The End of an Era
2021 • POP/RAP/HIP-HOP • EMPIRE
POR LEONARDO FREDERICO; 17 de AGOSTO de 2021
2.0

Iggy Azalea é uma pessoa com uma personalidade forte. Muito mais do que apenas ser confiante de si mesma, ela sempre colocou aquilo que acreditava acima de tudo e de todos, mesmo quando estava errada. Entre 2016 e 2019, Azalea foi acusada várias vezes de racismo, principalmente por comentários infelizes contra a luta feminista e antirracista de Beyoncé em Lemonade. Em resposta, após uma briga com Azealia Banks, a rapper australiana não reconheceu seus possíveis erros e muito menos tentou se desculpar. Na canção “Clap Back”, do seu álbum In My Defende de 2019, Iggy canta: “They call me racist / Only thing I like is green and blue faces”. Ela está muito mais preocupada em lembrar a todos que ela tem dinheiro do que se ela feriu ou não os sentimentos das pessoas.

The End of an Era, sucessor do doloroso In My Defense, só prova que Iggy consegue entregar algo ainda pior que seu álbum de 2019. O disco, que segundo ela será o último de sua carreira devido a questões de falta de financiamento da gravadora e alvo de críticas, é apenas um conjunto das músicas mais banais que a rapper australiana já lançou em sua carreira. São faixas sem brilho, sem personalidade, com péssima composição e produção maçante. Além disso, são canções que só tem um objetivo: elevar o próprio ego da cantora, colocando-a em um pedestal e não permitindo que ela olhe para os outros, apenas para ela mesma. No final, a única sensação que o álbum consegue passar é que as únicas preocupações de Iggy são como suas canções serão vistas, se elas terão o impacto, se elas conseguiram sustentar uma personagem sem graça e se elas conseguirão, de alguma forma, escandalizar.

Grande parte das canções de The End of an Era mostram Iggy em sua clássica narrativa, na qual ela apenas reforça o personagem que ela sempre fez: uma mulher estereotipada que não perder seu tempo com assuntos como causas sociais porque ela tem que relembrar todos que ela tem dinheiro e que, por causa disso, é melhor que o resto de nós. Essa personalidade que Azalea utiliza em seus álbuns é rasa, sem graça e totalmente maçante. Em “Emo Club Anthem”, por exemplo, Iggy repete várias vezes: “Feelin’ too lit to cry / I love drugs”. Nesse momento, ela se sente legal simplesmente por usar drogas, contudo, assim como em “Clap Back”, ela consegue se envergonhar em apenas uma linha. Da mesma forma, em “Iam The Stripclub”, Iggy parece crer fielmente que para você ser uma pessoa madura, você precisa ir em bares de strip, seguir um modelo de vida idealizado e que tudo que importa em sua vida são aparências.

Todavia, mesmo que se Iggy conseguisse sustentar esse personagem de forma minimamente interessante, a outra metade das faixas soam fora de sintonia com o que a cantora acredita ser amadurecimento. Em “Nights Like This”, por exemplo, Iggy canta: “We don’t wanna be bored / We just wanna have fun”. Mas quando ela canta, ela soa como o tipo de pessoa que passa mais tempo acreditando que é engraçada e legal do que realmente sendo essas duas coisas. Além disso, barulhos como risadas de crianças, semelhante a efeitos sonoros gratuitos que as pessoas usam em seus vídeos do YouTube, e instrumentos que não fazem sentido com o restante da sonoridade do disco também possuem um peso no final. Perto do último projeto dela, In My Defense, esse é muito menos focado e coeso.

Por mais que Iggy nunca tenha lançado um álbum genuinamente bom, em seus projetos antigos ela conseguia entregar uma produção relativamente boa, sendo por critérios técnicos ou por algo simplesmente divertido. Contudo, ainda que a produção de The End of an Era não seja realmente ruim, ela parece apenas um conjunto de sons apáticos vindos de uma loja de samples gratuita na internet. Isso fica claro em “Sirens” ou em “Brazil”, na qual ela mistura batidas de funk agudas com harmonias sintéticas de rap. Não é nada ruim, mas é algo que qualquer um pode fazer em poucos minutos, em sua casa, sem esforço algum. Nos outros momentos, todavia, Iggy entrega algo chato ou, no mínimo, ouvível, mas nunca algo bom ou interessante. Não é à toa que o melhor momento de “Woke Up (Diamonds)” é justamente uma parte retirada de outra canção.

No final do dia, fica muito, muito difícil tirar divertimento do disco. São raros os instantes onde The End of an Era não é chato ou irritante. “STFU”, por exemplo, por mais que tenha uma das piores letras de todo o álbum (“Put a pill on my tongue / Smacked a bitch in the street / Screamed out at the night”), ainda é sonoramente divertida. Na mesma forma, “Peach Body” e “Sex on the Beach” são relativamente legais, principalmente a segunda, soando como um hino de verão. “Good Times With Bad People”, por fim, é o único momento do disco que Iggy consegue distinguir a divisão entre ser empoderada e ser egocêntrica — “I’m not the good type, I’m not your housewife / Love you for one night, I do what I like”. No final das contas, The End of an Era só cria o sentimento de tristeza porque não importa o quão ruim uma carreira possa ser, ela não merece um álbum tão ruim igual esse como encerramento.