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Javelin

• Asthmatic Kitty

• 2023

9.0

Com pedaços recortados da essência de cada álbum, Sufjan Stevens executa uma triunfante colagem sonora, assim como a arte da capa de Javelin.

Javelin

• Asthmatic Kitty

• 2023

9.0

Com pedaços recortados da essência de cada álbum, Sufjan Stevens executa uma triunfante colagem sonora, assim como a arte da capa de Javelin.

PUBLICADO EM: 10/10/2023

PUBLICADO EM: 10/10/2023

A vida pessoal de Sufjan Stevens sempre foi escanteada em prol de sua arte. Talvez não tanto se o olhar mais atento se fixar nas entrelinhas das relações dele com os espaços citadinos e rurais de discos como Michigan e Illinois. A forma pela qual o cantor aborda o contato com cada lugar invoca memórias da infância e seu crescimento pessoal. “Romulus”, faixa que compõe o terceiro disco, retrata uma relação conturbada com sua mãe à medida que ela se distancia dos filhos — o título da canção traça a situação referenciando a história mitológica romana de Rômulo e Remo, que foram abandonados ainda bebês. Reflexo desse abandono, em Illinois, instala-se um questionamento sobre o ódio desnecessário à sua madrasta na canção “Decatur, or, Round of Applause for Your Step-Mother!”. Assim, se por um lado sua composição criativa brinca com referências a lugares, contornos fictícios e episódios políticos de Michigan e Illinois para desenvolver sua linha melancólica — o que era para ser um conjunto de discos sobre cada estado estadunidense, mas que ele revelou, mais tarde, ser uma brincadeira —, por outro, Sufjan foi ficando confortável para abordar seus sentimentos cruamente. 

Esse desenrolar se estabelece com o experimentalismo eletrônico de The Age Of Adz, adornado por peças conflitando relações amorosas. Lançado em 2010, o material se distancia do convencional folk que tornou Sufjan um dos nomes mais promissores da música contemporânea. Demonstrando desenvoltura em outro espaço, o processo catártico agora acompanha a musicalidade do artista. E ele chega potente com o turbilhão emocional no registro confessional Carrie & Lowell, de 2015. Isso porque temos o retorno para uma sonoridade calma amparada no folk, o caminho para dissecar a relação com sua mãe, falecida em 2012. Mais a frente, com Convocations, lançado em 2021, Stevens abraça o som ambiente em uma jornada instrumental compreendendo estágios do luto após a morte de seu pai dois dias após o lançamento, no ano anterior, do disco The Ascension. Portanto, à medida que decide tratar, com profundidade, a música como expressão de sua vida, o cantor estabelece um espaço relacionável com o público. Esse panorama da discografia é necessário para entender onde Javelin se encontra, sendo a sinceridade reflexo máximo de outro registro disposto a tratar um período tão penoso como o luto.

Na última sexta-feira, Sufjan Stevens respondeu a anos de questionamento à sua sexualidade com uma publicação devastadora em tom declaratório no Instagram. E foi aí, nesse momento, que, mesmo com poucas horas de lançamento, quem já havia escutado Javelin antes das linhas confessionais expostas na rede social, experimentou a reconfiguração do disco. Rapidamente ele ganha outro significado. Não que fosse difícil presumir, pelas composições, que estamos dispostos a outro momento lastimante da vida do cantor, mas agora é possível localizar para quem é direcionado cada verso das dez canções. Escreve o artista que a obra é dedicada a Evans Richardson, falecido em abril deste ano. Embora não especificada qual relação eles tinham, não cabe aqui especular, mas foi com ele que Stevens vivenciou momentos de companheirismo e amor, detalhados em sua postagem: “Ele era uma daquelas pessoas raras que só se encontram uma vez na vida — precioso, impecável e absolutamente excepcional em todos os aspectos.”.

Assim, da mesma forma arrebatadora que a abertura “Death With Dignity” de Carrie & Lowell, em Javelin, a faixa “Goodbye Evergreen” já expõe as fissuras dolorosas ao perder a luz da sua vida: “Goodbye, Evergreen / You know I love you / But everything heaven sent / Must burn out in the end”. Notável também, já no primeiro verso do material, a persistência de elementos religiosos que acompanham regularmente a música do artista. Sonoramente explora-se um espaço intimista que encontra no calmo piano o caminho para desenvolver sua dilacerante realidade após a perda de Richardson. Mas com exímia surpresa, o crescimento alucinante após o segundo verso se aproxima da expressividade instrumental de The Age of Adz, acionando em lírica repetitiva: “Goodbye evergreen, goodbye evergreen / (Goodbye evergreen) Goodbye evergreen / You know I love you (You know I love you) / You know I love you”. Um contraponto sonoro adornado, contrariamente, por felicidade, bem como as linhas finais de sua publicação pretendem encher o coração de esperança. 

