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Aperture

2023 •

Sub Pop

7.6
Aperture, de Hannah Jadagu, mostra a formação de uma futura artista muito interessante.
Hannah Jagadu - Aperture

Aperture

2023 •

Sub Pop

7.6
Aperture, de Hannah Jadagu, mostra a formação de uma futura artista muito interessante.
23/05/2023

O mundo da música pode ser interpretado como o vasto céu da noite. O véu da lua tem uma obscuridade tão profunda que pode gerar uma desconfiança com relação ao avistamento de algum astro luminoso. E isso consegue piorar ainda mais quando próximo de cidades, já que a poluição forma uma camada de poeira ao redor de suas estruturas e torna ainda mais difícil a tarefa de avistar algo nas nuvens que não sejam aviões ou satélites. Essa metáfora se diz respeito a falta de originalidade ou de quaisquer outro grande fator gerador de entusiasmo com a vinda da nova leva de artistas. Muitos parecem ser apenas cópias descaradas de outros artistas já estabelecidos na indústria, ou apenas fantoches sem personalidade e vivacidade. Porém, de vez em quando, essa árdua busca feita pode encontrar um fim quando se depara com um grande talento, como foi o caso da nova protegida da gravadora Sub Pop, Hannah Jadagu.

Jadagu vem iluminando a cena de rock underground estadunidense com o seu incrível talento de confeccionar canções encantadoras e mágicas — satisfazendo muito com o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Aperture. Começando com muita despretensão, upando faixas de lo-fi-pop amadoras do conforto de sua casa durante a pandemia, enquanto uma sênior no Ensino Médio, e gravando canções profissionalmente para uma grande gravadora no meio da faculdade, Hannah Jadagu, mesmo que em tão pouco tempo de carreira, conseguiu demonstrar ser uma musicista de grande aptidão musical para o capturamento de momentos cotidianos em letras e sons joviais e muito relacionáveis. 

Desde o seu primeiro trabalho, o What Is Going On?, isso era perceptível, com a análise das faixas “Sundown” e “Thinking Too Much”, momentos de maiores destaques de seu EP debutante. E em Aperture, isso também é evidente ao ler mais sobre o seu single de maior sucesso e rentabilidade, “Say It Now”. A canção em questão mostra uma Hannah bastante aflita com o desenrolar de um conflito dela com alguém (“I’ve been trying to find the line / Is it best if I don’t try? / Should I have called? Nervousness won”), com ela tentando achar, no passado, o erro que cometeu, para finalmente solucionar o problema — como no trecho: “Now I’m picking up the pieces, something went wrong / And I won’t ask twice, but are we alright? / Been around enough to tell your distance is a sign”. Nesse momento, podemos observar a formação de uma escritora inteligente e bastante honesta, que sabe achar algum sentido em meio a enorme bagunça que é a adolescência — e a ignorância — e criar um instrumento musical pelo qual qualquer pessoa passando por essa fase pode usar para compreensão das próprias atitudes e entendimento melhor sobre si mesmo.

Outra situação na qual a cantora se apresenta, mais uma vez, uma escritora esperta é no segundo single oficial de Aperture, “What You Did”. Nessa faixa, Hannah demonstra está raivosa com alguém por sua aparente irresponsabilidade com as suas emoções, como visto no primeiro verso: “Why try / To be the one that you can fall on? / That night I lied / I hate it when you sing / Break bread”. A produção consegue constatar bem tal emoção poderosa sentida pela jovem, por lapsar entre batidas e arranjos de guitarra e sons de interferência, criando uma sonoridade de rock alternativo interessante, conquanto que não tão original. E a performance de Jadagu, por mais que soe suave e calma, consegue achar seu meio até o coração do ouvinte — ainda mais quando repetindo o refrão: “Know what you did / I know what you did / I know what you did / I know what you did / Know what you did”.

E quando se parecia que a sonoridade do disco iria ficar obsoleta, a Hannah trás outros tons de cores a sua obra e uma diversidade maior. Sem deixar com que Aperture se baseie demais no mesmo som, ela adiciona toques palpáveis de pop psicodélico (no terceiro single promocional da era, “Warning Sign”), dream pop (no outro de “Admit It”, e mais singelamente em outras faixas do disco) e de pop (na “Lose”). Criando, portanto, um álbum de personalidade e carisma, cuja experiência consegue ser consistente e agradável. Demonstrando, assim, ser mais do que uma compositora excepcional: uma produtora musical com muita noção e conhecimento. O que é surpreendente, visto que não é listado um número grande de colaboradores com quem trabalhou junto para a criação do projeto e também que não faz muito tempo desde que produziu suas primeiras demos para o SoundCloud.

Tendo falado tudo isso, acho importante retornarmos à introspecção do primeiro parágrafo da análise e voltamos a observar o mundo da música como “o vasto céu da noite”, para então obtivemos mais esperança com o futuro. Após, tal continuação das histórias contadas hoje em dia, estarão mais que seguras nas mãos competentes de talentos como os da americana Hannah Jadagu. Aperture é um ótimo ponto de partida para a jovem Hannah, que ainda está se achando e se conhecendo mais como artista. Assim como sua autora, o disco tem suas falhas e nem sempre consegue instigar o interesse de quem ouve, por acabar fazendo um uso muito grande de estruturas musicais já muito conhecidas e sacadas pelo público. Porém, com o tempo, acredito que isso vá melhorando e se possa ver trabalhos ainda mais audazes e emocionantes vindo dela.

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