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Multitudes

2023 •

Interscope

7.4
Multitudes, visto do ponto de vista da própria Feist, é o seu registro mais vulnerável e pessoal — mesmo que feito com despretensão.
Feist - Multitudes

Multitudes

2023 •

Interscope

7.4
Multitudes, visto do ponto de vista da própria Feist, é o seu registro mais vulnerável e pessoal — mesmo que feito com despretensão.
24/04/2023

Tendo passado considerável período de tempo desde o fim do isolamento social e da grande crescente no número de infectados pela Covid-19, e dado o fim na popularização da criação de álbuns cujos temas e abordagens são aprofundados por um lirismo mais poético e reflexivo e sonoridade mais encorpada — como foi o caso dos clássicos folklore, da Taylor Swift, e Punisher, da Phoebe Bridgers, em 2020 —, parece que o oceano da Música sofreu mais uma perturbação e uma nova onda (que em palavras menos metafóricas, significa o mesmo que “nova tendência”) vem se formando e ganhando cada vez mais massa e volume no horizonte: a “despretensão conceitual”. E Feist, emblemática artista da cena indie folk canadense, soma mais força a essa ondulação com o lançamento de Multitudes, seu sexto álbum de estúdio.

Falando dessa forma, pode até parecer que a artista abdicou de sua artisticidade. Que resolveu pôr tudo o que construiu em sua carreira a perder com a criação de uma obra musical rasa e superficial, à troca de obter maior número de streams em sua página do Spotify — como muitos artistas costumam fazer, infelizmente. Porém, assim como em Higher Than Heaven, de Ellie Goulding, essa agravante característica que possui não o faz um registro de tão pouco valor artístico. Na verdade, quando finalmente escutado, há a ocorrência do contrário a tudo isso. Multitudes, de acordo com o que Feist falou em entrevistas recentes, é o seu álbum mais pessoal e sentimental. Transmite diretamente, e claramente, todas as ideias que teve durante todos esses anos.

De acordo com a cantora, isso se deu por conta de ela ter resolvido “abandonar” o estilo padrão utilizado para a confecção de um álbum. Em vez de fazer um álbum e depois os apresentar para o público depois de terminado, a detentora do sucesso “1234” disse ter composto Multitudes ao vivo e em tempo real. Aqui, Feist utiliza os sentimentos conflitantes de felicidade e tristeza que sentira anteriormente pela adoção de sua querida filha, Tihui, em 2019, e a morte repentina de seu pai — durante mesmo período de tempo — como uma tela em branco e seus impulsos artísticos, intuições e idéias de pessoas próximas como “pinceladas de diferentes e contrastantes cores” para a criação de uma verdadeira obra de arte pós-moderna, que exprime tudo da forma como bem queria e sem que tivesse tantos sentidos. É como se a canadense tivesse adotado o abstracionismo a sua forma de fazer música. E, graças a isso, a experiência de ouvir o seu projeto se torna bastante íntima e reconfortante — criando a atmosfera calorosa e calmante desejada por ela—, entretanto, também ocasionando desgaste em quem o ouve completamente do início ao fim.

Para fazer com que a despretensão conceitual se firmasse como a base da experiência desse registro, Leslie Feist, na maior parte do tempo, condiciona a sua sonoridade a meras passagens de instrumentos de corda. Não querendo desmerecer o trabalho feito por ela e os musicistas com quem trabalhou juntamente (sendo alguns dos vários com quem colaborou sendo o Amir Yaghmai e Todd Dahlhoff, ambos multi-instrumentistas de renome na música), grande parte das faixas na lista de canções são muito bonitas e lindamente compostas — como é o caso da fervorosa “In Lightning”, a apaixonante “Love Who We Are Meant To Be” ou “Hiding Out In The Open” —, mas apenas isso não faz da sonoridade forte o suficiente para manter o ouvinte interessado e quanto menos entretido. Em vários momentos, a mente se cansa e procura se entreter observando os arredores do cômodo onde se situa em vez de prestar atenção no que a compositora tem a dizer em suas composições — que, inclusive, são muito boas e apresentam um lirismo bastante maduro, inteligente e rico em detalhes e sentimentalismo. Porém, ainda assim, quando submetida toda essa coletânea de trovas que Leslie fez a uma minuciosa análise, passa a ser difícil não ganhar um pouco de afeição pelo enorme cuidado e delicadeza com que a artista aprontou o trabalho para nós, o público. Pode não ser perfeito tecnicamente, mas é bom o suficiente para conseguir atingir as expectativas da cantora e seu público e fixa o disco como uma satisfatória extensão de sua concisa discografia.

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