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Cracker Island

2023 •

Parlophone / Warner

7.0
Em seu oitavo álbum de estúdio, Gorillaz volta a apostar em um conceito criativo para guiar o projeto, porém, com uma estranha divulgação, esquecem-se um pouco de criar algo coeso e que vá além dos singles.
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Cracker Island

2023 •

Parlophone / Warner

7.0
Em seu oitavo álbum de estúdio, Gorillaz volta a apostar em um conceito criativo para guiar o projeto, porém, com uma estranha divulgação, esquecem-se um pouco de criar algo coeso e que vá além dos singles.
28/02/2023

No ano de 2020, durante a pandemia, Damon Albarn e Jamie Hewlett, as mentes por trás da banda virtual Gorillaz, fizeram o melhor para deixar a cabeça dos fãs ocupadas, já que, logo no começo daquele ano, iniciaram o projeto Song Machine: Season 1. Cada mês, um single era lançado, e o projeto final acabou sendo um álbum super divertido, com canções contendo a produção cartunesca característica da banda. E, como o álbum agradou tanto a crítica, quanto o público, os fãs do grupo estavam contando que o próximo lançamento seria uma continuação, um Song Machine: Season 2. Porém, no meio do ano passado, descobrimos que os planos da banda eram diferentes, quando eles lançaram o primeiro single desse novo LP, a faixa título “Cracker Island”. Já neste primeiro lançamento, pudemos ver que o grupo quis voltar a criar álbuns com algum conceito, prática que foi deixada um pouco de lado em Song Machine, que era mais uma coleção de singles do que qualquer outra coisa. Para Gorillaz, esses conceitos sempre funcionam como um jeito de dar continuidade à gigantesca história que Jamie Hewlett criou para a banda e seus quatro membros: 2-D, Murdoc, Noodles e Russel (eu digo “quatro membros”, mesmo que às vezes sejam cinco, depende se Ace, de As Meninas Superpoderosas, está ou não disponível).

Damon Albarn já é bem acostumado a usar a imagem de uma ilha para desenvolver algum comentário sobre a sociedade moderna. No incrível (e infelizmente, ainda relevante) Plastic Beach, de 2011, é contada a história de uma ilha que contém uma praia feita inteiramente de plástico, esta que é usada como uma alegoria para os temas de poluição, mudanças climáticas e toda a forte mensagem ambientalista que o álbum carrega. Mas, em Cracker Island, devido às várias letras em alusão à influenciadores digitais e redes sociais, é seguro dizer que, dessa vez, a ilha é usada para representar um lugar cheio de pessoas viciadas nas inúmeras coisas artificiais do nosso dia-a-dia. Na canção que abre o álbum, a faixa-título, é dito como os residentes dessa ilha fazem parte de uma espécie de culto, fortalecendo o ponto de que esses residentes não pensam por conta própria, mas são apenas controlados pelo lugar em que vivem. Também vale ressaltar que, essa música, é facilmente a melhor do álbum. É uma canção extremamente cativante que virou uma favorita dos fãs, devido ao refrão de grudar na cabeça, somado ao groove impecável do baixista Thundercat, que aqui faz uma participação especial. Porém, infelizmente, o mesmo não pode ser dito para o resto do LP, que está provando ser mais um divisor de águas na carreira da banda, e sinceramente, não é difícil ver o porquê.

Começando pela divulgação um tanto estranha que o projeto recebeu, já que, no dia que ele foi oficialmente lançado, Gorillaz já havia nos entregado 5 faixas que nos davam um gosto do LP. E isso acabou estragando um pouco o fator surpresa que o projeto poderia ter, já que, das dez faixas contidas nele, metade a gente já tinha escutado. Não apenas isso, mas, conforme você ouve o disco, rapidamente percebe que os singles são, de muito longe, o melhor que esse álbum tem para oferecer, enquanto o restante dele varia bastante em qualidade, e nunca chega a ser mais do que apenas OK.

No entanto, como estamos falando de singles, nós temos “Silent Running”, lançado no final de janeiro deste ano, contando com a participação de Adeleye Omotayo, um membro de turnê antigo da banda, e também conhecido por fazer colaborações com Amy Winehouse. Nesta canção, que, instrumentalmente falando, é bem tranquila e serena, o conceito do álbum vem à tona.  2-D canta sobre perambular pelas páginas da internet e descer, incessantemente, a infinita linha do tempo das redes sociais, tudo como uma maneira de distração dos nossos problemas, procurando por um mundo melhor, comparando esse ato, a sensação de correr silenciosamente.

