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Live Through This

1994 •

City Slang

9.3
Live Through This, o segundo registro de Hole, é um agente do caos e, ao mesmo tempo, icônico.
Hole - Live Through This

Live Through This

1994 •

City Slang

9.3
Live Through This, o segundo registro de Hole, é um agente do caos e, ao mesmo tempo, icônico.
14/08/2022

Existe um motivo pelo qual o Hole é tão odiado? Não faço ideia, mas, talvez, isso esteja atrelado com o lançamento de Live Through This. Nos anos que antecederam o álbum, Hole era um grupo que, apesar de uma forte aclamação por parte da crítica e de operar dentro de uma cena alternativa britânica desde sua formação em 1989, já vinha conseguindo um forte sucesso midiático no Reino Unido. Um exemplo disso foi sua canção “Teenage Whore”, que atingiu o topo da parada no UK. Live Through This, por sua vez, foi responsável por mudar a trajetória do grupo. O disco foi lançado semanas depois do suicídio de Kurt Cobain, o qual foi visto como assassinato por muitos fãs do cantor e da banda, levando Courtney a ser apontada como a principal suspeita. No meio disso, o Hole pensou que, talvez, era o caos do projeto se misturando com a realidade. 

Na vida pessoal de Courtney, tudo estava uma completa bagunça. Após perder o seu marido, várias pessoas apontaram todos os erros da relação dos dois e culpabilizam Love pelo falecimento — incluindo seu pai que fez um documentário, em 1998, declarando que a filha era, sim, culpada pela morte de Kurt Cobain. Muitos fãs do Nirvana a viam como uma “obcecada oportunista” que não aceitava um possível fim do relacionamento. Houveram também rumores que apontavam que Cobain foi responsável por grande parte da composição do registro, o que divergia dos comentários feitos por Love e pelos outros membros do Hole. Em 2010, Patty Schemel, baterista da banda e amigo do cantor desde meados dos anos 1980, disse em uma entrevista: “Há aquele mito de que Kurt escreveu todas as nossas músicas, não é verdade. Courtney e Eric escreveram”. Dessa forma, Courtney era uma mãe solteira e não tinha muito apoio da família.

Nesse sentido, esse álbum é uma grande tábua de salvação na vida de mulheres adolescentes e jovens-adultas até hoje, seja pela sua capacidade de descrever a maternidade, a misoginia e a rivalidade feminina que existe pela atenção de homens de maneira tão fiel, ou pelos detalhes sórdidos das brigas de Courtney Love com integrantes de outras bandas, como a briga entre e Kat Bjelland, além da faixa “Rock Star”. 

Não se pode negar que o projeto desperta um estranhamento, cumprindo justamente o seu intuito: mostrar a raiva feminina no seu puro estado. Está incluso a repulsão direcionada ao feminino, o que é o grande diferencial do disco para o resto do cenário pop-punk da época, que buscava enaltecer garotas enquanto deixava os homens de lado. Indo contra essa maré, em um viés quase feminista-marxisista, Courtney provava que nem sempre as mulheres eram boas umas com as outras, e nem eram completamente alheias aos homens, mesmo sabendo que não precisavam deles. Isso irritava as pessoas do movimento, que até hoje acusam Love de ser uma “falsa feminista” e “uma mulher que fazia fanservice de rivalidade feminina”, o que é um argumento completamente injusto, considerando que o álbum é cheio de protestos e xingamentos a mulheres, como “She Walks Over Me”, faixa direcionada para Kat Bjelland. Apesar do último, Love não pode ser considerada uma falsa feminista, pois o disco apresenta uma abordagem sincera e raivosa em relação a sociedade e suas imposições para mulheres em geral (incluindo as inimigas de Courtney).

No meio do projeto, vemos resoluções de brigas passadas de Courtney, como a rixa pelo estilo “boneca suja” que ela e a Kat Bjelland compartilhavam no início da década de 90. A rixa das duas consiste em acusações de roubo, principalmente do estilo de se vestir uma da outra. Courtney, por sua vez, alegou que houveram roubo de canções também, apesar de não ter especificado nenhuma. A canção “I Think I Would Die” é composta pelas duas, em uma parceria maravilhosa que critica mulheres que traem suas “parceiras” — um tema que seria abordado por Tori Amos no mesmo ano em “Cornflake Girl”, inclusive — e como isso consegue ser ainda pior que uma traição masculina. O episódio da vez se refere ao infame artigo da Vanity Fair que denunciava o uso de drogas pesadas por Love e Cobain, gerando uma batalha judicial para que não perdessem a guarda de sua filha. A faixa conta com menções não-diretas a Julia Roberts, na frase “Eu não sou uma feminista”, dita pela atriz no começo dos anos 90. 

