Infinite Granite
2021 • ROCK • SARGENT HOUSE
POR LEONARDO FREDERICO; 28 de AGOSTO de 2021
5.8

O Deafheaven, banda formada em 2010 em San Francisco e liderada por George Clark, foi uma das maiores promessas do metal da última década. Depois de um conjunto de gravações demos financiadas por 500 dólares por Clark e por Kerry McCoy, a banda entrou em uma curva ascendente. Álbum atrás de álbum, o grupo ia entregando obras cada vez mais estelares. Seja pela mistura monumental de black metal com post-rock em Sunbath, ou ainda pela atmosfera densa e aterrorizante de New Bermuda, no qual a beleza se chocou com o desânimo em uma metamorfose catártica, o Deafheaven estavam se superando a cada lançamento. Eles podem não ter sido os primeiros a fazerem isso, mas foram os responsáveis por levar para um patamar mais popular. Todavia, Infinite Granite, o último lançamento deles, é o objeto fora da curva, sendo uma grande frustração e  o pior trabalho deles até hoje. 

Por mais que o disco conte com diversos elementos presentes em trabalhos passados da banda — crescendo ordenados pelo post-rock, principalmente —, Infinite Granite é de longe o álbum mais opaco, sem brilho, sem graça e maçante da banda. Aqui, eles disseram adeus para o metal, justamente aquilo que fez eles serem o que eles são. Logo, dessa forma, Infinite Granite roda em torno quase que inteiramente do amadorismo: a produção soa sem direção e percepção, os vocais raramente conseguem ser fortes o suficiente e acabam sendo sufocados, e a composição é medíocre e tem que lutar muito para brilhar. São canções que já carecem de personalidade por si só, colocadas dentro de um disco que não faz nada para tentar mudar isso, se tornam, então, ainda mais esquecíveis.  

O maior problema de Infinite Granite e que cria essa sensação de amadorismo é justamente a falta de norte que a banda apresentou durante a criação do disco. Para colocar de forma simples, o grupo parece bem mais preocupado em criar uma atmosfera através de sintetizadores e reverbs e não com o conteúdo de todo esse ambiente. Olhe, por exemplo, para as faixas “In Blur” e “Great Mass of Color”, ambas as quais não entregam nada que vá além de uma mera continuação da música de abertura. A sensação que você tem é que eles estavam tão preocupados em construir algo denso e imersivo que acabaram esquecendo de colocar um charme, um diferencial em cada uma dessas canções. Claro que as duas contam com (poucos) elementos únicos, mas comparado com outros trabalhos do Deafheaven — e até mesmo com outras faixas desse disco —, esses elementos são quase nulos. 

Contudo, essa carência de um perfil de uma banda que está entregando seu quinto álbum é refletido também em uma análise mais técnica e precisa das faixas. Além de elas não conseguirem se destacar dentro do disco — Infinite Granite na totalidade soa como uma peça homogênea que raramente apresenta pontos de destaque —, as canções não conseguem apresentar dentro de si momentos que permitem uma diferenciação. Os versos, os refrões e as pontes parecem tudo a mesma coisa, soando igual, com a mesma intensidade, com a mesma importância, na mesma entonação e frequência. Músicas como “Other Language” e “The Gnashing” raramente apresentam um refrão que destaca ou uma ponte que faz você ficar ansioso por ela. Por consequência, são canções que não só soam iguais no contexto do álbum, mas sim faixas que também soam iguais durante toda sua duração — que não é curta, grande maioria quebra a marca dos cinco minutos.  

São raros os momentos em que cono grupo consegue criar nuances mais do que necessárias e desejadas. “Shellstar”, a abertura, mostra uma construção muito curiosa, com sintetizadores empoeirados e cordas brilhantes. “Lament for Wasps”, por sua vez, é a faixa mais palpável do disco, sendo, talvez, a única que consiga entregar uma produção clara que possibilite você sentir a textura dos instrumentos. Todavia, não se pode negar que os refrões nessas músicas ainda são decepcionantes, ainda soando abafados e sufocados, quebrando com a certa potência da produção dessas canções. A única que consegue escapar é “Neptune Raining Diamonds”, uma faixa totalmente instrumental, que, diferente das duas anteriores, consegue transpor a produção da primeira, porém, sabendo trabalhar, colocando a dentro de um contexto mais futurista, na qual sintetizadores ecoam como foguetes e barulhos macabros dentro de uma nave espacial. No entanto, um dos melhores instantes do álbum é o final da faixa de encerramento, onde os vocais agem sob influências do metal. É justamente, ironicamente, no momento em que eles soam como o passado e como tudo que eles já fizeram que tudo parece certo e direto. Penso que nem tudo precisa de uma metamorfose.