Certified Lover Boy
2021 • RAP/HIP-HOP • REPUBLIC
POR LEONARDO FREDERICO; 12 de SETEMBRO de 2021
3.5

Em 1920, na Alemanha, um grupo de jovens marxistas judeus fundaram o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Entre as diversas teorias que surgiram a partir dos estudos realizados nesse lugar, o mais conhecido foi o da Indústria Cultural. Em poucas palavras, esse conceito implica na produção em massa de uma determinada cultura ou arte, tendo em vista somente o lucro. Para conseguir tal feito, essa produção artística deveria ser em larga escala, padronizada e ir contra qualquer princípio que propusesse inovação. Porém, apesar dessa ideia ter quase um século de existência, ainda é possível vê-la dentro dos moldes atuais do mercado. No caso, o último lançamento do rapper canadense Drake, Certified Lover Boy, se encaixa perfeitamente dentro dessa concepção.

Sendo rumorado por quase um ano, o sexto álbum de Drake parece nascer simplesmente do desejo de fazer mais e mais dinheiro. O disco, que conta com mais de 20 faixas e roda por quase uma hora e meia, é um apanhado de canções genéricas, sem brilho e totalmente previsíveis. É o mesmo estilo de música que ele entregou em seus últimos trabalhos — More Life Dark Lane, de 2020, Scorpion, de 2018, Demo Tapes, de 2017, e Views, de 2016. Agora, por cinco anos, Drake vem fazendo as mesmas músicas, seguindo a mesma lógica, estrutura, sonoridade e composição simplesmente por ser um movimento seguro. Para ele, não vale a pena arriscar suas chances de quebrar recordes e os milhões que ele ganhará em troca de evolução artística. E Certified Lover Boy é apenas mais um episódio nessa história onde o rapper coloca o dinheiro e fama acima da arte. 

Dessa forma, grande parte das canções de Certified Lover Boy não entregam nada de distinto, animador ou que faça alguma diferença na discografia de Drake. Claro que não podemos tirar todo o crédito dele visto que, apesar de chato, maçante e enfadonho, o disco ainda conta com uma produção muito boa, com batidas graves e bem sustentadas e um uso abrangente de samples. Porém, novamente, isso não significa que ambos os fatores consigam, de alguma forma, fazer Certified Lover Boy que valha a pena. Muito pelo contrário, na verdade, o uso de samples tem um efeito oposto aqui, fazendo você querer muito mais ouvir as versões originais. Ademais, diferente de rappers como Kanye West, que também é conhecido pelo forte uso dessa técnica, Drake parece totalmente preso ao mesmo material de sempre, utilizando não somente os mesmos várias vezes no álbum, como também pegando de outras canções de outros álbuns que ele colaborou e percebeu que funcionou. No final, o uso de sample em Certified Lover Boy está muito mais associado à reciclagem de coisas certeiras do que a oportunidade de criar algo promissor.

Muito além de serem canções apáticas, sem graça, genéricas e iguais ao resto da discografia de Drake, Certified Lover Boy dá um passo além, pintando o próprio cantor como uma pessoa… complicada, mas não no sentido bom. Uma das coisas que mais incomodam ao longo de todo o trabalho é como o rapper é egocêntrico, sofrendo da necessidade de se colocar em qualquer situação possível e se fazendo o ponto principal de qualquer momento. Na abertura, “Champagne Poetry”, por exemplo, ele segue a narrativa de ascensão monetária dentro do capitalismo, algo muito comum no rap e hip-hop. Todavia, quando Drake canta: “And above me I see nobody”, tudo que você pode sentir é a superioridade na voz do cantor, estabelecendo nenhuma conexão com justiça e evolução social, mas sim a inflamação de seu ego. Isso se reflete em outras canções, como “Papi’s Home”, a qual conta com uma das piores participações de Nicki Minaj; “TSU”, na qual ele narra a história de uma garota em luta para recuperar sua vida e como ele vai ajuda-lá, contudo, o fato dele mencionar tantas vezes que ele está ajudando ela conduz a faixa ser basicamente sobre ele. 

