Skinty Fia
2022 • PUNK/ROCK • PARTISAN
POR LEONARDO FREDERICO; 29 DE ABRIL DE 2022
7.2

Para os seus dois primeiros álbuns, Dogrel e A Hero’s Death, a banda irlandesa de Dublin, Fontaines D.C., utilizou a essência do post-punk para construir não apenas suas canções, mas também sua individualidade. Esse movimento, que emergiu em meados dos anos 1970, quando o punk estava no seu ponto mais forte, era, de certa forma, uma evolução do gênero, com elementos do funk estadunidense, música jamaicana e krautrock alemão. Era um estilo mais ousado, poético e experimental do que o punk. Nesses dois trabalhos, o grupo liderado por Grian Chatten, por sua vez, incorporou bem esses caracteres, bem como foi além, soando singularmente perante as outras bandas que surgiram nos últimos anos. 

No entanto, se houve uma queda visível entre Dogrel, de 2019, para A Hero’s Death, de 2020, o mesmo ocorreu na transição para o terceiro e último registro deles, Skinty Fia. Comparado com os trabalhos anteriores do grupo, o último lançamento deles é relativamente fraco, prolixo e redundante. Claro que, em nenhum momento, eles entregam faixas que são propriamente ruins, mas sim músicas que raramente vão além de uma paleta limitada de sons e temáticas, ambos os quais até já foram trabalhados anteriormente, mas de formas mais interessantes. Nesse sentido, Skinty Fia está longe de ser tão denso, impressionante e hipnotizante quanto os outros discos de Fontaines D.C., mas, em seus piores instantes, entrega algo decente. 

São poucos os momentos em que a banda tenta seguir o caminho que fizeram eles serem quem são: canções densas que ecoam como grandes massas de energia e que parecem te sugar para um lugar onde não há volta. Em Skinty Fia, isso raramente acontece, e quando acontece, não é em sua força máxima. Na faixa de abertura, “In ár gCroíthe go deo”, por exemplo, eles conseguem edificar uma progressão interessante, mas que se perde quando, no clímax, segue o caminho mais fácil e direciona para uma abordagem rock cru, que, apesar de não ser ruim, não parece ser tão incrível quanto a construção da canção faz parecer. O mesmo sucede em “Nabokov”, que, embora, comparada com as outras músicas, seja realmente densa, ainda ecoa vazia. 

Esses pontos de foco instrumental do post-rock e post-punk são tão decepcionantes que o verdadeiro destaque passa a ser quando eles entregam algo mais básico e simplista. “Big Shot” e “How Cold Love Is” não contam com grandes crescendos, mas ainda assim sabem trabalhar em cima de puxões em baixos e sintetizadores suaves. No entanto, talvez, o que faz elas serem tão boas são as composições: enquanto na primeira, surge uma analisa quase única sobre a batalha de um homem contra seu próprio ego; na segunda, a história de como pessoas viciadas em drogas podem machucar aqueles que amam é passada por uma letra muito bem estrutura e cirúrgica. Mais tarde “The Couple Across The Way” aparece com um ótimo uso de um acordeon e gaita de fole, criando uma homenagem muito interessante as raízes da cultura do país da banda, bem como “Skinty Fia”, a única faixa que realmente sabe usar os sintetizadores ao seu favor, trabalhando em cima de uma abordagem futurista e industrial.

Em seus outros instantes, Skinty Fia concretiza peças acertadas, mas que, sinceramente, não conseguem se destacar. Canções como “Jackie Down the Line”, “Bloomsday” e “Roman Holiday” são genuinamente boas em aspectos técnicos, mas carecem de personalidade. Em outras palavras, parece apenas que eles seguiam um padrão estabelecido do que era bom, e apesar de terem feito isso muito bem, não significa que será lembrado. Embora para outras bandas grande parte desse material soe ótimo, para o Fontaines D.C. isso não consegue canalizar todo o potencial deles.