Embora nenhuma outra canção se aposse do experimentalismo como a faixa de abertura, o álbum inteiro é prosseguido a partir da mesma construção. Seria como se um pêndulo de emoções alternasse de um iniciar tranquilo seguido, principalmente, por piano ou dedilhados de violão que evoluem progressivamente para delicadas adições eletrônicas conjugadas, mais a frente, em espaços maximalistas com elementos orquestrais e coros avolumados. “A Running Start” acompanha a voz sem variação, enquanto os instrumentos e o coro ocupam sua centralidade, atingindo um auge cacofônico em seu fim. Parece haver um encontro com as peças contidas em Illinois, estas que se ocupam de igual estruturação, produzindo um som disposto e alegre. Em seguida, “Will Anybody Ever Love Me?” não destoa do padrão desenhado. Inicia-se pelo banjo, sendo preenchido espontaneamente pelo piano e tambores que seguem a introdução de sintetizadores florescidos após o último refrão, rumando para a saída em coro, intercalado a Sufjan, que indaga a possibilidade de ser amado um dia novamente: “My burning heart / (Will anybody ever love me? Love me)”.

Javelin constrói um espaço para que as emoções descontroladas de Stevens possam vibrar, variando entre a solidão melancólica e uma desordem mental que corresponde a progressão sonora, traçando a necessidade de buscar autorreconhecimento diante da realidade alterada por um evento traumático. E como é de seu costume, nesse lugar, há espaço para desenvolver um contato divino, como ao suplicar por luz diante da vida angustiante em “Everything That Rises”: “Jesus lift me up to a higher plane / Can you come around before I go insane? / Cast me not in hell, while my demons rage / Turn yourself around to see what I can say”. Não distante desta métrica, encontra-se a entrega pessoal como sacrifício em “Genuflecting Ghost” e a dualidade entre desejo e pecado narrada através da delicada “My Red Little Fox”. Já a forma como “So You Are Tired” fica posicionada no disco, faz um retorno às bases acústicas, enquanto a lírica devastadora desbrava o desgaste de uma relação que termina em linhas dramáticas: “So you are tired of me / So rest your head / Turning back all that we had in our life / While I return to death”.

A sessão final do álbum comporta a música mais curta — a apaixonante simplicidade violinista da faixa-título “Javelin (To Have And To Hold)” —  e a mais longa: a transcendental “Shit Talk”. Seus oito minutos de duração aglutinam toda a transformatividade que acompanha o registro, acionando a melodia cativante e um desempenho vocal diferente do restante, Sufjan apresenta vocais mais altos antes de um coral folclórico entoar: “Hold me closely / Hold me tightly, lest I fall”. Sendo esta faixa um dos maiores destaques, seu final é devidamente assombroso e melancólico graças a sintetizadores ambientes e vocais dispersos ao fundo. Os ares misteriosos da faixa poderiam ser o final ajustado para o disco, mas ele se volta para o folk solar ao conduzir uma reimaginação da música de Neil Young, “There’s A World”, lançada em 1972.

Com anos de carreira e diversos discos, tanto solo quanto colaborações — o mais recente trata-se de Reflections, lançado em 2023 em parceria com Timo Andres e Conor Hanick — o que esperar de Sufjan Stevens? Javelin é uma resposta clara de renovação. O disco está longe da desconstrução sonora de The Age of Adz ou mesmo The Ascension, assim como não está muito próximo da intimidade de Carrie & Lowell, da orquestralidade exuberante de Illinois, e muito menos de suas peças apoiadas na sonoridade ambiente. Por outro lado, seu décimo álbum simboliza tudo aquilo que Stevens é e pode ser. Assim, com a possibilidade de explorar influências vistas ao longo de sua discografia, tem-se uma amálgama que empresta detalhes específicos de cada momento: um pouco do eletrônico visto nos discos experimentais, uma pincelada orquestral dos álbuns com nomes de estados norte-americanos e um toque da intimidade poética e confessional dos registros dedicados a sua mãe e seu pai. Tudo isso propicia uma peça gloriosa capaz de abstrair os elementos e utilizá-los com sabedoria sem repetir fórmulas já praticadas. Quando a maioria de suas canções brincam com o folk e, mais adiante, são jogadas para um espaço que muitas coisas se avolumam, desde elementos eletrônicos, piano ou guitarra, é um exercício formidável emprestado da sua própria artisticidade que explora um mundo de incertezas em busca de aceitação. E é assim que, com pedaços recortados da essência de cada álbum, Sufjan Stevens executa uma triunfante colagem sonora, assim como a arte da capa de Javelin

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