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ESCÂNDALO ÍNTIMO

2023 •

Sony Music Brasil

7.0
Dando maior destaque para suas emoções, ESCÂNDALO ÍNTIMO é um retrato sincero de Luísa Sonza ao percorrer por uma sonoridade repaginada, mas que guarda sua personalidade com afinco para não se perder diante das inspirações emprestadas.
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ESCÂNDALO ÍNTIMO

2023 •

Sony Music Brasil

7.0
Dando maior destaque para suas emoções, ESCÂNDALO ÍNTIMO é um retrato sincero de Luísa Sonza ao percorrer por uma sonoridade repaginada, mas que guarda sua personalidade com afinco para não se perder diante das inspirações emprestadas.
30/08/2023

Existe um círculo vicioso entre Luísa Sonza e o que se fala dela em redes sociais, especialmente o Twitter. Ela pode se cobrir de conceitos simples e tentar maximizar isso como se fosse a coisa mais disruptiva já vista na música, o que interessa notar é que nada é composto sem propósito. Ao decidir diminuir a duração do carro-chefe de Escândalo Íntimo, a agressiva “Campo de Morango”, Sonza tinha em mente irritar e criar causo a partir dos já batidos comentários que rondam seu trabalho. Embora a intenção possa ser boba e, que bem se diga, beira a vergonha-alheia, é estrategista e funciona para chamar atenção. A bolha, afiada para conferir como seria a composição, não perdeu tempo em ir escutar a canção para notar se ela se adequou às previsões de somente cantar conteúdos sexuais esdrúxulos. A isca está pronta e fisgá-la parece irresistível quando a cantora agracia seus fieis comentadores com um prato cheio do que eles mais querem.

Ela estava certa! Fora a segunda faixa lançada como single, “Principalmente Me Sinto Arrasada”, nada consegue antever a trilha seguida no terceiro álbum de Luísa Sonza. O caminhar da artista no cenário brasileiro foi se dando a passos largos. Desde que fez sua estreia com o desengonçado Pandora e prosseguiu tentando se estabelecer com o controverso, mas já envolvente, DOCE 22, a cantora tem sido um nome cada vez mais popular, porque além de flertar com o funk, ela consegue mobilizar uma identidade passível de situá-la em um status de relevância pop. Título esse que parece fazer falta no Brasil, mesmo que nomes como Duda Beat e Marina Sena são potenciais exemplos que mobilizam ritmos diversos pautados em regionalismos para construir o que seria o som pop brasileiro. No entanto, nenhuma delas tem o apelo que Sonza possui, assim como a comoção que ela gera, positiva ou negativa.

E foi toda essa comoção que alimentou a ânsia de Luísa para abocanhar sua parcela de relevância dentro desse espaço. Desde que com “penhasco.” ela percebeu a possibilidade de ainda ter destaque, mesmo partindo para a introspectividade, é possível estabelecer uma virada de chave que a lança para Escândalo Íntimo. Nesse cenário, a artista busca se despir da necessidade de invocar maneirismos que lhe pareciam convenientes ao estabelecer um nome: músicas fáceis, apelativas e sem substância. Não é como se esse terceiro disco fosse um material completamente revolucionário para sua discografia, mas é um lampejo que indica possibilidades atrativas para o futuro. Junto disso, se adequar a um novo som não é fingimento, é encarar a necessidade de mudança que a persegue desde sua estreia.

Mudança que não significa disruptividade, porque aqui ainda se encontra muito da personalidade de Luísa Sonza. A composição igualmente flerta com o desígnio sexual já conhecido da cantora, expressas em “Dona Aranha” e “Campo de Morango”, assim como contrabalança a ideia com baladas que buscam trazer comoção: “Penhasco2”, parceria com Demi Lovato e a bossa nova “Chico”. No entanto, o pêndulo de emoções é mais suave graças à produção coesa e consistente que, mesmo divagando entre um lirismo e outro, não se perde nas suas intenções. Entretanto, Sonza carece de uma amarração mais efetiva com a construção estética e conceitual que ela pretendeu atribuir a Escândalo Íntimo. O mesmo que Taylor Swift fez com a pretensa soturnidade de Midnights, mas que é raramente ativa no disco. Trivialidade ou não, é uma construção falsa e pretensiosa que busca preparar o ouvinte para outra narrativa que não é vista nem mesmo sendo tangenciada.

