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BB/ANG3L

• Nice Life

• 2023

8.2

Com apenas sete faixas, BB/ANG3L é mais uma adição certeira ao catálogo independente de Tinashe e consagra a louvável capacidade de reinvenção da artista como força motriz da cena R&B contemporânea.

BB/ANG3L

• Nice Life

• 2023

8.2

Com apenas sete faixas, BB/ANG3L é mais uma adição certeira ao catálogo independente de Tinashe e consagra a louvável capacidade de reinvenção da artista como força motriz da cena R&B contemporânea.

PUBLICADO EM: 30/09/2023

PUBLICADO EM: 30/09/2023

Falar sobre o R&B contemporâneo é falar sobre um gênero que, por muito tempo, dominou o mainstream e cujo flerte com o pop radiofônico foi extremamente bem aceito no começo do século, mas que, com o passar dos anos, foi perdendo relevância e apreço popular. Principalmente se olharmos para o mercado norte-americano, a ascensão do EDM na segunda metade dos anos 2000, com seus ritmos acelerados e dançantes, sobressaiu à estética mais descontraída e suave do outro. Para o público, ficou a ideia de que essa sonoridade era maçante e repetitiva demais, e ela só reconquistou popularidade — e, consequentemente, espaço nos charts — na metade final da última década. Artistas como Frank Ocean, SZA e Summer Walker foram peças centrais nesse contexto, que tomaram inspiração nos elementos essenciais do R&B e propuseram a reconstrução deles, dando início, assim, a uma nova (e certamente mais interessante) fase do gênero.

Foi justamente a mudança estrutural de características ultrapassadas que permitiu a volta do R&B aos holofotes. Num enfoque mais específico, a saída de Tinashe das mãos de uma gravadora influente e sua jornada como artista independente desde então também devem ser encaradas como conquistas fundamentais desse movimento. Ainda que seu álbum de estreia, Aquarius (2014), e suas mixtapes mais experimentais já apresentassem um potencial para desafiar as concepções alheias acerca de sua música, foi o alcance da liberdade artística, em 2019, que transformou a carreira da cantora estadunidense e a posicionou como uma das figuras mais relevantes dentro do R&B contemporâneo. Isso porque seus três últimos discos transbordam personalidade e ousadia ao mesmo tempo que são acessíveis e de fácil consumo, provando que o interesse comercial não precisa sobrepor a autenticidade. Nesse sentido, se no começo de sua carreira ela estava apenas aquecendo os motores, é inegável que, agora, Tinashe esteja acelerando um dos carros que lideram a cena do novo R&B. 

BB/ANG3L, seu mais recente trabalho, talvez seja sua expressão mais impactante até hoje. Apesar do que as singelas sete faixas parecem sugerir, o conteúdo encontrado aqui é surpreendentemente diverso e a curta duração se justifica pela proposta centrada e bem estruturada, ainda que seja impossível finalizar a escuta sem desejar mais — porém, isso só atesta a qualidade do projeto. Com uma estética assumidamente sensual e refrescante, as canções permeiam o espaço convidativo da fusão dance-eletrônica-R&B que Tinashe já vinha explorando em seus últimos registros, mas de maneira esquelética. No 333 (2021), por exemplo, tínhamos dois blocos: o primeiro mais voltado para o trap, o segundo para o pop. Aqui, por outro lado, a combinação dos elementos é mais fluida; vamos da atmosférica abertura “Treason”, aos graves pulsantes de “Uh Huh”, e chegamos nos grooves deliciosos do UK-garage de “Gravity” em menos de vinte minutos, e o encaixe das sonoridades é perfeito.

Ainda que artistas decadentes como Chris Brown tentem descredibilizar o trabalho de Tinashe, não há dúvidas de que sua artisticidade move o R&B contemporâneo adiante enquanto o apego de alguns aos maneirismos e fórmulas batidas do gênero tenta estacioná-lo. É claro que a falta de investimento por parte de uma gravadora dificulta a chegada de seus projetos no mainstream — se não fosse por isso, “Needs” certamente seria um dos grandes hit singles do ano —, mas percebemos que a escolha de se tornar uma artista independente foi certeira quando ouvimos algo tão progressivo e interessante como “Talk To Me Nice”.

Como ela canta em “Tightrope”: “Need an escape route / Before I hit the ground” — BB/ANG3L, além de mostrar que Tinashe é adepta à mudança, é uma prova concreta de que a rota de fuga escolhida por ela para escapar das mãos sujas da indústria foi a melhor possível.

MAIS CRÍTICAS PARA

333 talvez não seja seu melhor álbum, mas é um de seus mais ecléticos e interessantes, mostrando a versatilidade e talento da artista.
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