No entanto, se Drake se tivesse mantido nessa narrativa de superioridade, não haveriam surpresas, porém, aqui, ele parece também descer a níveis mais baixos, entregando canções carregadas de puro preconceito e ignorância. O melhor exemplo disso é “Girls Want Girls”, na qual ele sexualiza lésbicas, se mostrando alguém totalmente indiferente e ignorante com relação à sexualidade de outras pessoas. O mais assustador, contudo, não é só isso por si só, mas também que não é a primeira vez que ele faz isso. Em 2009, em uma música de Young Money, o rapper cantou: “Are any of y’all into girls like / I am? Les-be-honest!”. Logo em seguida, em “In The Bible”, o cantor conta a história sobre uma mulher que optou por seguir uma vida religiosa e conservadora. O problema aqui é que o passado dela é constantemente usado para atacá-la, quase como se ele não fosse maduro o suficiente para entender que pessoas mudam. 

Entretanto, esse personagem que Drake sustenta no disco, nem sempre segue uma linha narrativa. Em alguns momentos, esse homem de 34 anos que é rico demais e está governando um império se preocupa com coisas que adolescentes de 18 anos se preocuparia. Em faixas como “Fair Trade” e “No Friends In The Industry”, ele ressalta brigas com ex-amigos e como o ciclo social dele é extremamente fechado. “I’ve been losin’ friends and findin’ peace / But honestly that sound like a fair trade to me”, ele canta na primeira, o que soa mais como uma legenda de um adolescente de 16 anos do que um adulto. Não podemos culpar totalmente o cantor visto que essa narrativa sem personalidade e barata ainda funciona, porém, você pode se perguntar porque o álbum está tão lotado de produtores, compositores e colaboradores se Drake tem um ciclo de amizade tão fechado quanto diz. 

Kanye West e Drake estão sendo tidos como grandes rivais atualmente. Se recentemente West sofreu críticas com relação ao seu novo álbum, Donda, ser desnecessariamente longo com uma quantidade massiva de material irrelevante e sem propósito, Drake sai na frente nessa briga indireta com quase nenhum conteúdo que valha a pena em seu disco. São 21 músicas, das quais meia dúzia são interessantes ou conseguem capturar sua atenção. Além disso, diversas delas contam a mesma história, de novo e de novo, criando essa situação em que o canadense, necessita que você saiba que ele é rico, poderoso e que ele é melhor que qualquer outra pessoa. Ademais, algumas faixas não fazem sentido nenhum estarem aqui, tal como “You Only Live Twice” e “Knife Talk”, nas quais a melhor coisa não é o Drake. Logo, por que diabos elas estariam aqui? 

Todavia, como citado, há momentos em que o álbum consegue entregar algo que é, de alguma forma, bom. Além da produção que não é, por assim dizer, ruim, faixas como “Love All”, com Jay-Z, se destacam simplesmente por ir contra a narrativa deslavada encontrada aqui, colocando Drake em uma situação em que sua humanidade pode ser sentida. Enquanto isso, “Race My Mind” conta com batidas bem marcadas e uma harpa, “N 2 Deep” com riffs de guitarras e transições bem realizadas e “Get Along Better” aparece com instrumental forte, apesar da letra problemática. Porém, a melhor é “Way 2 Sexy”, o que, na verdade, é curioso porque você pode se perguntar se você gosta da música em si ou porque ela é simplesmente uma releitura de uma faixa marcante dos anos 1990. Portanto, aqui, Drake passa mais tempo concretizando um personagem sem caráter que visa ganhar dinheiro acima de tudo, apenas estruturando novamente uma narrativa totalmente desinteressante. No final, Certified Lover Boy é quase indigestível.