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Radical Romantics

2023 •

Rabid

8.4
Radical Romantics é um manifesto masturbatório de todas as arestas da paixão, seja no amor, seja na vingança.
Fever Ray - Radical Romantics

Radical Romantics

2023 •

Rabid

8.4
Radical Romantics é um manifesto masturbatório de todas as arestas da paixão, seja no amor, seja na vingança.
30/03/2023

E, já que Fever Ray é fascinada por romper normas, convoco-os a um exercício: ouvir Radical Romantics ao contrário.

No dia 04 de outubro do ano passado, a cantora sueca Karin Dreijer — conhecida pelo pseudônimo de Fever Ray — deu início a mais um capítulo na sua trajetória de artista solo. Nesta ocasião, a cantora anunciou “What They Call Us” como o lead single do seu terceiro álbum de estúdio Radical Romantics. Sendo irrevogavelmente singular e abstrusa, Ray construiu uma faixa enigmática e hipnotizante, que, ainda que não tenha apresentado um desvio considerável das bases que ela fundou no passado, foi suficiente para cativar a atenção para sua nova fase. Como quem chega com humildade e respeito, as primeiras palavras que abrem o disco são: “First I’d like to say that I’m sorry / I’ve done all the tricks that I can”. Dessa forma, pode-se depreender que, no seu recém-concebido projeto, seu objetivo não era exatamente construir uma nova alavanca, mas lançar-se ainda mais longe no terreno eletrônico, por alto, já conhecido.

Por ora, o foco é na elaboração de uma linha contígua e coesa que explique melhor as camadas de detalhes deste LP. Em sua última peça, “Bottom of The Ocean”, Ray encontra-se a esmo: são mais de 7 minutos de apenas instrumental, sem sons humanos e sem palavras, mas que, com suas notas escolhidas, transmitem a tristeza que se transforma em sons de esperança. E, vale ressaltar, a incrível semelhança desta faixa com a também última canção de Plunge, “Mama’s Hand”, a qual debruça-se sobre não só as memórias de Ray com sua mãe, mas também sobre o seu desejo de que suas filhas não a abandonem e retornem para os seus braços. Sutilmente, em diversos momentos dos projetos de Ray, notam-se vislumbres do seu subconsciente, que, como mãe de duas filhas, preza pelo conforto e carinho, enquanto sua veia artística traceja rotas bastante divergentes para demonstrá-los.

No que tange a isso, a mesma ideologia que inebriou Björk durante os processos de elaboração de Fossora é também canalizada por Karin para a caracterização de sua persona. Na faixa “Even It Out”, a artista evoca um certo Zacharias que, supostamente, é um jovem adolescente que havia praticado bullying com suas filhas. Em decorrência disso, Dreijer expressa em palavras os pensamentos mais obscuros de qualquer criança que já tenha sofrido nas mãos de algum valentão. O clipe, por sua vez, dá a entender que Zach não teve um fim muito agradável. Se, em Hounds of Love, Kate Bush preconizou que mãe significa conforto; aqui, Fever Ray mostra que, na verdade, a maternidade é a arte do conflito. Acompanhada por batidas duras, vocais distorcidos e produção eletrônica, Ray incorpora a justiceira de pequenas causas tão vívida nos sonhos e necessária na realidade.

De forma geral, Radical Romantics é muito menos radical que Plunge, mas certamente muito mais romântico. Isso tampouco significa que seja piegas ou meloso, mas que seja apaixonado a finco em todos os seus cantos. Em “Looking For a Ghost”, um dos maiores destaques do álbum, a paixão é literal e é romântica. Nesta, que se baseia em mais batidas secas, produção eletrônica e vocais alterados, Ray se convalesce de atitude na busca de um affair que seja igualmente sensual, interessado e mútuo. Aliás, assim como Arca o fez em “Electra Rex”, aqui, Dreijer parece brincar com as modulações vocais, variando entre tons agudos e graves, a fim de, como uma pessoa não-binária, flutuar livremente entre ambos os lados da régua de gênero. Em fato, essa parece ser mesmo a intenção de Karin já que o tema da feminilidade é também abordado em “Kandy”, cujo videoclipe contrasta a visão masculinizada e ligeiramente grotesca de Ray, com os movimentos de sensualidade e corporalidade associados à mulher, ao passo que questiona os estereótipos de sutileza e futilidade imbuídos às garotas desde a tenra idade. “All the girls want kandy […] / lovelier than diamonds”, ela canta de forma mesmerizante.

No mais, Radical Romantics é, em boa parte, um disco sobre sexo e sexualidade, no qual Fever Ray expõe as conclusões e os fetiches a que chegou e conheceu desde que se assumiu uma pessoa trans — e viveu experiências no aplicativo de relacionamento Tinder. Em “North”, Dreijer parece inveterada a descobrir um mundo surreal e novo, mas mantendo-o em uma região que a cantora sueca de “Shiver” conhece bem, o Norte do planeta. Ao dizer “I’m calling sex North / It’s a way to pass / Time forward”, o sentimento que fica é a disposição de encontrar um modo de reconstruir sua humanidade a partir das palavras, isto é, das concepções inerentes a um único tipo de animal: o ser humano. Ainda que, novamente, este não seja um álbum que caia muito longe da sombra da árvore do catálogo de Fever Ray, é sua melhor investida em realizar as suas emoções, sua personalidade, suas ideologias, sua família — com seu irmão na produção das músicas e suas filhas como inspiração —, tudo isso de forma divertida e bastante prazerosa. Radical Romantics é um manifesto masturbatório de todas as arestas da paixão, seja no amor, seja na vingança.

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