SOUNDX

Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven

2000 •

kranky / Constellation

10.0
Hoje Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven comemora o seu vigésimo terceiro aniversário. Para celebrar, daremos uma olhada crítica e aprofundada nesse que é o álbum mais singular de Godspeed You! Black Emperor.
56626000

Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven

2000 •

kranky / Constellation

10.0
Hoje Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven comemora o seu vigésimo terceiro aniversário. Para celebrar, daremos uma olhada crítica e aprofundada nesse que é o álbum mais singular de Godspeed You! Black Emperor.
09/10/2023

Em 1987, o grupo londrino Talk Talk, até então conhecido por um som caracterizado pela new wave oitentista e pelo art pop, tomaram total liberdade criativa sobre seu quarto álbum de estúdio. Depois de um ano de gravação, em 1988, lançaram o Spirit of Eden, um projeto inesperado e inovador para a banda. Nele — e no seu sucessor Laughing Stock, de 1991 —, a sonoridade de Talk Talk passou por uma repaginada completa, ao ponto de que se uma pessoa desavisada ouvisse os discos pré e pós Spirit of Eden, com certeza acharia que se tratam de duas discografias distintas. Essa mudança drástica no som se criou a partir da mistura de gêneros e influências que a banda empregou nesses dois projetos: as canções claramente eram de rock, porém havia um nível de sutileza e minimalismo, com toques de jazz, folk vanguardista e música ambiente que não eram comumente atribuídos ao rock até aquele momento.

Ao passo que Talk Talk, aos poucos e inconscientemente, se tornavam uma grande influência para bandas que foram surgindo nos anos seguintes, em outro canto do mapa, na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, o mesmo improvável acontecimento iria ocorrer com o Slint e o lançamento de seu segundo LP, Spiderland. Conhecido por suas canções com atmosferas sombrias, compassos musicais irregulares e dinâmicas com mudanças repentinas e dramáticas, Spiderland não é apenas um lançamento singular para o rock nos anos 90, como também, junto a Spirit of Eden e Laughing Stock, é responsável pela criação de um novo subgênero do rock, o post-rock. Não se sabe ao certo a primeira vez que o termo foi usado na mídia, mas é comumente atribuído ao jornalista Simon Reynolds a popularização do mesmo. Em uma edição da revista Mojo, publicada em março de 1994, Reynolds, em sua review para o álbum Hex, da banda Bark Psychosis, menciona que “o futuro do rock aparenta estar mais vivo desde um bom tempo, graças à Bark Psychosis e sua laia ‘post-rock’.”. Já em maio do mesmo ano, Simon expandiu o conceito em um excelente texto escrito para a revista The Wire: “‘Post-rock’ significa usar instrumentação de rock para fins ‘não-rock’, usando guitarras como facilitadoras de timbres e texturas em vez de riffs e power chords. Cada vez mais, grupos de post-rock estão aumentando o conjunto tradicional de guitarra/baixo/bateria com tecnologia de computador: o sampler, o sequenciador e o MIDI (Musical Instrument Digital Interface)”.

Coincidentemente, o texto de Simon não foi o único acontecimento importante para o post-rock que ocorreu em 1994, pois esse também foi o ano em que uma das mais famosas e influentes bandas do gênero se formou. Começando como apenas um trio liderado por Efrim Menuck, Mike Moya e Mauro Pezzente, e rapidamente expandindo para um grupo com nove pessoas, Godspeed You! Black Emperor é responsável por alguns dos maiores e melhores clássicos que o post-rock tem para oferecer. Seu álbum de estreia, F♯ A♯ ∞, é considerado um LP essencial para o gênero, um que apresenta todas as características típicas do som da banda: os crescendos instrumentais que gradualmente soam mais épicos e grandiosos; a atmosfera apocalíptica e desolada; a substituição de vocais por gravações de áudio, essas que são sempre usadas para passar alguma mensagem protestante — às vezes até mesmo anarquista; e as composições orquestrais criadas a partir de movimentos.

