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But Here We Are

2023 •

RCA

6.8
O primeiro disco do Foo Fighters depois da morte de Taylor Hawkins é seu trabalho mais honesto e consistente.
Foo Fighters - But Here We Are

But Here We Are

2023 •

RCA

6.8
O primeiro disco do Foo Fighters depois da morte de Taylor Hawkins é seu trabalho mais honesto e consistente.
28/06/2023

Por mais que a arte imite a vida — como Aristóteles gostava de afirmar em seu tempo —, é a morte que realmente move os artistas. Seja a passagem de um familiar, a ânsia do tempo restante ou a necessidade de fazer algo significante em seus dias, a vida acaba sendo muito mais uma luta contra a chegada da morte, do que uma análise do tempo decorrido. O último álbum do Foo Fighters, But Here We Are, é o primeiro sobre essa perspectiva, partindo de uma lente mais madura. Nos últimos anos, o vocalista e líder do grupo, Dave Grohl, além de presenciar a morte de seu companheiro de décadas, o baterista Taylor Hawkins, viu, meses depois, a morte de sua mãe, Virginia, aos 84 anos. O Foo Fighters, então, que sempre tentaram ver suas vidas das formas mais diversas, finalmente captam elas do ponto de vista mais responsável possível.

Não seria absurdo dizer que But Here We Are é o melhor disco da banda, essa que nasceu da dissolução do Nirvana após a morte de Kurt Cobain nos anos 1990. Nos últimos trinta anos, o Foo Fighters tentou dar continuidade ao que o Nirvana foi um dia, mas sempre falharam. Grohl e seus camaradas pareciam presos no tempo, ainda acreditando que podiam encapsular a energia rebelde adolescente que tinham nos anos 90. O último disco do grupo, Medicine at Midnight (2021) — que ganhou alguns prêmios Grammy provavelmente graças ao falecimento de Hawkins dias antes da cerimônia —, sofria com esse problema identitário, no qual as canções tentavam pintar um grupo de jovens com espírito de liberdade, ao invés de mostrar homens nos seus quarenta-e-poucos anos. O resultado foi catastrófico e vergonhoso, para dizer o mínimo. Mas But Here We Are finalmente coloca o Foo Fighters no caminho de uma construção artística mais madura, analisando a carreira e vida delas pelo que ela é do que pelo que ela poderia ter sido. 

Por mais que But Here We Are seja o trabalho mais proveitoso da banda, ele ainda se mantém numa escala de apenas “um bom álbum”. Os momentos de acerto são mais presentes do que nos registros anteriores, mas ainda assim estão equilibrados demais com os erros. Ou seja, eles acertam bastante, mas erram muito também. São várias as canções que quebram a personalidade estereotipada que eles criaram ao longo dos últimos anos. Em “Under You” e “Hearing Voices”, um instrumental mais sóbrio briga com os riffs de guitarras enlouquecidas presentes nas outras obras do grupo, adotando algo mais simples, mas que reflete mais a temperança das composições. De mesmo modo, “Show Me How”, apesar de ser óbvia, adota um minimalismo que funciona, e “Nothing At All”, com seu carisma sem muito ponto de vista, acaba sendo um brilho no meio da escuridão. 

Por outro lado, falar que But Here We Are é responsável por colocar o Foo Fighters em um trilho para um lugar melhor, significa também que ele não foi forte o suficiente para levar eles até lá. Isso porque as faixas aqui presente ainda deslizam e caem nos mesmos problemas dos últimos discos. Na abertura, por exemplo, passagens bregas e sem personalidade compõe o refrão (“Kings and queens and in-betweens, we all deserve the right”), ao passo que a faixa homônoma do registro não consegue sustentar o potencial título, sendo uma coletânea perdida de ideias que perdura mais do que deveria. Em conjunto, “The Glass” soa extremamente datada, enquanto “The Teacher” não demanda dez minutos, não é tão épica quanto eles fazem parecer e soa como uma mescla mais rasa entre a discografia da banda com toques de Radiohead. 

No final do dia, no entanto, o propósito de analisar a vida e a morte é, de alguma forma, atingido de forma bem interessante. No meio de versos e refrões que ainda caem no âmbito do vergonhoso e progressões que frustram e não surpreendem, o Foo Fighters demonstra honestidade. Em “Rescued”, o desejo de ser salvo de um estado de luto é posto à vista; em seguida, “Under You” mostra os altos e baixos de seguir em frente; para questionamentos mórbidos sobre o futuro serem pauta em “Beyond Me”. Na última canção, “Rest”, a mensagem é tanto para aqueles que já foram, quanto para nós que ainda estamos por aqui e sofremos com a morte: “Rest, you can rest now / Rest, you will be safe now”.

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