Planet Her
2021 • POP • POLYDOR
POR LEONARDO FREDERICO; 28 de JUNHO de 2021
5.2

Doja Cat não estreou há muito tempo, mas ela já conseguiu estabelecer seu próprio estilo como suas contemporâneas. Enquanto alguns ruídos estranhos e engraçados no meio de uma canção podem facilmente lembrá-lo da Cardi B, risos exagerados e caricaturados são facilmente reminiscentes de Nicki Minaj. Da mesma forma, quando você ouvir uma música realmente bem produzida, com uma atmosfera sintética profunda e batidas que misturam pop, r&B, rap e trap, você se lembrará de Doja Cat. Entretanto, o que faz a diferença entre a estudante e as suas professoras, nesse caso, é que à medida que as mais velhas oferecem algo notável e memorável sem muito esforço, Doja parece entregar apenas trabalhos bons em questões técnicas, esquecendo-se totalmente da substância e da criação algo que grude na cabeça. Em outras palavras, suas canções são boas, mas não há nada de especial nelas que te faça voltar para elas. 

Em seu terceiro álbum de estúdio, Planet Her, Doja Cat apenas reafirma este conceito sobre suas canções. Produzido pelo Dr. Luke, o disco foi definido pela cantora como “o centro do universo, onde todas as raças do espaço existem e é onde todas as espécies podem estar em harmonia ali. Isso é uma espécie de lenda”. Porém, ao contrário do que algumas pessoas poderiam apontar, Doja disse que o planeta não pinta um lugar feminista e político para as mulheres. “Só estou tentando ser bonita”, disse ela à Audacy. E, de certa forma, é isso, nada muito especial, um álbum de 40 minutos que mostra a rapper da Califórnia lidando com as diferentes fases de um término de relacionamento. Suas letras pintam momentos bem escritos sobre empoderamento, auto-estima e sexo, além de proporcionar instantes de amor-próprio, e seu instrumental, que, de fato, é bem produzido, parece muito passivo, nunca tendo uma conversa minimamente interessante com as outras áreas da canção ou desempenhando um papel realmente proeminente na experiência final. No final do dia, você deixa o disco da mesma forma como se juntou a ele.

“Woman”, a abertura, é um grande exemplo do tipo de canção que Planet tem. É uma faixa divertida, é claro, bem escrita e produzida. Entretanto, não soa nem concreta e nem cativante. Em outras palavras, não é o tipo de canção que você vai começar a cantarolar no meio do seu dia. Claro, isso não é um problema quando algumas faixas são assim, mas quando o álbum inteiro é assim, é uma história diferente. Músicas como “Get Into It (Yuh)” são simplesmente estranhas. Enquanto o gancho é bem legal com um coro feminino que soa como algo dos anos 90, os vocais de Doja parecem lutar para tentar oferecer algo decente. Além disso, há algumas linhas vergonhosas, tais como: “Call him Ed Sheeran, he in love with my body” e “I mean, y’all bitches better ‘yuh’ like Ariana”. Falando em Grande, ela colabora aqui, o que não é nenhuma surpresa — a surpresa hoje em dia é que um projeto que não tenha Ariana Grande nele. Essa, junto com “You Right”, com The Weeknd, são relativamente bem, mas não é suficiente para se tornar um replay.

No entanto, por outro lado, há alguns cortes agradáveis no Planet Her. “Naked” seria a abertura perfeita para o álbum. Ele mostra Doja em um papel empoderado e desafiador em uma faixa sensual. Ela se pergunta constantemente: “Can we take this off and get naked?”. “Payday”, com Young Thug, é outro destaque. Os vocais finos no início a fazem soar como uma música do k-pop, que contrasta perfeitamente com algumas cordas e o lado mais pesado do rap e trap do Thug. Então, enquanto “Love To Dream” surge com um gancho melódico e Cat cantando, “We just love to dream / I fell as sleep when you wake up, oh / It’s not you, it’s just me / I don’t believe what I just lost”, “Need To Know” aparece com batidas mais escuras e pesadas, com Doja em outro momento de libertação sexual. Ela canta: “Wanna know what it’s like / Baby, show me what it’s like / I don’t really got no type / I just wanna fuck all night”. Entretanto, embora bons, estes momentos não são suficientes para realmente salvar o disco. 

Talvez seja um pouco desnecessário dizer isto, mas quando você finalmente chegar ao final do álbum, você não vai acreditar que realmente acabou. Isso porque, nas últimas faixas, Doja Cat estende a duração do álbum com estas canções que carecem de personalidade e que simplesmente não acrescentam nada. Ao passo que “Been Like This” é sexy e misteriosa, “Options” e “Ain’t Shit” soam como canções genéricas que estariam em qualquer lista de músicas Spotify. “Imagine”, por sua vez, tem potencial, mas parece que até mesmo Doja não leva a canção a sério. No entanto, nos últimos segundos, a Doja acaba por compensar um pouco. “Alone” é uma das músicas mais diferentes do disco, com cordas, uma boa estrutura e progressão, e vocais de fundo que fazem sentido com toda a construção sonora da faixa. Além disso, é um de seus pontos mais fortes liricamente, com ela compreendendo que está melhor sozinha do que em má companhia. Ela canta: “Do what you do best and be alone”, e depois: “But now, you’re scared to be alone”. “Kiss Me More”, com a SZA, fecha bem o disco, sendo um sucesso orgânico vintage dos anos 80 e 90. É um som minimalista, mas funciona porque não é preciso muito para ser bom. No entanto, no final das contas, metade do Planet Her só é um pouco interessante e a outra é facilmente esquecida. Por enquanto, é melhor ficar aqui na Terra.