Enquanto resolve brigas, Courtney inicia novas, como em “Rock Star”, que contém algumas indiretas para Kathleen Hanna, vocalista do Bikini Kill, por sua relação próxima com o cantor Kurt Cobain e a tentativa de namoro que aconteceu entre os dois. Na segunda estrofe de “Rock Star”, Love canta: “We even fuck the same”, referenciando as investidas amorosas que Hanna fazia em relação a Kurt. Apesar disso, o disco foca mais na questão da maternidade e todas as questões que ela traz consigo, incluindo a menção de “leite” em diversas faixas, como “I Think I Would Die”, para negar o seu uso de drogas, e “Plump”, em referência a sua gravidez. Desta forma, usando nos dois sentidos possíveis — o leite também é um nome carinhoso para a heroína. 

A maternidade, as brigas e a luta de Love para continuar sendo amada, sabendo que não faz questão disso, é o que constrói toda a raiva presente no projeto. Como em “Plump”, onde ela traz a questão de que mulheres precisam ser gratas pela vida que carregam no ventre, ao mesmo tempo que traça uma analogia com a toxicidade da fama. Já em “Miss World”, ela aborda a questão dos concursos de beleza — referenciado visualmente tanto no clipe, quanto na capa do álbum, inspirada por Carrie, A Estranha (1976) — e fala de escolhas erradas que ela precisa lidar, mostrando que entende o motivo pelo qual muitos não gostam dela. A mais famosa do disco, “Doll Parts”, traz uma visão diferente de Love. Nessa, ela implora para que o seu amado continue amando-a, mesmo com todos os indícios de uma relação tóxica ali. A canção foi obviamente escrita para Kurt, uma espécie de pedido de reconciliação misturada a culpa e referências à infantilidade — a canção tem muitas referências às partes do corpo de uma boneca: “I am doll eyes, doll mouth, doll legs”.

Pelas comparações com o Nirvana, surge o questionamento de qual é o legado do Hole e principalmente, desse álbum. Bom, a resposta é simples: praticamente o pop rock da década de 2000 vem desse registro. Toda a raiva e indignação com a sociedade que as mulheres no estilo de Avril Lavigne e Amy Lee expressavam em suas músicas, estão presentes aqui de maneira magistral. E evidentemente, isso passou para as gerações atuais. Não digo que Billie Eilish é diretamente influenciada pelo Hole, mas se uma “Happier Than Ever” pode ser feita, é graças ao riot grrrl da década de 90, um movimento musical que teve início em Olympia (muito citada na faixa “Rock Star”) e contava com bandas como Bratmobile, Bikini Kill e o próprio Hole, de certa maneira. Não é à toa que, atualmente, o projeto é relembrado por artistas novatas, por exemplo, Olivia Rodrigo, que utilizam bastante do ódio feminino e repulsa materna para construir novas narrativas, porque as palavras ditas pelo Hole nesse projeto continuam a ressoar em grande parte das pessoas que encontram esse disco em algum ponto da vida.

Com a sua presença inevitável no riot grrrl, Courtney detesta o mesmo e as pessoas dele, mas não tem como negar sua contribuição. E da mesma forma, a nova geração deve detestar Love por suas inúmeras polêmicas, mas não podem negar o impacto da mesma em suas músicas. Courtney achava as garotas do riot grrrl muito prepotentes e arrogantes, além de que todas pareciam iguais. Recentemente, em uma postagem no Instagram sobre a banda Bikini Kill, que havia anunciado sua volta, Love comentou com relação ao riot grrrl: “Fale por você. Maior farsa da história do rock and roll”. Acho que no fundo, ela pensava como os homens pensavam, e é por isso que o Live Through This se torna tão polêmico quando é citado junto com esse movimento musical feminista. 

Não sendo um grupo perfeito, o Hole é praticamente uma lenda urbana na memória de quem continua a gostar deles. As diversas polêmicas da vocalista, misturada com problemas entre a banda em si, encerrou um grupo que tinha potencial de continuar mostrando os motivos pelos quais vale a pena se revoltar e se indignar: qualquer coisa que te cause insatisfação. E é isso que eles fizeram aqui. Obviamente, como bons seres humanos, nunca estamos satisfeitos com nada, mas não quer dizer que não podemos nos revoltar em relação às coisas que são impostas para nós desde o nascimento. Eles tinham esse direito e fizeram da forma mais suja possível, criando um clássico do rock no meio do caminho, além de alimentar uma rede de grandes histórias para contar para os filhos — de sangue e de alma.

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