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No Tempo da Intolerância

2023 •

Deck

8.5
No Tempo da Intolerância é uma rica celebração de feminilidade e resiliência.
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No Tempo da Intolerância

2023 •

Deck

8.5
No Tempo da Intolerância é uma rica celebração de feminilidade e resiliência.
27/06/2023

Em janeiro de 2022, o Brasil se despedia da maior voz que o samba já viu. Aos 91 anos de idade, Elza Soares ainda fazia música de forma maestral. Seu primeiro álbum póstumo, No Tempo da Intolerância, teve sua última gravação finalizada cinco dias antes de seu falecimento e chegou às plataformas digitais na última sexta-feira, 23 de junho, aniversário da cantora. Feito em conjunto com Rafael Ramos, que também produziu o emblemático A Mulher do Fim do Mundo, de 2015, o disco conta com composições de Pitty e Rita Lee e é, acima de tudo, uma celebração da figura feminina e da resiliência de Elza, uma mulher que nunca deixou de lutar pelo que acreditava. 

Desde o início de sua carreira, Elza se mostrava uma artista preocupada com a mudança, com a ruptura. No começo da década de 1960, ela cantava samba-canção com uma voracidade inédita, em um disco que foi um dos precursores da união do samba com o jazz, o clássico A Bossa Negra, de 1960. Mais tarde, nos anos 2000, em busca de liberdade artística, ela se renderia ao hip-hop para criar um trabalho completamente diferente de tudo que ela já havia feito. O Do Cóccix Até o Pescoço, de 2002, foi um álbum essencial para explorar seu lado mais versátil, ao passo que abria as portas para a experimentação que marcaria os anos finais de sua carreira. Passados seus 80 anos de idade, Elza Soares exprimia uma jovialidade sem precedentes. Seus últimos trabalhos lançados em vida são reafirmações de seu legado e de sua atenção com os movimentos artísticos do mundo moderno — álbuns que têm como pilar um art-rock vanguardista que parece vir de uma banda alternativa no auge de seu poder criativo, mas que, na verdade, é fruto de uma das mentes mais prolíficas da música brasileira. 

O que temos aqui, em seu disco póstumo, é mais uma prova do seu compromisso com a contemporaneidade. São canções tiradas de um caderno de rascunhos dos anos 1980, mas que ainda dizem muito sobre o cenário político-social em que vivemos hoje, narrado pela ótica de alguém que passou pelos inúmeros desafios de ser uma mulher preta e pobre no Brasil. Como a própria canta na faixa-título: “Cada um fazendo a sua regra / Ninguém mais pode pensar o contrário / Mas eu apanho de todos lados / Eles dizem que eu sou polêmica / Como dizia Luther King, se você quer um inimigo é só falar o que pensa”. Nesse sentido, No Tempo da Intolerância é um registro que encontra a atemporalidade em suas composições simples e diretas, à medida que reforça a presença de Elza Soares como uma eterna e poderosa voz na cultura nacional. 

Apesar da lírica política e consciente, sonoramente o álbum conta com fortes influências do soul e funk dos anos 1970, além do samba que se fez presente em todas as fases da carreira da cantora, o que lhe faz ser um pouco mais despojado se comparado aos discos que o precedem. Essa estética descontraída permite que canções como “Te Quiero” — um bolero romântico — e “Feminelza” — um hino feminista com uma pegada levemente grunge, composta por Pitty — coexistam num mesmo projeto sem causar estranheza. Por outro lado, “Rainha Africana”, escrita por Rita Lee, peca pela produção excessivamente luxuosa, construída em torno de arranjos orquestrais que parecem ter saído de uma animação da Disney — uma tentativa forçada de dar destaque a uma música que evidentemente já era grandiosa por si só. Contudo, o número enxuto de faixas não permite muitos deslizes, e o resultado é conciso e consistente. 

Marcado pela simplicidade, No Tempo da Intolerância honra a memória de Elza Soares. Em “Coragem”, ela diz que “Se quem cala consente / A minha boca vai continuar / Sendo uma arma letal contra o abuso de poder / Pra gente sair da página policial” e, ao escutar este disco, temos a confirmação de que sua voz ecoará eternamente. Sua figura tornou-se onipresente, e sua jornada é inspiração para todos.

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