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HOLY FVCK

2022 •

ISLAND

6.0
O último lançamento de Demi Lovato é sua aposta mais ousada até então, porém raramente é tão potente quanto a cantora finge ser.
Demi Lovato - HOLY FVCK

HOLY FVCK

2022 •

ISLAND

6.0
O último lançamento de Demi Lovato é sua aposta mais ousada até então, porém raramente é tão potente quanto a cantora finge ser.
23/08/2022

Quando Demi Lovato, em 2011, quebrou com a estética pop rock de seus dois primeiros discos de estúdio — Don’t Forget e Here We Go Again — para seguir um caminho voltado para a sonoridade mainstream, ela também estava quebrando com ela mesma. Em uma entrevista no lançamento de Unbroken, o terceiro registro da cantora, ela disse que “o nome do álbum realmente combinava com o que sou hoje… não estou quebrada e estou aguentando firme”. Isso seguia um passado conturbado que havia explodido na mídia em 2008, quando cortes nos pulsos de Lovato foram pegos em uma foto de um paparazzi. Embora, na época, a artista tenha relatado sobre sua condição mental, que vinha se alastrando desde seus 11 anos, ela nunca tinha usado isso como um tema recorrente em sua arte. Foi só com o terceiro álbum, depois de frequentar uma clínica de reabilitação, que ela conseguiu usar a música não apenas como uma forma de escape e catarse, mas também para responsabilidade social. 

Por mais que Lovato tenha feito um bom proveito de sua própria história no processo de criação de sua música, ela sempre se perdia no meio do caminho. Em 2018, ela teve uma overdose, logo após ser sexualmente abusada por um traficante. Dancing With the Devil… The Art of Starting Over, o sétimo trabalho da cantora, seria um retrato fiel e emocional de tal experiência, se não tivesse contido algumas canções de mal gosto, como “The Way You Don’t Look At Me” que comparou uma quase morte por overdose com um relacionamento que não estava dando certo. Logo, funcionando ou não, desde Unbroken, cada novo lançamento de Demi surge como um renascimento, uma nova forma de ver a vida e de enfrentar seu passado. Seu mais recente, HOLY FVCK, é sua proposta mais ousada para (mais uma de) sua ressurreição, mas raramente é tão potente quanto Lovato pensa. 

HOLY FVCK é um forte descarte e partida para longe da estética que dominou seus últimos lançamentos — essencialmente depois que ela deixou o Disney Channel para focalizar seus esforços majoritariamente em sua carreira musical. Fortemente baseado em suas duas primeiras obras, HOLY FVCK adota um olhar mais maduro e audaz, criando relações religiosas e sexuais. Felizmente, em boa parte do álbum isso funciona relativamente bem. Na abertura, “FREAK”, Demi apresenta um viés mais visceral e sensual, que embora precise de ajustes, consegue ser executada muito bem. “SKIN OF MY TEETH”, por sua vez, conta com um caráter quase humorístico, que trouxe um refresco para essa temática saturada, bem como um trabalho vocal interessante. “EAT ME”, com Royal & the Serpent, é o máximo que Demi consegue chegar longe do comum — o que já é um avanço — e “CITY OF ANGELS” e “FEED” conseguem dosar bem entre ser algo novo, mas familiar e ousado, embora contido. 

Por outro lado, nem sempre Lovato consegue concretizar suas ideias muito bem. Em diversos momentos, seu som e sua composição soam datados, parecendo muito mais uma reciclagem de algo perdido num velho baú do que uma homenagem e algo influenciado. “SUBSTANCE”, por exemplo, embora traga uma perspectiva diferenciada sobre todas as questões dos vícios da artista, é irritavelmente clichê, parecendo um descarte qualquer de Don’t Forget. Pior ainda, “COME TOGETHER” parece uma mistura entre suas duas fases, pop e pop-rock, resultando em uma coisa que quase nunca entra em sintonia interna. “WASTED”, por sua vez, ressoa dentro da paleta de Unbroken ou Demi, de 2013. Por fim, até uma das mais intimistas, “4 EVER 4 ME” parece sair de Head Above Water, o segundo pior álbum de Avril Lavigne. Para além dessas soarem datadas, sua fusão dentro de um mesmo trabalho só gera uma sensação de confusão. 

Mas, talvez o pior de todo esse álbum seja seu “conceito” — que, sinceramente, está mais para um conjunto de elementos estéticos rasos. Não sei exatamente qual é a questão, mas me lembra um pouco Miley Cyrus e suas tentativas falhas de sempre mudar radicalmente de personalidade em cada um de seus lançamentos. Nos dois casos, embora boas ideias, grande parte delas são forçadas e nem suas próprias executoras parecem levar totalmente a sério ou, ainda pior, acham que elas são melhores do que elas realmente são. Olhe, por exemplo, “HOLY FVCK” e suas metáforas: “You see me begging for permission / Let me free you from her prison / She’s a novice, a beginner / I’m the sexorcist, the sinner”. Por mais que Lovato ache que isso causaria uma comoção religiosa, o máximo que aconteceu é ela ter passado vergonha — pelo menos a música é sonoramente divertida.

Nesse sentido, Demi não só não está sendo tão ousada ou desaforada quanto ela acha que está — ela nem escreveu “fuck” certo no nome do disco —, visto que sua valência lírica se limita às comparações bregas, mas também nem sempre consegue dizer as coisas da maneira mais certa. Ouvindo “29”, é possível ver uma história profunda e complexa, mas que infelizmente é perdida dentro de versos curtos que parecem nem sempre realmente expressar o que verdadeiramente aconteceu — em outras palavras, uma canção que te deixa a desejar mais, mas não pelas razões corretas. Mas, se nessa faixa ela peca por falar pouco, em “DEAD FRIENDS” ela peca por falar demais, cantando com euforia sobre amigos mortos. Existe uma intenção genuinamente boa, mas a execução está longe de ser a mais adequada, e, assim como todo esse registro, e igual aos outros de Demi, tudo que é necessário é um passo para trás para se perguntar: “é realmente isso que eu queria dizer?”.

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