Estes mesmos sentimentos também são transmitidos nos versos de Bootie Brown, na faixa seguinte, “New Gold”, segundo single lançado para esse disco, que também conta com a participação de Kevin Parker, conhecido por criar e comandar o projeto Tame Impala. O refrão dessa música, cantado por Parker, expande o universo que a banda cria no álbum, especialmente com ele detalhando como a entrada para a ilha é debaixo d’água (fato também confirmado por 2-D em uma entrevista com a DIY Magazine). Essa temática subaquática também faz sentido se pararmos para pensar que, o título da canção anterior, “Silent Running”, é também um modo de operação para submarinos navais que desejam permanecer o mais silenciosos e indetectáveis o possível. Na parte instrumental, a faixa é bem dançante, com uma linha de baixo proeminente e uso pesado de sintetizadores, tudo que é de se esperar de uma canção na qual Kevin Parker é creditado na produção. Apesar de que, quem conhece a carreira do artista, sabe que mesmo este não sendo um trabalho ruim, está bem longe do nível alto de qualidade que ele estabeleceu em lançamentos anteriores.

Em “Baby Queen”, nós temos uma temática lírica um pouco inesperada, tanto pelo seu conteúdo, como pelo fato de ela se distanciar do conceito que o projeto traz: a canção conta um sonho que Damon Albarn teve. De acordo com o cantor, em Novembro de 1997, quando ele estava fazendo um show na Tailândia com a banda Blur, a princesa do país, que na época tinha apenas 14 anos e estava sentada perto da mesa de mixagem na parte de trás do palco, mergulhou na platéia assim que “Song 2” começou a tocar. Ele diz também que “recentemente, eu tive um sonho com essa princesa, ela estava crescida e nós passamos um tempo juntos”. O instrumental dessa canção é bem etéreo, com vários sintetizadores, passando realmente a sensação de estar tendo um doce sonho.

E, por fim, temos “Skinny Ape”, uma música que, apesar de ter uma construção um pouco lenta, o break que ocorre na sua metade e final, é extremamente divertido e contagiante, com 2-D repetindo a frase “I’m a Skinny Little Ape” de uma maneira que, com certeza, vai fazer o ouvinte ao menos bater a cabeça. Na parte lírica, Albarn/2-D entrega uma triste mensagem sobre a sensação de envelhecer e estar ficando para trás. Mas, apesar disso, tem uma coisa nessas letras que me agrada bastante, que é a visão de Albarn em relação a geração atual: ao invés de criticar negativamente, ou se expressar contra ela, ele apenas diz que deseja, um dia, ser salvo por ela: “Haverá um tempo e haverá um sinal / Quando todas as crianças que cancelaram o tempo vão / Pegar minhas mãos e me puxar para cima de novo / Me alegrar e me ajudar a andar de novo”.  Porém, ele também logo nos avisa para não nos preocuparmos tanto, afinal ele é apenas um personagem de desenho e um “magrelo macaquinho”.

Como mencionei, Cracker Island parece passar muito tempo focando em seus singles e, no processo, acaba se esquecendo da coesão e ritmo que são necessários para criar um bom álbum. Digo isso pois, infelizmente, o resto dos momentos desse LP são, na sua maior parte, bem decepcionantes ou simplesmente chatos, como por exemplo, “Tarantula”. De todas as faixas no álbum, essa é a que conta com a produção mais fraca, e por conta disso, a canção toda é prejudicada, tornando-se bem monótona. Para ser sincero, toda a produção desse álbum, mesmo nos seus melhores momentos, deixa um pouco a desejar, principalmente já que estamos falando de uma banda que no passado nos entregou joias no quesito produção, como Demon Days e o já mencionado Plastic Beach. Cracker Island passa muito longe da qualidade desses álbuns, ou até mesmo de Song Machine. Nas melhores horas, as canções aqui são divertidas e vão apenas grudar na sua cabeça por um tempo, nas piores, elas são vazias, sem identidade e simplesmente sem graça.

