2022

OVO SOUND/REPUBLIC

Honestly, Nevermind

Drake ameaça o mundo com mais um álbum.

3.8
EM 27/06/2022

Quando olhamos para os dois pontos opostos cronológicos da carreira de um artista, é normal ver que as coisas mudaram. Especialmente se for um jovem em seus primeiros anos, é ainda mais provável que toda sua estrutura de sinapses cerebrais e seu conjunto de morais e ideias tenham se reconstruído. Para muitos, ele fica irreconhecível. Todavia, alguns se esforçam para manter sua essência e que mudança não significa, necessariamente, deixar de ser quem você é. No caso de Drake, as coisas foram por outro lado. Em menos de uma década, ele foi de calouro de Lil Wayne para um dos artistas mais bem sucedidos da história. Com isso, sua perspectiva de mundo também se moldou de outra forma: conforme sua fama subia, suas canções se tornavam cada vez mais vazias. Se um dia, um novo lançamento de Drake causava euforia e curiosidade, em grande parte por ele ser uma das vozes mais prolíficas do hip-hop, atualmente as manchetes leem: Drake ameaça o mundo com mais um álbum. 

Honestly, Nevermind, o sétimo registro do rapper canadense, segue linhas não ortodoxas se comparado aos últimos lançamentos do cantor: anunciando algumas horas antes do lançamento, esse é disco com um número enxuto de canções, as quais se estendem para o dobro da duração do normal, bem como, um trabalho que conta com apenas uma colaboração, de 21 Savage. Contudo, embora as divergências, Honestly, Nevermind debruça-se sobre os mesmos erros de seus projetos recentes: são trabalhos majoritariamente inofensivos, com substância genérica construída para produção de dinheiro. Mesmo que Drake tente tirar essa imagem capitalista de sua persona, esse álbum prova que ele tem isso tão enraizado dentro de si que ele não consegue elaborar outra coisa, com exceção do pior. 

Observando os últimos lançamentos de Drake, percebe-se que Honestly, Nevermind segue uma narrativa mercadológica diferente. Desde Views, de 2016, passando por Scorpion, de 2018, com suas 25 faixas, o artista vem apostando em registros que se estendem para um número excessivo de canções, as quais raramente operam para além dos três minutos e meio. Drake é um dos maiores artistas do Spotify, e considerando uma ação de maximização de lucros, faz sentido que ele criasse discos cansativos com diversas faixas de pouca duração. Em outras palavras, era uma forma dos fins justificarem os meios. No entanto, Honestly, Nevermind surge com apenas 14 faixas, muitas delas passando dos quatro minutos e poucas chegando, surpreendentemente, aos cinco. Porém, Drake, hoje, entregado completamente a produção de um material de rápido consumo — e descarte —, dificilmente consegue fazer dessas algo realmente interessante. Na maioria, elas progridem durante os seus dois minutos, logo para caírem em fluxos de repetição de redundância. Os melhores exemplos são “Texts Go Green” e “Massive”, que, apesar de interessantes, não conseguem se sustentar para além da marca de meia vida. Honestamente, parece que ele apenas tentou provar para todos que poderia fazer canções mais longas… mas isso não significa que sejam boas. 

Honestly, Nevermind foi lançado menos de um ano depois de Certified Lover Boy, o pior disco de Drake até hoje. Comparações nem sempre são aceitáveis em análises, mas nesse caso são necessárias. Olhando em retrospectiva, CLB foi um desastre sem tamanho: com suas uma hora e meia de duração, o registro contou com o pior material de Drake, fazendo, até, questionar seu próprio caráter. Em canções como “Girls Want Girls” e “In The Bible”, o cantor perdeu noção das barreiras de vidas alheias, sexualizando lésbicas e pregando que algumas pessoas não merecem segundas chances na vida. Honestly, Nevermind, felizmente, trabalha de forma menos agressiva, com (quase) todas as suas músicas orquestradas em torno de reclamações sobre sua vida amorosa. Mas, por outro lado, essa abordagem fez com que os enredos apresentados fossem sonsos. Seguindo uma lógica de que Drake é um dos artistas mais medrosos da indústria, ao invés de inovar em sua escrita apresentando história que respeitem os direitos das outras pessoas, ele só consegue se vitimizar em relacionamentos sem brilho.

Nesse sentido, se as composições de Certified Lover Boy foram mais ousadas, ainda que indecentes, o oposto ocorre em Honestly, Nevermind, com suas letras desinteressantes e opacas. Nesse mesmo sentido, a produção desse novo álbum ressoa precária, em diversos momentos soando versões demos. Enquanto a obra anterior contava com um uso de samples, aqui Drake parece inspirado pelo eletrônico oitentista, ressoando em tonalidades de Daft Punk. Contudo, isso não quer dizer que a execução é boa. Em “Falling Back”, por exemplo, as batidas de sintetizadores estão fora de ritmo, entre si mesmas e em relação aos outros instrumentos. “Calling My Name”, por sua vez, lembra uma mistura estranha entre algo que Justin Bieber faria em seus momentos mais “safados” com Lil Wayne ou Playboi Carti. Por último, a vergonhosa, “Currents”, com barulhos de camas rangendo. Não funcionou com Anitta, Calvin Harris e Big Sean… Com certeza não vai funcionar com Drake.

Mas mesmo nas noites mais escuras, há momentos de luz.  “A Keeper”, para além dos péssimos vocais de Drake, é uma das músicas mais toleráveis, com instrumental bem melódico e refinado. “Overdrive” e “Tie That Binds”, tem um uso interessante de cordas sintéticas, ainda que no segundo caso fique claro se a influência hispânica de Drake é curiosidade genuína ou ele só está seguindo a ascensão desse gênero nos últimos meses. “Jimmy Cooks”, o último do disco e a única colaboração, pode ser visto com o único momento verdadeiramente de rap, sendo um bom dueto fluido entre os dois cantores. No final, embora Honestly, Nevermind não seja tão ruim quanto CLB, ele ainda anda cambaleando em produção, composição e identidade, destoando totalmente de quem Drake era há 10 anos. 

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