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Prelude to Ecstasy

2024 •

Island

7.8
Prelude To Ecstasy e o admirável e implacável “female rage”.
The Last Dinner Party - Prelude To Ecstasy

Prelude to Ecstasy

2024 •

Island

7.8
Prelude To Ecstasy e o admirável e implacável “female rage”.
07/02/2024

Dois anos atrás, popularizou-se Pearl, um longa-metragem de terror e suspense do estúdio A24, e o público rapidamente foi conquistado pela sua protagonista, que dá nome ao filme. A enorme dificuldade que ela teve com a resolução das questões que enfrentou ao longo da narrativa, como o relacionamento conturbado com sua mãe e o enclausuramento numa vida insatisfatória, ganhou a empatia do público, principalmente o feminino, que conseguia se enxergar nela e sentir sua aflição por justamente se tratar de um retrato dos problemas que passam diariamente. O peso da responsabilidade de atender as expectativas impossíveis é demais para qualquer um carregar. Em decorrência disso, de pouco em pouco, a integridade emocional das mulheres se despedaça até que, num estopim, desmorone e todas se arruinem. Porém, no processo, algumas conseguem levar quem está a sua volta junto dela, como foi o caso da aspirante a atriz. A jovem, interpretada por Mia Goth, em completo desespero, matou várias pessoas: uma fincada com uma forquilha, outra esquartejada, fatiada com um machado e depois dada de comer para os jacarés, e até mesmo os próprios pais. Entretanto, por mais que se trate de uma calamidade, essa série de assassinatos possui algo bastante admirável: a expressão da raiva feminina ou, como é popularmente conhecido, “female rage”.

O termo “female rage” define toda e qualquer representação midiática da resposta agressiva de mulheres à opressão, maus-tratos e desvalorização. Tal definição vem ganhando cada vez mais força com o passar do tempo, ao ponto de quase se estabelecer como um movimento, em prol do feminismo e contra o sistema, o qual faz as mulheres se submeterem às vontades dos homens. Ela não apenas mostra a brutalidade das emoções sentidas, mas também aflige sua agonia em quem assiste com calma e intensidade; causando um desejo veemente e impaciente por justiça e validação. É algo tão forte que consegue desabrochar a flor da pele em instantes. Várias obras foram criadas partindo desse princípio, como o próprio Pearl, de 2022, outros clássicos modernos, como Kill Bill, de 2004, estrelado por Uma Thurman, e, o caso mais recente, Prelude To Ecstasy, álbum de estreia da banda britânica The Last Dinner Party.

Antes da chegada de Prelude To Ecstasy, The Last Dinner Party estreou com “Nothing Matters”, em abril do ano passado. A música levou muito tempo para ser finalmente lançada, entretanto, isso não impediu que conseguissem tomar o próprio espaço na música. Antes mesmo de possuir um catálogo, elas abriram vários shows para diversos artistas. Os seus concertos sempre foram espetaculares. Trajando roupas de beleza clássica e renascentista, embebedavam-se do sangue jorrado das feridas abertas pela sociedade e imprimiam manchas sangrentas no público, num grande e intermitente louvor à feminilidade. Juntas, fazem uma expressão artística magnífica do “female rage”, e tudo isso é refletido nesse disco. Em “The Feminine Urge”, quarta faixa do álbum, por exemplo, ironizam a ideia deturpada dos homens de que as mulheres servem apenas para seu entretenimento, com muita imponência e deboche: “Oh, pull your boots up, boys / And push me down / I’m only here / For your entertainment”.