Entre os pontos baixos, a canção “Oil” conta com a lendária Stevie Nicks, em uma participação não tão lendária assim. A faixa chega até a ter um ritmo divertido, mas no final das contas, acaba sendo apenas mais uma canção de electropop genérica nesse álbum. O lugar dela na lista de faixas também não ajuda nem um pouco, já que “Oil” é apresentada ao ouvinte logo após a divertidíssima “Cracker Island”, é certamente uma quebra de ritmo. Em “Tormenta”, com Bad Bunny, descobrimos que não precisamos de uma música do Gorillaz com Bad Bunny. A canção tem o estilo reggaeton, típico do artista, e apesar de ser legal ver Gorillaz, pela primeira vez, experimentando com esse estilo musical, a faixa é apenas uma versão extremamente pobre e sem criatividade do gênero. A participação de Bad Bunny nos vocais não adiciona nada à canção, e novamente, a produção é decepcionantemente fraca. Não há nenhum motivo para eu escolher ouvir essa faixa em vez de qualquer outra música do gênero, nada nela se destaca, tirando o fato que é Gorillaz fazendo uma música de reggaeton.

Como o título da canção talvez já entregue, “The Tired Influencer” fala sobre influenciadores digitais e suas dependências em redes sociais. A crítica feita nessa faixa talvez seja um pouco óbvia, mas a banda, com sucesso, consegue apontar a atenção do ouvinte para outro detalhe: os samples da Siri, repetindo frases que a assistente virtual pode dizer, são proeminentes durante toda a duração da faixa, ela até recebeu um crédito de vocais adicionais nessa música. Tudo isso faz essa canção ter uma identidade bem única, além de reforçar os pontos de dependência tecnológica.

E, para encerrar o LP, “Possession Island” aposta em uma calma balada, esta que marca a segunda colaboração do grupo com Beck. A canção é muito bonita e tem um instrumental que, na sua maior parte, é guiado apenas por um piano. Porém, na etapa final, ela pega o ouvinte de surpresa, e se transforma em uma canção mariachi, com direito a violões e trompetes. É uma boa música, mas uma maneira um pouco frustrante de encerrar o álbum, se levarmos em consideração todo o conceito que nos foi apresentado até o momento. As letras apenas falam sobre esperar por dias melhores, que estamos todos juntos nessa e blá, blá, blá. Uma mensagem positiva, porém clichê e que não causa o impacto desejado, especialmente se olharmos para a maneira desconcertante e até meio assustadora que “Pirate Jet” encerrou o último álbum conceitual da banda.

Vale também mencionar que, apenas três dias após o lançamento de Cracker Island, o grupo lançou uma versão deluxe do álbum, trazendo algumas músicas novas, um remix e uma versão diferente de “Silent Running”. O fato de essa versão ter sido lançada tão pouco tempo depois da versão original, não ajuda a divulgação bem estranha que essa era da banda está recebendo, mas ainda assim, existem dois momentos em Cracker Island (Deluxe) que acho valerem a pena comentar: primeiro, a faixa “Captain Chicken”, essa que contém mais uma colaboração da banda com o rapper Del The Funky Homosapien, que foi responsável pelos icônicos versos em uma das músicas mais conhecidas do grupo, “Clint Eastwood”. Essa faixa, bom, ela é completamente maluca, e é o mais perto de um som típico do Gorillaz que a banda chega nesse projeto inteiro, com uma produção divertidíssima e cartunesca, que conta com, nada mais nada menos, que samples de galinhas.

O segundo, mas não menos importante, momento que eu gostaria de comentar é, obviamente, a participação do paulista MC Bin Laden na canção “Controllah”. Anunciada pelo funkeiro no meio do ano passado, quando a banda veio ao Brasil para tocar no MITA Festival, essa é uma colaboração que muitos fãs brasileiros, incluindo eu, estavam aguardando. Felizmente, não fomos decepcionados, pois a música é ótima. Os versos de MC Bin Laden são extremamente infecciosos, ele manda uma frase após a outra com uma facilidade de invejar, e é facilmente o ponto mais alto nessa versão estendida. E, depois de ouvir ambas essas faixas, não consigo deixar de me perguntar qual a razão de elas terem sido deixadas de fora da versão original, já que, metade do que apresentado lá, é pior do que essas duas músicas.
No final das contas, Cracker Island, não é um projeto ruim. Ouvir o álbum do começo ao fim é certamente uma experiência divertida, e para os mais aficionados pela história gigantesca da banda, é também um álbum que expande bastante o universo de Gorillaz. Mas, como o oitavo LP da banda, e tendo uma qualidade bem inferior a vários que o precederam, é álbum que, com o tempo, muito provavelmente vai cair um pouco no esquecimento, já que nada aqui chega perto de se comparar com a qualidade dos lançamentos mais queridos do Gorillaz.

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