / Tô tocando um pedaço do céu”, canta na romântica “Exclusiva”, que utiliza da sensualidade do R&B contemporâneo para evocar sensações de satisfação mútua. Já na deliciosa fusão trap-funk de “Fiu Fiu”, colaboração com L7NNON, IZA direciona os olhares para as possibilidades do flerte, presente no enfoque provocador e descritivo da letra: “Cheirosão, cabelinho na régua / Metendo uns passinho diferente / Entradinha na cintura / Requebrado mais pra frente”. Ainda que o prazer carnal seja consagrado em diversas passagens do disco, seu encerramento possui um viés mais sentimental. A poética “Uma Vida é Pouco Pra Te Amar” vê IZA experimentando com seu timbre grave ao passo que externaliza sua conexão com o novo parceiro, refletindo sobre seus futuros desejos e sonhos conjuntos. 

Os melhores momentos de AFRODHIT são aqueles onde devaneios criativos são traduzidos para a música sem medo — mesmo que de maneira sutil. É o caso de “Batucada”, que propõe uma junção entre batidas afro-brasileiras e o típico synth-funk setentista, resultando em uma das criações mais eufóricas do álbum, juntamente com o delicioso pagodão baiano que dá as caras em “Mega da Virada”. Entretanto, quando as ideias se tornam escassas, IZA parece recorrer a sonoridades mais confortáveis, que falham em acompanhar a empolgação e expressividade de suas performances, como “Tédio”, um R&B eletrônico datado; “Sintoniza”, uma união entre hip-hop e soul, mas sem alma; e o lead single “Fé nas Maluca”, onde a convidada, MC Carol, ofusca qualquer tentativa rasa da cantora principal de imprimir um discurso que já foi feito demasiadas vezes em outras de suas canções.

Para aqueles que já estão familiarizados com as artistas pop nacionais da atualidade e com a crescente em popularidade que o afrobeats vem tendo nos últimos anos, talvez AFRODHIT não traga muitas surpresas além das narrativas que o envolvem. Ainda assim, o disco acerta ao mostrar um amadurecimento artístico significativo de IZA, se olharmos para a trajetória de sua carreira desde o seu debut. Não é uma evolução avassaladora, mas é o primeiro passo para um futuro promissor.

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