Apesar de  F♯ A♯ ∞ ser aclamado pelos fãs de banda por ser, de fato, um ótimo projeto, sempre o considerei uma pequena fração, um protótipo, por assim dizer, do real potencial que Godspeed tem para usar sua música como meios de transportar o ouvinte para outro mundo, e com seu segundo álbum de estúdio, a banda fez exatamente isso. Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven não só demonstra toda grandiosidade que Godspeed é capaz de evocar com sua música, mas também prova que não é preciso vocais ou letras para contar uma história, transmitir sentimentos de alegria, tristeza ou medo e fazer o ouvinte construir um inteiro universo em sua mente. É um projeto no qual as camadas, tanto instrumentais quanto filosóficas, podem ser exploradas infinitas vezes e você ainda sim vai encontrar algo novo na próxima vez que o ouvir — a duração média das quatro músicas ser 20 minutos ajuda bastante nesse fator também.

Com a faixa de abertura, “Storm”, por exemplo, o disco é perfeitamente iniciado com uma tranquila linha de guitarra sendo sutilmente tocada, que é, aos poucos, acompanhada por trompetes, assoprando leves notas que soam como o calmo início de algum grandioso processo. Conforme a linha de guitarra é repetida, outras guitarras entram na instrumentação, juntas aos violinos, passando cada vez mais a sensação de se estar presenciando algo gigante, tal qual o próprio universo, sendo construído. Gradualmente, os instrumentos parecem ir acordando, até que as duas baterias entram, iniciando uma sessão digna de entrar em qualquer discussão na qual o tópico seja: “Os instrumentais mais edificantes e inspiradores de todos os tempos”. E com direito a uma interpretação do hino cristão “Amazing Grace” em uma de suas sessões, os primeiros 17 minutos de “Storm” funcionam como uma experiência quase que religiosa, repentinamente interrompida e dissolvida em uma enorme muralha de um tenso e amedrontador som. É aqui que a banda mostra, pela primeira vez neste álbum, a capacidade que possuem de passar ao ouvinte a sensação de estar presenciando o apocalipse em forma sonora, este que pode ser a representação do fim literal do mundo, ou algo um pouco mais “metafórico”.

O que quero dizer com isso? Bem, uma escolha artística que Godspeed sempre empregou em seus álbuns é o uso de gravações de áudio para comunicar uma mensagem que reflete a opinião da banda em vários tópicos sociais como governo, religião, capitalismo e guerras, esses que são sempre olhados por lentes protestantes. Em vários casos, essas opiniões vão até além da música, como, por exemplo, esse comunicado não muito carinhoso deixado pelo grupo nos amplificadores de sua última turnê. Porém, diferente do tom provocativo deste caso, quando essas opiniões são transmitidas na música, o tom é quase sempre mórbido e sombrio, de uma maneira que soa, ao mesmo tempo, rebelde e desesperançosa. E é isso que você ouve nesse álbum, um grupo que, além de estar cansado de viver a mercê das instituições mencionadas acima, tem total ciência de que elas serão a chave principal nesse “apocalipse metafórico”, este que não se trata do final do mundo em si, mas sim o fim e o desmoronamento da sociedade como a conhecemos. Nos minutos finais de “Storm” temos a primeira gravação de áudio do LP, gravada em um mercado 24 horas de um posto de gasolina da companhia Arco. Nela, uma locutora em um alto-falante diz que a Arco desencoraja qualquer tipo de interação entre pessoas moradoras de rua e que não são funcionárias da Arco, mas que ainda assim se oferecem para lavar janelas dos carros e fazer o reabastecimento de gasolina. Após uma experiência musical tão catártica, o ouvinte é colocado nesta crua realidade: a milionária empresa Arco, poderia empregar essas pessoas de rua se oferecendo a fazer o serviço de limpeza, muito provavelmente a troco de esmola? Sim. Poderia apenas não dizer nada sobre a situação considerando que, no final do dia, essas pessoas de rua não iriam atrapalhar de maneira alguma a renda da empresa? Sim. A decisão foi não fazer nada disso e incentivar os clientes a não ajudarem os trabalhadores de rua? Sim.

