Spiral
2021 • ALTERNATIVO/ELETRÔNICO • MATADOR
POR SIMÃO CHAMBEL; 7 de AGOSTO de 2021
7.4

O duo Darkside, projeto colaborativo entre Nicolás Jaar — o nome por detrás do essencial da música eletrônica, Against All Logic — e o guitarrista Dave Harrington, volta com um novo disco depois de oito longos anos do aclamado Psychic. Apesar de pretender seguir um modelo aproximado ao do álbum anterior, Spiral parece falhar exatamente nos pontos em que Psychic se mostra mais forte, acabando por apresentar faixas com menos substância das lançadas no álbum de estreia do duo. 

Grande parte das músicas deste projeto segue um mesmo padrão — um baixo que estrutura uma melodia complementada por percussão rítmica e pela magnífica produção de Nicolás, que recorre principalmente ao uso de sintetizadores e vários efeitos digitais para enfatizar a dimensão eletrônica que se pretende afirmar ao lado de reconhecíveis traços de art rock, engenho de Harrington. A atmosfera criada, por vezes inquietante e sombria, por outras descontraída e natural, é ocasionalmente enriquecida por detalhes na produção que saltam aos ouvidos atentos. Mais do que na construção das faixas no seu todo, é nestes momentos que Jaar mostra o melhor de si neste projeto. Mesmo assim, não podemos dizer que o trabalho de cada um dos artistas compete com o do outro, tentando empurrá-lo para um segundo plano. O grande mérito dos projetos de Darkside é a natureza simbiótica que cada parte tem com a outra. Spiral é mais uma prova do potencial que um álbum pode carregar ao compatibilizar dois gêneros que raras vezes encontramos em tão perfeita convivência.

A substância das faixas falha principalmente na primeira parte do álbum, gerando faixas desapontantes como “Narrow Road” ou “The Question is To See it All”, onde uma performance vocal entediante acompanha uma melodia que se parece repetir exaustivamente. Na realidade, por todo o álbum, os vocais raramente são dignos de menção, por vezes prejudicando mais as faixas do que servindo-lhes como mais-valia — ora desestabilizando a atmosfera construída pela instrumentação, ora ofuscando certos pormenores. Falhando em segurar o interesse do ouvinte, as músicas parecem ter constantemente de se refugiar em detalhes de produção que as tornem mais cativantes e singulares. 

A essência das faixas parece ser reposta, em parte, na segunda parte do disco. Indiscutivelmente mais interessantes e pertinentes, acabam por fechar o álbum sublinhando o que de melhor ele oferece. Em “Inside is Out There” é proposto um loop de uma batida de percussão que se vai repetindo enquanto uma guitarra e um tímido piano improvisam antes da entrada de vocais que parecem pairar, descolados, acima da faixa. Apesar de ter alguns momentos fascinantes, a faixa de oito minutos parece não inovar o suficiente para que, durante alguns momentos, não se torne quase repetitiva e corte com o interesse do ouvinte. O álbum fecha com “Only Young”, um destaque merecedor de menção. Com a produção no auge da sua misticidade e com uma instrumentação que evoca um órgão de uma catedral a reverberar, um descomplicado solo de guitarra brilha à medida que se vai intensificando.

Não se reservando de sonoridades psicadélicas, o disco parece-nos levar numa viagem mística e hipnotizante. A produção etérea de Jaar e os solos serenos da guitarra de Harrington, por vezes evocando pistas de um jazz descontraído, parecem tender para uma sonoridade mais atmosférica, que nunca se realmente se compromete como tal. A coesão do álbum parece sair afetada por esta indecisão, acabando grande parte das faixas por ficar num limbo entre o que pretendem e o que realmente acabam por ser. Ainda assim, o álbum é um imprescindível projeto deste ano, com destaque na harmonização do trabalho dos dois artistas, que acaba por criar algo que os ultrapassa singularmente.