Depois de uma tentativa efetiva de ser uma representação clara da raiva e angústia feminina, Prelude To Ecstasy é a investida das The Last Dinner Party em criar um repertório conciso para si mesmas; que conseguisse compreender a urgência de suas mensagens e, ao mesmo tempo, entreter o público enquanto estivessem performando no palco. Então, devido a isso, a característica que adquiriu maior ênfase por elas foi o seu majestoso fervor. A grande maioria das canções do disco são Abigail, junta de suas companheiras nos instrumentos e James Ford — renomado produtor da cena indie, que inclusive já trabalhou com Jessie Ware — na produção, exclamando em alto e bom som sobre as batidas animadas e guitarras irreverentes do punk e glam rock, porém sob um contexto mais contemporâneo. A sonoridade do disco se definiria como uma divergência entre o post-punk e indie rock com o baroque pop e alt-pop. É como se Florence and The Machine colaborasse com os Black Country, New Road, porém de uma forma não tão grandiosa quanto se possa imaginar. Digo, o trabalho é de fato maravilhoso, contando com vários destaques, porém o montante gerado pela média qualitativa geral retirada das faixas num todo não chega a um nível muito elevado, como os trabalhos daqueles anteriormente citados. Habitualmente, o disco apenas é regular. “Caesar on a TV Screen” é uma canção simples e direta, com reviravoltas divertidas, mas nada surpreendentes, e uma performance confiante e poderosa. Poderia-se dizer o mesmo de “Burn Alive”, cuja produção consegue ser ainda mais óbvia, fazendo-a ser um tanto desinteressante, mesmo contando com vocais estrondosos e uma composição sólida. No entanto, felizmente, há de ganhar mais força quando se encontra em seu meio e fim, graças a presença de músicas estupendas como “Sinner”, “My Lady Of Mercy” e, claro, “Nothing Matters”, que extravasam esses sentimentos de revolta, raiva e rebeldia de forma mais fascinante.

Entretanto, por mais que possa se pensar o contrário, Prelude To Ecstasy é uma obra pintada com mais nuances que apenas tons obscuros de vermelho. O álbum também possui pinceladas azuis gravadas em seu cenário, mostrando mais que apenas a raiva e a revolta das mulheres, mas também a tristeza e frustração. “On Your Side”, uma das melhores faixas do disco, é onde se é mais agravada tal melancolia. A faixa destaca-se por ser o silêncio depois da tormenta criada pelas “The Feminine Urge” e “Burn Alive”. Na música, é contada como foi o relacionamento tóxico que Abigail, vocalista principal da banda, vivenciou em seu passado. Após os maus-tratos que sofreu nas mãos desse antigo parceiro, ela tenta desculpar-se com Deus por ter permitido passar por algo assim: “I know I’m better off not looking back / Forgive me, father, won’t you take it back?”. E, depois, prossegue nos revelando mais e mais detalhes sobre essa relação. Para a jovem, o seu ex era como um vampiro, que se deleitava com o sangue dela, mesmo sabendo que a causava dor, mas que, porém, não conseguia terminar com ele, por mais que sentisse que devesse. Mesmo depois de todo o dano causado, Morris ainda se fazia presente, dando-lhe conforto nos seus piores momentos: “I will hold your hands to stop them from shaking / If it takes all night, I will be on your side”. Ao mesmo tempo que soa como uma declaração de amor, a música também soa como uma confissão da cantora, feita para si mesma, de que mesmo estando sofrendo muito, não seria capaz de abandonar seu amor, e é neste ponto onde está toda a magnificência da música. Essa dualidade criada por ela transmite toda a angústia que as mulheres sentem enquanto atuam na posição submissa a qual a sociedade as puseram, o que adiciona ainda mais profundidade ao álbum e sua mensagem de empoderamento.

Eu diria que Prelude To Ecstasy é incrível, mas não pela qualidade de seu conteúdo, e sim por se tratar do primeiro álbum das The Last Dinner Party. Muitas bandas mais experientes em atividade encontram muita dificuldade em criar um disco tão conciso e envolvente como este, um exemplo disso é os próprios Green Day. Saviors, seu último álbum, foi péssimo. Então as garotas deveriam se orgulhar por terem se saído tão bem logo de cara. Muitos estavam a dúvida do talento delas por conta da enorme promoção que estavam tendo com tão pouco tempo de carreira, dizendo que se tratavam apenas de “industry plants”, ou “plantas da indústria” — nome dado para artistas estreantes em evidência cuja popularidade parece ter sido reivindicada por grandes empresas por trás das cortinas —, então é de se admirar que tenham correspondido com as expectativas altas postas nelas e provado a todos o quão errados estavam sobre elas. Algumas ideias trabalhadas no álbum são realmente palpáveis. Seu conceito, todo trabalhado em torno do female rage, é encantador. Porém, há o que se melhorar mais, visto que tem algumas partes que requeriam mais refinamento. Contudo, acho que com o tempo elas irão melhorar isso.

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