Se apoiar em instrumentos de corda não é uma novidade na carreira de Sonza. Em DOCE 22, ela testa esse espaço quando parte para canções mais apaixonadas, como “melhor sozinha :-)-:” e “também não sei de nada :D”. Seu novo álbum potencializa músicas que naquele disco pareciam deslocadas e que aqui são majoritárias. Para além do conceito estético falsamente angariado, ela não vai muito longe do que já se propôs, só que realiza com mais zelo e criatividade, a começar pela guitarra usada de base que se apresenta em “Carnificina” e que domina o disco. O diferencial é visto também com o uso de samples. A introdução “Escândalo Íntimo” se apossa de “Quarto de Hotel” de Hareton Salvanini, assim como uma das canções mais criativas, “Luísa Manequim”, brinca com a faixa homônima de Abílio Manoel, introduzida como refrão que se condensa com facilidade na guitarra acelerada. Uma interpolação de “A Loba”, de Alcione, constitui “Onde É Que Deu Errado?”, um registro riquíssimo embebido por sintetizadores que se contrastam à sanfona. 

Escândalo Íntimo foi inteiramente produzido nos Estados Unidos, o que possibilitou a colaboração de nomes como Tommy Brown, parceiro de longa data de Ariana Grande e que assina como produtor da embaraçosa “Dona Aranha”, momento esse no qual o funk ainda dá suas caras. No entanto, com mais influência no registro, Roy Lenzo, responsável por muitas músicas de Lil Nas X, é quem se encarrega de boa parte da produção do disco de Sonza. Adicionando nomes externos, mas sem esquecer parcerias fieis, como Carol Biazin e Douglas Moda, o álbum caminha nessa busca por novidades sem esquecer do que já funcionou. Iuri Rio Branco também é uma adição brasileira, este comanda “Romance Em Cena”, faixa que ganha toques da sensualidade do jazz, assim como os vocais envolventes de Marina Sena. 

Se sustentar no passado fez bem para Luísa Sonza. A busca por um novo espaço é preenchida por uma série de influências do pop e rock nacional das décadas de 1980 e 1990, o que garante uma sonoridade mais madura enquanto a composição tenta se encorpar igualmente, embora deslanche, vez ou outra, para situações atrapalhadas. E, para firmar suas referências além dos samples e interpolações já citados, a faixa “Interlúdio – Dão Errado” interpola “Não Me Deixe Só” de Vanessa da Mata, cantora citada também em “Ana Maria”, parceria com Duda Beat. Por fim, terminando a seção de inspirações, “Lança Menina” se apoia na icônica “Lança Perfume” de Rita Lee, assim como utiliza uma frase viral da artista na saída da canção: “O que ela é exatamente, assim? / Ai, ela é toda boazinha, ela é toda do bem, ela é tão galera / Ela é jovem, ela é… sabe? / Ah, vá se foder, sabe? / Chata paca”.

O novo álbum de Sonza é longo, mas não se perde com facilidade. Ele possui uma estruturação em blocos que atualmente contempla 18 canções lançadas dialogando com rock, MPB e sertanejo, construindo sua faceta pop a partir dessas movimentações. Em DOCE 22, ela já havia testado essa estratégia de bloquear faixas para lançar futuramente e agora a estrutura se repete. Sinceramente, essa técnica parece mais desqualificar o peso artístico da obra do que possibilitar a criação de um ânimo para o que ainda se tem escondido. Para alguém visivelmente preocupada em estabelecer um conceito, isso não revela muito o apreço sobre a conexão dela com a música para além de uma relação mercadológica. Faz tudo parecer mais fabricado, desde o conceito até a veia sonora. Se os blocos pretendem construir uma narrativa relatando etapas de um relacionamento — e aqui a livre interpretação é bem-vinda para mobilizar os sujeitos: uma relação com alguém ou consigo mesma? — perpassando momentos de angústia, felicidade, crises e superação, a história é cruamente irrompida por silêncios desagradáveis colocados pela autora que silencia sua catarse em favor de números em tabelas musicais.

Entre erros e acertos, críticas e elogios, a cantora vem aprendendo a abstrair o que pode acrescentar em seu trabalho e esse terceiro disco é reflexo do exercício feito ao longo de sua carreira. Dando maior destaque para suas emoções, Escândalo Íntimo é um retrato sincero de Luísa Sonza ao percorrer por uma sonoridade repaginada, mas que guarda sua personalidade com afinco para não se perder diante das inspirações emprestadas. Influências essas bem dosadas e que ajudam a construir um novo ângulo ainda amparado em características únicas, acrescidas pela interpretação destacável de Luísa que garante corpo à sua narrativa. O escândalo prenunciado está completo. É íntimo por permitir ser mais vulnerável, não por expor demais sua vida, mas como ela executa sua intimidade a partir das peças dispostas. É escandaloso porque se ampara em comentários óbvios sobre sua música e brinca com isso para chamar atenção, só que agora mobilizando um novo espaço que mescla sua personalidade com novas sonoridades. Embora o crescimento precise ser constante, a primeira isca já encorpa o presente e reserva para o futuro sua necessidade de, mais uma vez, desenvolver seu estado da arte.

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