I Know I’m Funny haha
2021 • COUNTRY/ROCK • SECRETLY CANADIAN
POR KAIQUE VELOSO; 11 de AGOSTO de 2021
8.2
MELHOR LANÇAMENTO

Conversas aleatórias, pensamentos engraçados e toneladas de liberdade individual, isso é o que Faye diz sobre como foi o processo de elaboração deste álbum. Inconfundivelmente preciso, o disco parece exatamente assim: a banda está tocando suavemente para que a melodia e o ritmo da voz da cantora americana possam ser sobressaltados e transmitir sua paz, sua calmaria, sua amenidade. 

Como a única compositora aqui, Webster traz muito mais detalhes do que ela jamais fez: ela se afasta do “bom”, mas salta de cabeça no estonteante fantástico. Na faixa-título “I Know I’m Funny haha”, engarrafada com alguns acordes de guitarra havaiana ascendentes, hipnotizantes e adequados e batidas de bateria fortes e frequentes, ela canta sobre três situações diferentes, e nem mesmo correlatas. Uma delas inspirou essa música e até o nome do álbum: em uma conversa durante um jantar, ela fez as irmãs de seu namorado rir. É tão simples e ordinário; tão significativo, verdadeiro, reconfortante ao coração e divertido, todavia. As outras, por sua vez, são mais autocentradas, nas quais Faye demonstra sua indiferença com o que pensa o seu caseiro — afinal, ele tomou o dinheiro dela — e sua dedicação ao relacionamento, já que agradou o companheiro com aquele presente que quem pede jamais pensa que vai realmente ganhá-lo: uma guitarra como a do cara do Linkin Park. 

No entanto, à medida que ela mergulha mais no álbum, revela sobre seus desejos internos, como pegar o namorado e fugir, em “Sometimes”, — mas sobre quem ela escreveria se ele se fosse? E o que as pessoas falariam sobre ela se ela não escrevesse nada? —, ou sua tristeza constante e atual, na música “Both All The Time”. Embora essa seja a composição instrumental mais inexpressiva (que está longe de ser ruim ou, de alguma forma, “não boa”), a letra, em particular, é um dos pilares para a compreensão dos fundamentos do mindset de Faye: “Will I stop crying for once? / It’s hurtin’ my eyes ”, diz um pedaço das linhas emocionantes desse diário aberto. E, depois, fala em ler o mesmo livro porque sabe como termina, o que indica sua repulsa  a acontecimentos surpresa, indesejados, não perguntados ou imprevisíveis. Além disso, a música “A Stranger” segue o mesmo sentimento de incompletude, vagueza e tristeza: “Today I might just lay around / Listen to the same song / Cry for no reason at all”. Assim, é claro que a escuridão se tornou muito presente em seu cotidiano, e as rotinas monótonas assumiram o controle da sua  vida. 

Ademais, existem duas situações que se destacam possivelmente pela sua imponência, se comparadas à fluidez e à linearidade das outras faixas do disco: “In A Good Way” e “Cheers”. Esta, com um refrão mais explosivo e impactante, aquela com um refrão mais sensual e íntimo. Nesse sentido, a primeira faixa ganha ainda mais evidência sobre seu caráter lascivo com os vocais aerados de Webster, bem como com as cordas agudas que os acompanham. Em meio a tanta luxúria, o corpo estrutural da música é até mesmo preenchido por violinos a partir da segunda metade. Já a segunda canção citada, com a bateria e as guitarras à frente, concentra o caráter mais próximo do rock no álbum: “Sometimes I’m scared to show my dad / ‘Cause you’re always cussing”, diz ela, enunciando seu já característico humor intrínseco às composições. 

Em suma, I Know I’m Funny haha não é ousado, nem experimental, nem “fora da caixinha”, nem revolucionário ou transgressor. Contudo, Faye Webster executa seu trabalho com tanto primor e tanta competência que surgem os questionamentos: todo grande álbum precisa ser, de alguma maneira, um divisor de águas? Um abre-alas para a disseminação de novos ritmos? Um inaugurador de novas vertentes? A resposta é um sonoro “talvez”, pois não necessariamente. No fim das contas, o que importa é que o ouvinte tire algo de proveitoso de seus momentos com a música de um artista. Nem todo mundo vai desafiar a espécie humana com a melhor invenção desde o pão de forma. Nem todo mundo vai ser audaciosamente distinto ou terá abundantemente em si o desejo de ser singular. Mas Faye é divertida. E ela sabe disso.