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Janky Star

2022 •

True Panther / Harvest

8.0
O segundo disco da cantora nova-iorquina Grace Ives quebra com as barreiras de gêneros musicais e estruturas líricas em prol de uma experiência original.
Grace Ives - Janky Star

Janky Star

2022 •

True Panther / Harvest

8.0
O segundo disco da cantora nova-iorquina Grace Ives quebra com as barreiras de gêneros musicais e estruturas líricas em prol de uma experiência original.
26/08/2022

O apartamento no qual Grace Ives mora atualmente, com seu namorado de longa data, Sam, fica em Carroll Gardens, Brooklyn. O local, na verdade, não é dela e nem de seu companheiro, mas sim dos sogros da cantora, que durante a pandemia foram para o norte do estado de Nova Iorque. Entretanto, o lugar tem um toque diferente: tudo nele parece fora da curva, excêntrico e especial. Segundo Cat Zhang, que recentemente visitou a cantora para uma entrevista para a Pitchfork, não é raro trombar com maçanetas de salamandra, besouros em almofadas, uma pintura de uma cabra e até em uma cozinha com azulejos coloridos de arco-íris. Em outras palavras, é como se seu lar fosse um conjunto de retalhos repletos de personalidade, colhidos ao longo de uma vida que apenas se preocupou em ser vivida. 

Grande parte do material de Ives também opera dentro dessa lógica. Em seu disco de estreia, 2nd, de 2019, ela coletou todas as demos que havia lançado nos últimos meses e as colocou num mesmo contexto. O principal problema disso é que, assim como até hoje, essas peças eram amplas, tanto em suas composições, quanto em suas paletas sonoras. Era uma tarefa genuinamente difícil catalogar e tentar fazer com que canções tão dispersas, e que seguiam para direções tão diferentes, conversassem como algo concreto. Janky Star, seu segundo álbum, lançado por volta de dois meses atrás, segue uma linha inversa, permitindo que a cantora liberasse e trabalhasse todas as suas facetas em um local só. Esse é um trabalho de sutilezas e delicadezas, onde os detalhes assumem toda a estrutura e orquestração do registro. Mas, mais que tudo, é uma obra sobre simplicidade, sobre assumir isso e usar isso ao seu próprio favor. 

O caráter essencialmente simplista de Janky Star é seu ponto mais positivo, mas também, o mais questionável. Digo isso, porque, enquanto Ives transmite não apenas uma certa tranquilidade, solitude e familiaridade por sua, até mesmo em seus instantes mais catárticos, é difícil colocar, em palavras, o que realmente acontece aqui. Desde sua duração enxuta, de apenas 27 minutos e com canções que raramente passam da marca de 3 minutos, até sua produção, que, embora variada, trabalhe sobre bases que, pelo menos em primeira análise, parecem minimalistas, Janky Star se mantém contido, mas honestamente bonito. Ouvindo ele, me lembro do apartamento que falei mais cedo, e como ambos, o local e as músicas, conseguem fazer coisas totalmente extraordinárias parecerem tão cotidianas, mas ainda assim, sem tirar os brilhos dela. Ela transformou algo especial em familiar, sem retirar sua excentricidade. 

Diferente de seu primeiro álbum, que tentou conter as diferenças, Janky Star nasce mais liberal. Ele foi gravado com um gravador Roland MC-505, o mesmo que ela usou durante o período de sua faculdade e o mesmo que M.I.A. usou em sua época. Isso não impediu, todavia, que o leque de sons por aqui se abrisse e se expandisse pelas bordas. Olhe, por exemplo, para “Burn Bridges”, onde as inseguranças de se mostrar vulnerável dentro de um relacionamento surgem em meio de batidas que lembram um pop europeu com elementos da PC Music — não é complicado de enxergar algumas influências e estilo de Caroline Polachek, inclusive. Partindo para o R&B, ela canta sobre sobriedade e como cada dia é um desafio, mas igualmente compensador em “Lazy Day”, para relembrar as discotecas e fliperamas oitentistas em “On the Ground”. Por mais que tudo soe complexo, na prática, tudo parece originalmente orgânico.

Dentro dessa dialética, as narrativas também são cirurgicamente escritas. Pensando sobre essas faixas, eu me lembro de Mitski, não pelo estilo ou algo do gênero, mas sim como ambas conseguem contar muita coisa em pouco espaço e tempo. Na abertura, “Isn’t It Lovely”, as memórias são a principal coluna, e embora consigam ser detalhadas, você fica curioso para saber mais sobre um passeio do qual ela guardou uma frase qualquer em sua cabeça. Mais tarde, “Shelly”, a música mais orientada para o rock, ela relembra uma personagem de Twin Peaks e se apaixona por ela. No entanto, não fica claro se é um amor lésbico, se ela assume um outro personagem ou se é algo além disso, totalmente platônico e televisivo — no entanto, o brilho é precisamente esse. “Lullaby”, a melhor, fecha o álbum com pura catarse, mesclando autoconsciência e humor. “I watch that movie ten times a day / I can recite it, you press replay”, ela canta. Janky Star, em seu brilho, é como um desses filmes que nós nunca cansamos. Mesmo tendo extraído tudo dele, há um conforto e a história continua. 

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