SOUNDX

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2023 •

Atlantic

4.8
Esse é o melhor disco de Ed Sheeran em mais de dez anos... mas ainda assim é ruim.
Ed Sheeran - Subtract

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2023 •

Atlantic

4.8
Esse é o melhor disco de Ed Sheeran em mais de dez anos... mas ainda assim é ruim.
24/05/2023

Ed Sheeran era, de certa forma, o arquétipo de cara perfeito, uma exímia aspiração para qualquer garoto branco londrino de quinze anos. Como em qualquer história matriz, Sheeran começou seu percurso na música ainda criança, quando começou a arriscar dedilhados em um violão e composições enxutas. Seu estilo bem-apessoado — um cabelo ruivo bagunçado, um sorriso amarelo e uma cara nada intimidadora — rapidamente fez com que ele se tornasse um sucesso, sendo suas canções baseadas em baratas memórias da infância ou em aventuras sexuais que qualquer baseada blasé acharia relativamente entediante. Porém, como em toda boa história, só que mais trágico e dolorido na realidade, todo bom caminho tem seus entraves. Os últimos anos na vida de Ed não foram nada fáceis:  seu amigo Jamal Edwards morreu inesperadamente e a esposa do britânico foi diagnosticada com câncer quando estava grávida da segunda filha do casal. Todos esses tropeços fizeram com que Sheeran olhasse, pela primeira vez, com um apego maior para ao seu redor, vendo música muito mais do que uma forma maneira e descontraída de fazer dinheiro, mas também de, finalmente, entender seu propósito. 

Por mais que as músicas de Ed Sheeran em seu último lançamento, , tenham enriquecido em quesitos de substância e intento, ele não consegue edificar o que ele entende como epifania e catarse da maneira mais interesse, apelativa e identificável. Isto é, por mais que seja inspirado pela morte de seu amigo e toda experiência da doença de sua esposa, bem como pelos questionamentos acarretados por essas experiências, todas as trilhas aqui traçadas ainda são vagamente esvaziadas e dolorosamente convencionais. Produzido por Aaron Dessner, um dos membros do The National e que ganhou reconhecimento por seu trabalho com Taylor Swift nos últimos discos da cantora, , assim como seu cantor, é um protótipo que funciona bem na teoria, mas que, na prática, é… enfadado.

De longe, esse é o disco mais pessoal, denso e lúgubre do cantor. Embora ele tenha dado pinceladas nas temáticas de morte, por exemplo, em seus outros trabalhos, nada era realmente concreto. Não estou dizendo que soa essencialmente bem desenvolvido, contudo, é um claro incremento perto das rasas análises sobre o significado da vida que ele havia feito antes. Faixas como “Eyes Closed” e “Life Goes On” trabalham diretamente o assunto da morte, mas seus trajetos para tal nem sempre são as melhores escolhas. Na primeira, por exemplo, sua abordagem é mais focada em pensar na solidão após a morte daquelas pessoas próximas dele do que propriamente o que essas pessoas significaram. No entanto, nem tudo é uma reprovação, já que a segunda faixa acaba sendo mais harmônica no sentido lírico, ao passo que acena para o som do primeiro álbum do cantor. 

Todavia, no final das contas, esse é o disco  de Ed Sheeran, então meio que temos que ter as clássicas — para não ser tão ofensivo — músicas do Ed Sheeran. Voltando em “Eyes Closed”, essa é uma faixa estranha: para além do seu ponto de vista egocêntrico, a forma pela qual ele opta por uma instrumentação mais animada, quase na intenção de construir um hit em cima dela, é minimamente questionável — não acho que eu gostaria de ver as pessoas dançando e cantarolando uma canção que escrevi sobre um amigo morto. “Colourblind” é outro ponto vergonhoso: outra tentativa falha de fabricar um sucesso que tenta clonar metáforas de cores de canções como “Colors”, de Halsey, e “Red”, de Taylor Swift, mas resultante em passagens de um livro infantil: “Some days, we’re red and some days, we both think green / But I like the nights when we leave the canvas free”. Por fim, as últimas quatro ou cinco canções de são peças que você simplesmente espera em um trabalho do britânico, que dispensam apresentações, mas que causam uma sensação de redundância extrema. 

Quando foi anunciado que Dessner estaria por trás da produção do novo álbum do Ed Sheeran, sabia que não haveria milagre sendo feito, mas que talvez pudesse houver um mínimo de avanço para além de batidas secas e sem graça de sintetizadores do último álbum. Porém, como uma decepção nunca é bastante e pode ficar pior, Dessner não só não salvou o disco, como também conseguiu deixar ele ainda menos cativante do que os anteriores. O resultado foi um trabalho de instrumentação quase mínima, limitada a quase uma sessão acústica que, hora ou outra, se dá ao luxo de um rabisco de sintetizador. A sensação é de carência, em vez de intimidade. “Salt Water”, por exemplo, é uma boa escrita sobre resiliência, mas perde força com sua produção sem personalidade. “End Of Youth”, por sua vez, tem seus pontos altos e baixos, mas há uma carência em entender quando é necessário desacelerar, dando uma sensação de correria. Por fim, “Dusty”, um dos instantes dourados, em que Sheeran avalia as pequenas memórias com sua filha, também sai prejudicada por cordas tão opacas e sem brilho que transporta os momentos vividos agora para o fundo do sótão. 

Muitas pessoas pegam pesado com o Ed Sheeran, isso é um fato — e eu posso estar incluso também. Em uma recente matéria para a Pitchfork, Jayson Greene disse que o cantor finalmente foi útil por contribuir na construção de um espaço menos litigioso para compositores. Existe uma corrente de malquerença com ele que, constantemente, parece gratuita. Isso não é um defesa de Sheeran, entretanto, já que, embora ele nunca tenha feito algo genuinamente problemático, ainda transmite uma vida quase perfeita idealizada que só será alcançada por um específico nicho, usando da música como uma forma de monetizar, cantando sobre assuntos vagos e problemas que nem sempre são problemas. Com , ele de fato poderia ter falado sobre suas experiências de verdade, descendo do palacete que apenas os astros  que venderam mais de 62 milhões de discos podem se dar ao luxo de ter, e finalmente entender e dar voz para os problemas que uma parcela maior das pessoas lidam diariamente. Mas, para ele, se apaixonar em Aberfеldy parece mais proveitoso. 

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