2013

SM Entertainment

LOVE & PEACE

Esqueça os álbuns vendidos aos montes pelo Girls' Generation na Coreia, LOVE & PEACE, terceiro disco japonês do grupo, é o melhor já feito por elas até hoje.

8.8
EM 03/07/2022

No início dos anos 2000, o K-pop quase chegou ao fim em decorrência de uma crise econômica que afetava toda a Coreia do Sul. Por sorte, a empresa SM Entertainment encontrou uma solução bastante inusitada para enfrentar este problema: fazer com que BoA, uma artista solo e que havia sido treinada por 2 anos, lançasse o seu primeiro álbum de estúdio japonês, Listen to My Heart, de 2002. Esse lançamento, fez com que ela se tornasse a primeira artista pop sul-coreana a viralizar no Japão e quebrar algumas barreiras históricas, como a péssima relação entre os dois países e a dificuldade de trocas culturais através deles, que se deu devido à ocupação japonesa na península coreana nos anos de 1910 a 1945. Desde então, não existe um grupo de K-pop que não realize alguma promoção voltada ao público japonês. Porém, anos depois daquele momento devidamente importante, a grande maioria dos discos e músicas lançados por idols da Coreia no país vizinho — com exceção de BoA —, pareciam render poucos destaques. Felizmente, isso veio mudar quando em 10 de dezembro de 2013, o Girls’ Generation lançou o seu terceiro álbum japonês: LOVE & PEACE.

Formado por 9 integrantes, o Girls’ Generation, ou SNSD, como muitos se referem à elas, foi o grupo responsável por subverter a ordem do K-pop na época em que estreou, meados de 2007. Até aquele ano, a indústria musical sul-coreana era dominada por artistas masculinos, os quais sempre ocupavam o topo das paradas e o primeiro lugar nas premiações. Mais do que um sucesso, o SNSD fez com que todos os atos femininos ganhassem visibilidade e poder neste meio artístico. Não demorou muito para que elas recebessem, então, o título de Grupo da Nação. Entre inúmeros recordes, prêmios, momentos marcantes e um impacto sentido até os dias de hoje, nada feito pelo SNSD parece ter dado tão certo quanto a sua estadia pelo Japão. 

Apesar de conter algumas das melhores e mais importantes músicas do K-pop, como “Gee”, “Into The New World”, “Genie”, “The Boys”, “I Got a Boy” e outras, os discos coreanos do Girls’ Generation nunca tiveram aspectos técnicos primorosos como os japoneses. Uma das explicações é que as canções escolhidas para compor um álbum lançado no Japão costumam ser mais enxutas, assim, evitando os fillers e a quebra de ritmo que existem sempre nos lançamentos coreanos do grupo. Neste sentido, LOVE & PEACE é um exemplo perfeito de que modo a seleção de peças mais acessíveis, com ganchos viciantes e melodias coloridas, consegue funcionar bem. A maioria das b-sides encontradas aqui, podem facilmente engolir grande parte dos lançamentos domésticos, os quais costumam apresentar um número muito inferior de aproveitamento. 

Centrado em uma diversidade de ritmos, o disco começa com “Gossip Girls”, ao melhor estilo f(x) possível. Em seguida, “motorcycle” surge com roncos de uma motocicleta, um refrão estonteante e um break instrumental cheio de elementos eletrônicos;  e “FLYERS”, por sua vez, condensa a essência do pop-rock dos anos 2000, em que acordes de guitarra e um “Hey ho let’s go!” pra lá de Avril Lavigne formam elementos únicos que só elas sabem utilizar. O álbum segue com “GALAXY SUPERNOVA”, uma verdadeira explosão de texturas com direito a frases de efeito e um ritmo que renderia uma faixa-título épica em coreano. Depois, “LOVE & GIRLS” abre a sessão de faixas mais carismáticas, e essa, soa como um hino de líder de torcida. Na sequência, o instante mais SNSD da obra, vem com “BEEP BEEP”, orquestrada por palavras percussivas, aquelas que criam melodias próprias somente por serem pronunciadas, esforço digno de contemplação e que apenas a formação original, com Taeyeon, Jessica, Sunny, Tiffany, Hyoyeon, Yuri, Sooyoung, Yoona e Seohyun, pode render. Por isso é tão preciosa quanto qualquer outra neste projeto. Partindo para a segunda parte, “DO THE CATWALK”, com assobios e uma letra que transporta o ouvinte para o universo doce criado por elas, rende os minutos mais ricos próximo do fim ao lado de “Karma Butterfly” e “Everyday Love”, sendo essa última, uma quase resposta à “Halo” de Beyoncé.

Como se tivessem tido uma aula com Kyary Pamyu Pamyu, o SNSD faz neste álbum, um exercício criativo para criar sons pegajosos e voláteis ao mesmo tempo. Esse balanço, nunca mais foi repetido ou, então, executado da mesma forma. Parece irônico, já que o K-pop e todo o sistema trainee foram baseados na cultura de idols japoneses. Essa necessidade de retornar ao Japão, bem como este ser o melhor disco japonês já lançado por um grupo sul-coreano, nos revela alguns fatores importantes sobre o impacto exterior deste mercado, que hoje, pode ser creditado a poucos grupos, e o Girls’ Generation é um deles.

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