Melt My Eyez See Your Future
2022 • RAP/HIP-HOP • LOMA VISTA
POR LEONARDO FREDERICO; 31 DE MARÇO DE 2022
7.5

Akira Kurosawa é um dos maiores cineastas da história do cinema. Dentro do Japão, ainda, provavelmente, o mais importante de todos os tempos. Seus primeiros filmes, logo depois da Segunda Guerra Mundial, como Os sete samurais, de 1954, retratavam pessoas marginalizadas, as quais sofreram com as cicatrizes que a batalha deixou na sociedade e cultura japonesa. Ademais, suas obras operam em um viés intimista, como em Viver, de 1952, para além de quebrarem com o clássico, introduzindo novas formas narrativas que conversariam, mais tarde, com sua marca sombria do humanismo, como em Ran, de 1985. Kurosawa, para além de ser, indiscutivelmente, um dos diretores mais complexos do cinema, é também uma das grandes inspirações para o último lançamento de Denzel Curry. 

Melt My Eyez See Your Future é o quinto disco do rapper estadunidense. O registro começou a ser produzido logo depois do lançamento do seu último álbum, Zuu, de 2019. Embora tenha tido sua gestação durante o lançamento de Zuu, o último trabalho de Curry apoia em abordagem diferente da direção que ele estava seguindo. De acordo com ele, em um tweet, ao lado do diretor japonês, os acontecimentos recentes da vida dele e do mundo foram peças fundamentais na construção de Melt. Contudo, o que realmente recalculou sua rota foi o sentimento de cansaço e comodismo com aquilo que ele estava fazendo. Segundo Denzel, ele não sentia mais o mesmo quanto rappeava. Isso foi o ponto-chave para Melt justamente por apresentar uma versão mais intimista e pessoal de Curry, fazendo deste seu trabalho mais pessoal. 

Os melhores pontos da filmografia de Kurosawa podem ser observados nos instantes mais fortes de Melt. Seguindo as técnicas de enredo de Akira, muitas vezes transformando uma narrativa cotidiana e simplista em algo muito maior, o cantor trabalha em torno de histórias que mesclam o imagético de cenas comuns com sentimentos maiores. Em “Walkin”, por exemplo, ele se encontra vulnerável dentro de uma sociedade capitalista opressora. Enquanto vocais femininos ressoam ao fundo, em harmonias etéreas, ele canta: “Walkin’ with my back to the sun, keep my head to the sky / Me against the world, it’s me, myself”. Da mesma forma, “Worst Comes to Worst”, com seus scratches noventista, aparece com uma das melhores, direcionando seus olhares para luta interna do artista: “Of all things, my mental suffers greatly / They draw guns so how could lead erase me? I’m baffled”. Nesses momentos, o calibre de Curry é afiado e ainda que abrangente, fortemente direto.

Outrossim, reflexo da ambição visual de Kurosawa reflete no caráter visionário — ou pelo menos não muito usual — que algumas dessas faixas possuem. Se em seus anos de veterano, o japonês ele entregou obras com cinematografia ofegante, a produção de Denzel surge da mesma forma, impressionante. “John Wayne” é a única faixa produzida por JPEGMAFIA, o que por sua vez justifica o porquê dela também ser a mais interessante, sonoramente falando: tiros de armas compõe o plano de fundo com sintetizadores delirantes, enquanto os vocais de Curry são trabalhos em camadas, criando uma sensação onírica de tortura mental, conversando bem com a narrativa da composição. “Mental”, por sua vez, além de levar as vozes harmônicas femininos vistos em outras faixas para o outro patamar, apresentando uma versão ainda mais complexa e bem trabalhada deles, conta com pitadas da cultura neo soul, finalizando a canção com sentimentos cintilantes. 

Todavia, no produto final, tanto o caráter mais intimista do disco quanto a inspiração do Kurosawa se perdem. As lutas mentais e sociais se dissolvem em narrativas redundantes sobre riqueza — embora o próprio Denzel tenha cantando sobre como essa cultura afetou sua vida minutos antes. “Troubles”, por exemplo, apesar de ser relativamente divertida, é igualmente clichê, além de ter algumas linhas… vergonhosas (“I can’t swim, I got a pool and I’ma drown in it / Drunk under water, they going clown fishing”). Mais tarde, faixas como “Ain’t No Way” — que, pelo visto, era para ser a “Monster” desse registro — e  “Angelz” são estreitamente pleonásticas. Mas, as piores são “X-Wing” e “Sanjuro”: enquanto a primeira parece um descarte do Drake, na segunda, 454 soa como se ele tivesse saído de uma música do Jake Paul.

Honestamente, o prólogo e o epílogo do disco também aparecem com os momentos mais apagados de todo o projeto. Enquanto a abertura “Melt Session #1”, apesar de conversar bem com a narrativa de Akira mencionada anteriormente, é fraca para abrir Melt. Embora tenha uma boa progressão, ela parece mais uma peça de meio de álbum do que propriamente uma canção inicial. No mesmo sentido, o mesmo acontece com “The Ills”, que além de, novamente, repetir grande parte daquilo que já foi cantado no disco, é esquecível. É uma pena que faixas como essas tenham seus três ou quatro minutos, ao passo que “The Smell of Death”, com seu flow e instrumental energizante, luta para chegar a um minuto e meio. No final, é muito contexto para pouca execução.