The Kick
2022 • POP • PIAS
POR DAVI BITTENCOURT; 07 de MARÇO DE 2022
7.9

O amor à música da década de 80 sempre foi algo que fez parte da carreira de Louisa Allen, mais conhecida como Foxes. O All I Need é um dos melhores exemplos sobre como as influências retrô foram utilizadas em sua discografia. Agora, em The Kick, a artista traz novamente o synthpop oitentista visto também em seu disco anterior. Entretanto o que diferencia seu novo álbum ao de 2016 é a forma como o gênero é usado. Enquanto o disco lançado há 6 anos sofria de certos problemas de falta de criatividade na utilização do estilo musical, The Kick mostra saber criar músicas synthpop melhores. Durante todo o projeto, são entregues ótimas e divertidas canções, sem que, em nenhum momento o ouvinte sinta alguma das falhas presentes no registro que o antecede, criando então seu melhor lançamento.

O disco teve grande parte de sua elaboração feita na pior época da pandemia da covid-19, tempo no qual ocorreram os lockdowns. Com isso, Foxes parece ter pensado nesse álbum como uma forma de escapismo à situação vivida por ela. No que tange à composição, a cantora aborda um tom confessional, descrevendo sentimentos como a solidão e a vontade de estar se divertindo acompanhada de outra pessoa. E mesmo com estas letras estando longe de ser algo de grande qualidade lírica, conseguem cumprir muito bem o que Louisa queria passar, demonstrando suas emoções de maneira divertida e descontraída. Um bom exemplo de como isso é feito no registro é a canção “Sister Ray”, que, em um comunicado, Allen contou tê-la escrito quando estava na quarentena desejando uma noite de festa. Assim, ela decidiu criar uma faixa que mostrasse esse sentimento de festejar com alguém (“We can makе tonight / One of those Sister Ray kinda nights”). Já as melhores canções neste aspecto são as que misturam esse conteúdo lírico, porém abordando também outros temas, como “Dance Magic”, que mostra um relacionamento embora cheio de complicações ( “I know you like when we fight / Gets you where you want to be” ), todas essas parecem diminuir quando estão dançando ( “But when we dance magic, oh / When you kiss me like I need it / So tragic”).

Além da maneira que Foxes aborda as emoções sentidas por ela durante o lockdown, temos sua produção como um fator que torna The Kick seu melhor álbum. Ainda que apresente pouca diferença em comparação à seus outros discos na forma que foi produzido, já que usa das mesmas influências do synthpop, resulta em algo melhor ao usar dos elementos de maneira melhor elaborada. Nesse sentido, o disco conta com uma grande riqueza de camadas, especialmente em “Forgive Yourself”, “Sky Love” e “Sister Ray” e uma certa sofisticação em algumas canções, por exemplo “Body suit” e “Gentleman”.

A coesão é algo também interessante a se comentar, visto que, de certa forma, ela contribui para que a experiência de se escutar The Kick seja ainda mais fascinante. É admirável como o registro se mantém no mesmo nível de coesividade durante grande parte do disco, apresentando poucos momentos em que o ouvinte sente uma quebra disso. Nesse ínterim, a música que chega mais perto de desapontar o ouvinte é “Too Much Colour”, por essa balada, em um álbum formado, em sua maioria, por faixas animadas acaba por quase tirar toda a atmosfera dançante dele. Ainda assim, o posicionamento da canção no disco faz com que esse não seja um problema tão grande.

Em geral, pode-se dizer que The Kick é o melhor lançamento de Foxes, o qual acerta não só por trazer uma evolução no uso de influências de décadas passadas como também pela maneira como a cantora aborda o que queria passar por meio desse disco. A artista aqui mostra o que ela pensou e sentiu durante o lockdown por meio de músicas divertidas, que fazem o ouvinte, por um tempo, se esquecer dos problemas da vida e apenas se divertir, como parece ser o que Louisa Allen tentou fazer por meio das canções do registro.