Após essa sessão, a música toma um rumo muito mais sombrio, refletido na instrumentação formada por drones e uma triste melodia de piano que é tocada enquanto ouvimos outro trecho de áudio, que desta vez aparenta ser de um oficial militar, com sua voz distorcida e suas palavras inaudíveis — exceto a frase: “Vai demorar muito”. E assim, “Storm” nos deixa, com essa desconcertante frase final e uma trágica contradição no título. Pois “Tempestade” é uma palavra que remete à expressão “a calmaria após a tempestade”, mas nos momentos finais dessa canção, não existe calmaria: uma pessoa necessitada e negligenciada por quem poderia ajudá-la, tendo que lavar carros na rua a troco de esmola; um general tentando falar com seus soldados no meio de uma batalha e tendo sua voz engolida por todo o barulho ao seu redor. Para essas pessoas, não há calmaria depois da tempestade, só há caos e estática.

Instrumentalmente falando, “Static” pode ser considerada a mais direta do álbum, já que na maior parte da canção, a banda faz um trabalho simplesmente maestral no quesito criar suspense. A faixa é construída em cima de notas que se repetem e criam uma atmosfera arrepiante — a sensação é de estar ouvindo a trilha sonora de um leão à espreita, esperando para caçar sua presa. E com “Sleep”, temos uma faixa na qual sua beleza é algo que uma crítica de um milhão de palavras não poderia descrever. Desde o monólogo de partir o coração que abre a peça, até a absurdamente linda melodia de violino na parte final da música, essa não é apenas a composição mais dinâmica e complexa que Godspeed já criou, como é também a melhor. Obviamente, arte é subjetiva, todos terão interpretações diferentes baseadas em uma quantidade incontável de fatores, e quando estamos falando de um álbum como Lift Your Skinny Fists, estas infinitas interpretações podem ser multiplicadas por dois. Mas, o carinho que eu tenho por esse disco se dá, dentre outras coisas, ao fato de eu enxergar ele como um identificável conto sobre as dificuldades do cotidiano, um conto resumido nos títulos e conteúdos das três primeiras faixas: “Storm”, “Static” e “Sleep”. “Storm” termina com uma gravação de Arco, uma empresa que a sociedade capitalista permitiu existir; “Static” contém uma desconcertante gravação de uma mulher consumida pelo fanatismo religioso; e em “Sleep”, um senhor relembra sua divertida infância passada em Coney Island, “o parque do mundo”, e em que as coisas na ilha mudaram para o pior após a Segunda Guerra Mundial. Tentamos entender e lidar com toda a tempestade e a estática das nossas vidas ao mesmo tempo que só queremos vivê-la em paz. É um interminável processo que nos cansa e inevitavelmente nos leva ao sono.

Da mesma maneira que “Storm” iniciou o álbum como se algo grandioso estivesse sendo construído, “Like Antennas To Heaven” o encerra como se tudo tivesse sido destruído. Ela evolui de uma melancólica atmosfera de despedida, para desconfortantes drones e manipulações digitais de som voando em torno dos seus ouvidos, às vezes soando igual a coros angelicais, às vezes soando como se estivessem gritando de dor. A sensação passada é a de estar presenciando o que sobrou do planeta Terra após o apocalipse. E o que sobrou? Bem, nada. Essa faixa transmite uma atmosfera misteriosa e um sentimento de estar flutuando em um espaço vazio, onde antes havia um planeta, mas agora não é nada, um buraco negro gigantesco. E à medida que os drones avançam, a sensação de viajar pelo espaço aumenta. A faixa eventualmente chega a um ponto em que parece querer levar o ouvinte às estrelas, ou talvez o fazer testemunhar a destruição de uma. Mas, durante todo o processo, a única coisa que persiste é esse estranho sentimento de solidão. Não existe mais sociedade, tudo está corrompido ou simplesmente desapareceu completamente, estou viajando pelo espaço, mas estou sozinho enquanto faço isso.

No final das contas, com esse álbum, Godspeed You! Black Emperor tem apenas um pedido ao ouvinte: “Levante seus punhos como antenas aos céus”. Mas seria isso um ato de comemoração ou submissão? Você está comemorando por finalmente ter deixado sua tempestade para trás e poder dormir, ou está se rendendo à estática? De qualquer maneira, o céu está muito longe, se você apontar uma antena para ele, provavelmente nem receberá sinal.

Esse e qualquer outro texto publicado em nosso site tem os direitos autorais reservados. 

FIQUE ATUALIZADO COM NOSSAS PUBLICAções

Assine nossa newsletter e receba nossas novas publicações em seu e-mail.

plugins premium WordPress