CAPRISONGS
2021 • ELETRÔNICO/POP • CAPITOL
POR LEONARDO FREDERICO; 21 de JANEIRO DE 2022
7.8

Em “meta angel”, uma das músicas de seu último registro, a mixtape CAPRISONGS, FKA twigs estabelece um cenário confortável tanto para ela, quanto para nós. A faixa começa com uma conversa entre ela e uma amiga, Roxy Lee, sobre as mudanças que cada um de nós faz no começo de um novo ano. “I wanna be more confident, I really do”, twigs começa, e Lee responde, em um tom cômico, antes de ambas caírem em risadas: “I really do”. Porém, muito mais do que um charme para a canção, esse trecho funciona com um mecanismo maior: ele constrói um cenário de intimidade entre quem ouve o disco e FKA, transformando essa relação em uma potente conexão entre amigos. Em outras palavras, é quase como se twigs te chamasse diretamente para uma conversa íntima, divertida, descontraída e honesta. 

Da mesma forma, CAPRISONGS adota todos esses atributos para si. Esse é o registro mais comercial de twigs, o sucessor para o seu — excelente — MAGDALENE de 2019. Ao mesmo passo que este é seu projeto mais acessível para o grande público — em parte pelo seu som menos experimental, mas também pelas colaborações —, CAPRISONGS é também um álbum equilibrado, que não sacrifica, necessariamente, as melhores qualidades do trabalho de FKA para atingir uma maior audiência. É um disco que mantém a excelente produção que permeia seus trabalhos mais ousados — LP1 e M3LL155X —, bem como traz uma certa liberdade e diversão, enquanto trabalha em torno da honestidade emocional.  Embora menos ambicioso, continua com uma carga sentimental distinta. 

Uma das facetas mais chamativas de CAPRISONGS é justamente sua abordagem ampla. Pela primeira vez, twigs parece colocar em prioridade o fato de ser ouvida por muitos. Em “tears in the club”, por exemplo, lançado em dezembro de 2021, a artista se une a The Weeknd em um dueto quase perfeito, que soa como uma canção pop — quase — clássica. Sem deixar de lado a ambição na produção, com um sample da venezuelana Arca, a peça é sexy, mas brutalmente profunda. Similarmente, o refrão de “oh my love” é, possivelmente, um dos mais fortes dos últimos meses, e as outras colaborações — principalmente “papi bones”, com Shygirl”; “​jealousy”, com Rema; e “careless”, com Daniel Caesar — soam melhores do que grande parte das outras parcerias bem-sucedidas que são facilmente encontradas nas paradas do Spotify. 

Segundo FKA, durante a quarentena, em 2020, ela sentiu uma grande vontade de fazer um álbum. Diferente do processo que havia feito em seus outros trabalhos, ela quebrou com as amarras tradicionais da produção de um disco e foi direto para a produção. Até mesmo o conceito implícito do álbum — o renascimento — tem um caráter orgânico nas composições. “‎Eu só disse: ‘Quer saber, eu vou fazer um álbum’, e eu só fui e fiz isso‎”, ela afirmou em uma entrevista. Dessa forma, essa liberdade criativa é refletida nos momentos mais microscópicos do registro. São os interlúdios, as introduções, as brincadeiras e conversas entre amigos que trazem, simultaneamente, uma multidimensionalidade e familiaridade para CAPRISONGS. Enquanto em “oh my love”, amigas apoiam umas às outras depois de um término tóxico, “pamplemousse” revela que a liberdade de twigs vai muito além desses momentos descontraídos, mas também quando ela assume a linha de frente: essa seria uma faixa facilmente descartada pela gravadora por ser vista como excesso, mas é mantida aqui e, incrivelmente, não soa como um apêndice em momento algum. Em comparação com MAGDALENE e LP1, CAPRISONGS é infinitamente mais livre em sua essência. 

Todavia, como mencionado, em momento algum, para atingir esses feitos, twigs precisou sacrificar o que ela fazia de melhor: canalizar e transmitir suas emoções mais honestas e profundas através de suas canções. “meta angel”, por exemplo, além de um momento intimista entre amigos, carrega um desejo sincero da alma, que conecta-se, automática e fortemente, com a mensagem do disco: FKA anseia pela força necessária para seguir em frente. Ela canta: “I’ve got voices in my head / Tellin’ me that I won’t make it far / Mirrors singin’ in my face / Where’d you go? Where’d you go?”. Para além disso, no entanto, a melhor faixa é justamente a faixa final, “thank you song”, onde ela atinge sua epifania e consegue, de alguma forma, olhar para trás com gratidão. Potencialmente diferente de tudo que a cantora já fez até hoje, com ela em frente a um piano e com poucos sintetizadores, ela canta: “I wanted to die, I’m just being honest / No longer afraid to say it out loud”, e continua depois: “Thank you, thank you, I’m okay / ‘Cause you care, I made it through today”. Se em MADGDELENE, FKA nos ensinou a encarar e a sentir a própria dor, em CAPRISONGS ela nos ensina a entendê-la e deixá-la para trás. Afinal, amanhã é um novo dia.