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Life On Earth

2022 •

Nonesuch

8.4
Em seu oitavo disco, Alynda Segarra realiza a maior quebra de sua carreira, apostando em uma nova estética sonora sem, felizmente, perder quem ela realmente é.
Hurray For The Riff Raff - Life on Earth

Life On Earth

2022 •

Nonesuch

8.4
Em seu oitavo disco, Alynda Segarra realiza a maior quebra de sua carreira, apostando em uma nova estética sonora sem, felizmente, perder quem ela realmente é.
14/09/2022

Embora Alynda Segarra esteja comandando o Hurray for The Riff Raff por quase duas décadas agora, ela gostaria que você pensasse em seu último lançamento, LIFE ON EARTH, lançado em fevereiro deste ano, como uma espécie de disco de estreia. A cantora diz isso não porque ela deseja que você desconsidere todos os outros álbuns lançados por eles, mas sim porque ela quer que você entenda esse, em específico, como realmente um renascimento. Desde 2007, quando Segarra mudou-se de Nova Iorque para Nova Orleans, o grupo vinha trabalhando em cima do folk, americana e country. Passando por vários lançamentos franzinos e um ponto forte em potencial, em 2014, com Small Town Heroes, o grande destaque vai para seu registro de 2017, The Navigator, no qual eles concretizaram suas músicas em cima de um estilo springsteeniano, cantando sobre uma vida pessoal dentro de um contexto colonial. Era esse, de fato, um lugar seguro.

Entretanto, para LIFE ON EARTH, Segarra quebrou fortemente com a narrativa que sua carreira artística vinha seguindo nesses últimos anos. Pela primeira vez, de forma concreta, ela cortou com os remansos dos gêneros que sua banda vinha ocupando-se em seus últimos álbuns. Nesse sentido, LIFE ON EARTH é um álbum majoritariamente rock e alternativo, ainda que tenha forte presença do punk — gênero que aparece nos detalhes das estruturas intrínsecas da construção do registro. Esse rompimento, que é visto pelos artistas como uma forma de recomeçar, traduz, em grande parte, os sentimentos de libertação e correr atrás de uma nova vida, uma que valha viver e, acima de tudo, te faça livre. Dessa forma, LIFE ON EARTH é uma daquelas obras sobre usar seu passado como catapulta para um futuro, mas sem necessariamente perder aqueles e aquilo que poliram sua essência.

Deixando de lado o estilo americana e histórias empoeiradas de cenários de road movies, Hurray for The Riff Raff se concentra em uma abordagem um pouco mais agressiva que seus últimos álbuns. O rock se concentra em peso em grande parte das faixas, seguido pelo punk. No caso do segundo, porém, essa apresentação é mais sútil, mantendo a violência presente no gênero dentro das margens líricas. Em outras palavras, esse sentimento de revolta se converge para a forma que essas canções são feitas e, também, pela maneira que as mensagens são passadas. Na abertura, “WOLVES”, ela canta, ainda que sutilmente, sobre escapar do seu lugar atual, destino que se concretiza na seguinte “PIERCED ARROWS”, melhor faixa do álbum. Enquanto, na primeira, sintetizadores recriam camadas do dream pop ferozmente, a segunda trabalha na libertação e na energia necessária para sua catarse: riffs de guitarras densos e espessos surgem antes que a calmaria e sutileza seja liberada no refrão. “Trying to avoid running into my ex on Broadway / No one recognizes me anymore, girl I’m lonely / Vampires and thieves, someone will bleed / Will it be me?”, ela se questiona em “PIERCED ARROWS”, em um discurso voraz para si mesma, mas que é também carregado de autopiedade. 

Ainda que haja uma concentração de sons que se pautam no rock, há certa variedade dinâmica dentro de cada canção. Posso arriscar em dizer, até, que esse é seu álbum mais experimental deles, no quesito de tentar quebrar com tudo que as pessoas podem e querem esperar de você. Ao mesmo tempo que “PIERCED ARROWS” conta com vocais roucos de uma performance punk ao vivo, que se contrastam com refrões pop, “POINTED AT THE SUN” segue uma linha alternativa e “RHODODENDRON” retorna ao country sem perder originalidade, trabalhando com um embalo e ritmo ofegante. “RHODODENDRON” e “Nightqueen”, viajam para o mundo dos sonhos, enquanto “SAGA”, com seus sopros, tambores e cordas, finaliza o disco de maneira otimista. Felizmente, as linhas ainda assim parecem ser congruentes e nunca parecem ser uma simples coleção de peças soltas, mas sim parte de uma ambição maior.

Por fim, a canção que dá nome ao álbum, também surge como uma das peças mais perspicazes do registro — e, bem como, da carreira do Hurray. Você não precisa de muito para traçar um paralelo entre “LIFE ON EARTH” com “Life on Mars”, clássica canção de David Bowie do álbum Hunky Dory, de 1971. No caso, ambas as canções divergem de forma ampla: ao passo que a de Bowie é mais ativa e com força política, a de Alynda Segarra se apoia sobre moldes mais melancólicos e passivos, sendo uma canção voltada para admiração do que propriamente mudança. O ponto de fusão se dá, por sua vez, no fato de que ambas trabalham as questões de quão horrível a Terra pode ser. Em suas abordagens, também, há um afastamento: enquanto o cantor deseja um certo escape, a artista olha para sua vida e tenta ver uma certa beleza, ainda que depressiva. Esse, assim então, torna-se um mantra: “Life on Earth is long”, mas vale a pena. 

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