City Slicker
2021 • POP • ACROPHASE
POR KAIQUE VELOSO; 23 de AGOSTO de 2021
6.8

É curioso pensar que a música mais famosa do projeto e, até mesmo, de toda a banda é “Loretta”. Embora seja bem executada e divertida — sendo o maior destaque do EP — essa canção não tem sequer um aspecto que soe contemporâneo, ou que remeta à modernidade, o que torna difícil acreditar que as pessoas estariam dispostas a consumir tal estilo. Somando 1,4 milhão de visualizações, até o momento, “Loretta” parece ter agradado ao público com sua abordagem city-pop, a qual traz consigo elementos da cultura citadina japonesa, bem como instrumentos e pegadas do jazz, como o saxofone. No geral, Ginger Root se mostra adaptado ao ato de impersonar, de forma a moldar-se a uma estética passada e tão específica que a falta de nuances explícitas põe em cheque a versatilidade artística do grupo. É o mesmo que usar diversas padronagens de gravata, mas vestir o mesmo terno todos os dias. Mudanças singelas demais para impactar na visão geral do produto.

City-pop é uma das atribuições cabíveis a esse curto trabalho. Esse subgênero diferencia-se pela corrente popular nas cidades do Japão dos anos 80. Se você se lembra de algum filme japonês antigo, provavelmente esse som lhe seja familiar. É nesse sentido que cabe a interpretação de City Slicker como uma trilha sonora para uma dessas películas: isso seria, em partes, até mais satisfatório, visto que a obra cinematográfica cumpriria com o papel de entreter e captar atenção — algo que o EP falha em prover ao ouvinte. Além disso, notar similaridades tão óbvias e escancaradas é um triste exercício que se faz ao ouvir o CD: o mesmo padrão de bateria, nas três faixas seguidas “Neighbor”, “Juban District” e “City Slicker”, é um ponto que corrompe a real qualidade das músicas, que são evidentemente boas. A faixa-título, por exemplo, é bastante cativante e se evidencia pela questão instrumental eletrônica peculiar e divertida. “There goes the city slicker / […] He’s just trying to get through, yeah, he’s fighting for you”, ele canta com o bom-humor fundamental a esse projeto.

No que diz respeito à opinião do grupo sobre o seu estilo, o vocalista afirma que o som é um tipo de “agressive elevator soul”. A agressividade, no entanto, é carecida aqui. A produção comprime os vocais, deixando-os difusos ou sem profundidade. Mas, apesar de tudo, o “soul de elevador” é graciosamente complacente. Não é como se fosse torturante e dolorido escutar o EP. City Slicker é uma ótima pedida para quem admira um som clássico de pop psicodélico: é relaxante e agradável, tem singles e melodias chiclete e foge da obviedade de vertentes musicais da atualidade. Compete a quem ouça apenas desejar que o dito vigarista consiga lutar e continuar perambulando pela cidade.