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2021 • POP • ATLANTIC
POR LEONARDO FREDERICO; 03 de NOVEMBRO de 2021
3.3

Ed Sheeran se acha um cara legal, e ele quer que você saiba disso. Durante sua adolescência, ele passava seus dias vivendo em um circuito de clássicos pubs britânicos que o faziam constantemente fugir da polícia e ficar bêbado com seus amigos em campos abandonados. Também, não era nada anormal para ele correr dos amigos do irmão mais velho, cair e quebrar um braço. Para tornar as coisas mais normais, ainda que seja por uma lente de um filme clássico norte-americano sobre romance adolescente, Sheeran deu seu primeiro beijo em uma sexta-feira à noite. E, por alguma razão, ele gosta de lembrar a você, várias vezes, que ele não possui um diploma universitário. Ele não só gosta de se pintar como um cara legal que poderia ser visto como um espelho por grande parte da população heterossexual privilegiada do Reino Unido, mas também gosta de ter um espaço para falar sobre si mesmo.

Ao longo de todos os seus álbuns, Sheeran manteve esse caráter de canções apáticas que o retratavam como principal vítima de todas as circunstâncias do mundo — nem mesmo quando ele era um vilão, ele era “mau” o suficiente para você não sentir dó dele. Ed concretizou sua carreira com base nisso: se mostrar um cara legal, um modelo que todos gostariam de seguir, sem precisar falar sobre seus sentimentos — com exceção daqueles permitidos por sua sociedade conservadora — e suas visões de mundo. Seu novo álbum, =, o quarto disco da série baseada em operações matemáticas, e o primeiro desde seu projeto colaborativo — que, cá entre nós, foi apenas uma forma do cantor e de seus colaboradores inflarem seus números em plataformas de streaming —, é apenas a ampliação dos trabalhos anteriores do britânico. No final, é a mesma ladainha de sempre.

Contudo, se a replicação cansativa e eterna fosse o pior dos problemas, o cantor estaria numa situação, de alguma forma, mais favorável. Digo isso porque caso se tratasse da reprodução de faixas boas, Sheeran teria, pelo menos, um bom motivo para isso. Porém, o que ocorre aqui é apenas a expansão de uma configuração sem graça e sem personalidade: o papel de Ed é cansativo, genérico e carece de qualquer traço; suas faixas raramente conseguem sair de cenários estereotipados de cenas de filmes clichês de baixo orçamento; e seu som, regularmente, se mantém no nível mais básico de composição instrumental. O que salva Ed, contudo, é essa identificação que constrói com o público geral, transmitindo por uma linha simples os sentimentos mais vagos — e, eu diria, vazios — que alguém pode seguir. Sheeran faz porque é fácil, o público gosta pela mesma razão.

As piores músicas do álbum são aquelas em que o artista se mantém totalmente nessa zona de conforto. Em outras palavras, é o mesmo tipo de faixa do Ed Sheeran que você espera ouvir no álbum dele. A faixa de abertura, “Tides”, é o melhor exemplo: brincando com um instrumental saturado, tanto na carreira do cantor, quanto na indústria como um todo, ele canta sobre as dificuldades de chegar aos seus 30 anos e lidar com as novas responsabilidades. Fora do contexto, entretanto, você não saberia dizer se essa é uma faixa do =, ÷ ou x. Como mencionado anteriormente, as músicas do artista tomam como base um personagem sem características marcantes que ele construiu para si mesmo. “I wanna be that guy, I wanna kiss your eyes / I wanna drink that smile, I wanna feel like I’m”, ele canta em “Shivers”, apenas nutrindo ainda mais esse caráter totalmente sem criatividade e insosso.

Por outro lado, essa replicação em massa das mesmas peças, hora ou outra, geram algo bom. É relativamente um equívoco falar que Sheeran é um cantor sem músicas boas, visto que, no início de sua carreira, grande parte das músicas conseguiam se sustentar na simplicidade e se faziam brilhar por isso. Porém, com o passar do tempo, isso foi se perdendo e se tornando uma espécie de gene recessivo na discográfica dele — mas elas ainda estão aqui. Faixas como “First Times”, “Leave Your Life” e “Visiting Hours” são relativamente positivas, ainda que seja apenas para o público que Ed Sheeran quer alcançar — imagine homens brancos, héteros e britânicos, por favor. 

Outras faixas, por sua vez, são boas, mas pelas razões erradas. Sheeran, nos últimos tempos, tem se mostrado uma pessoa descontroladamente obcecada por números. Isso pode ser observado na sua obsessão em maximizar seus números no Spotify, fazer sua última turnê ter números ridículos de shows apenas para arrecadar mais lucro, e, no caso de =, Sheeran diz que você deve ouvir o álbum inteiro, na ordem, para captar a essência do trabalho — que, para ser sincero, não é tão profundo quanto o mesmo afirma. Contudo, a real problemática é que Sheeran, visando manter seu sucesso irrecusável, começou a plagiar descaradamente outros cantores que estão fazendo sucesso, tentando embarcar na mesma onda. Faixas como “Bad Habits” e “Overpass Graffiti” são inegavelmente iguais aos últimos trabalhos de The Weeknd. Especialmente nessa situação, as semelhanças são vergonhosas. Enquanto isso, “The Joker and the Queen” parece uma mistura entre algo de 2016 dos Twenty One Pilots e algo remanescente do início da carreira de Ed, e “Leave Your Life” é relativamente similar a “Closure”, em harmonia, da Taylor Swift. Pode ser um comentário rude, mas Ed, às vezes, parece uma sanguessuga de seus amigos, visando apenas seu próprio sucesso. 

= possui quase 50 minutos de duração. Isso é muito Ed Sheeran, muito mesmo. O tempo se dilata se você considerar que grande parte das faixas soam apenas como fillers, e que Ed conseguiu transformar o que ele copiou de The Weeknd em uma obra maçante, sem brilho e sem charme. Ademais, ironicamente, o disco parece mais digerível que seu último álbum, No.6 Collaborations Project, o qual continha performances questionáveis de Sheeran. Por outro lado, se você conseguia se acostumar, talvez você tirava um certo divertimento, diferente de = que fica, progressivamente, chato. Mais uma vez, Ed canta sem criatividade e sem honestidade com si mesmo.