SOUNDX

Música do Esquecimento

2023 •

RISCO

8.6
O novo disco de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é o mais puro suco do imagético do indie-rock nacional. Acima de tudo, é uma ratificação de que o som da banda não possui barreiras.
Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo - Música do Esquecimento

Música do Esquecimento

2023 •

RISCO

8.6
O novo disco de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é o mais puro suco do imagético do indie-rock nacional. Acima de tudo, é uma ratificação de que o som da banda não possui barreiras.
08/09/2023

Em 2022, a revista norte-americana SPIN nomeou Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo como uma das grandes apostas musicais daquele ano. A banda, formada por Sophia (voz e guitarra), Téo Serson (baixo), Theo Ceccato (bateria) e Vicente Tassara (guitarra), fez sua estreia com um disco autointitulado em 2021 e logo conquistou a atenção dos ouvintes da cena indie brasileira. Ainda que com uma roupagem aberta e fundamentalmente voltada para o rock, o estilo musical do grupo nunca apresentou limitações, e talvez essa seja a razão pela qual ele tenha, em tão pouco tempo, extrapolado as fronteiras nacionais e se mostrado um coletivo de criatividade digno de reconhecimento. Agora, o lançamento de um novo álbum reitera essa aptidão e apresenta novos anseios ao revisitar antigas fórmulas e expandir seus horizontes artísticos — Música do Esquecimento é um progresso natural e revigorante. 

Um dos principais pontos de destaque na musicalidade da banda está na justaposição de elementos teoricamente conflitantes: a nostalgia do antigo com a inovação da contemporaneidade; a psicodelia tropical com a familiaridade urbana; a delicadeza com o descontrole. Na prática, essas misturas — por vezes, feitas dentro das canções, por outras, entre elas — contribuem para o desenvolvimento de uma estética única e altamente moderna, que soa como um frescor para o cenário nacional, apesar de conter claras referências à música popular brasileira clássica, já amplamente conhecida e replicada. E, principalmente neste novo projeto, Sophia Chablau e seus parceiros exploram essa ferramenta de forma a estabelecer uma conexão vigorosa com o ouvinte, seja ela dada pelo resgate de sonoridades habituais ou pela introdução de uma narrativa relacionável. 

No lead single “Segredo”, por exemplo, a revitalização do punk, aliada a uma produção e mixagem que beira o grunge, traz uma sensação de proximidade, de que estamos escutando uma daquelas bandas locais que tocam na garagem de casa. Por outro lado, a lírica reflete a emergência e o fervor de um início de relacionamento, explorando uma intimidade que é impudica e, ao mesmo tempo, romântica. Em contrapartida, na faixa seguinte, “Embaraço total”, o pop-rock paulista serve como pano de fundo para uma balada sentimental que lida com o impasse da separação: “Não sei mais se sou esse rapaz / Se posso desatar o nó entre nossos dedos”, cantam Sophia e Vicente. Já “Qualquer canção” estende esse sentimento de desilusão e incerteza, aqui acompanhado de um instrumental luxuoso e de uma performance ressonante que recordam o ambiente onírico do primeiro álbum de Gal Costa, e, seguindo essa onda sessentista, “As coisas que não te ensinam na faculdade de filosofia” propõe uma revisitação do pop solar amplamente explorado pela tropicália, com direito a variações rítmicas e distorções que adicionam um toque de modernidade às estruturas mais tradicionais do movimento. 

A faixa-título, em compensação, é mais soturna e contemplativa, mas igualmente psicodélica. Sintetizadores flutuantes entram na segunda metade da música como coadjuvantes sutis da voz suave de Sophia, contrastando de maneira eficiente com o minimalismo da primeira parte. O disco, então, parte para uma seção mais lenta e ocasionalmente menos cativante. “Último sexo” é um seguimento direto disso. Sua construção acaba pecando por uma simplicidade que não leva a lugar nenhum e a composição usa de trocadilhos com o inglês numa tentativa de fazer um charme que, no fim das contas, apenas soa blasé. Similarmente, as duas faixas que encerram o álbum até funcionam como experimentos descontraídos, mas, no contexto geral, chegam como uma reflexão tardia, ou músicas bônus. “No princípio era o Verbo”, por sua vez, é um exemplo de risco — também voltado para o slowcore — tomado com êxito. Toda a ambientação construída consegue ser envolvente o suficiente para cativar a atenção do ouvinte e não tão monótona para cansá-lo, embora isso seja realizado de forma discreta. 

No texto de lançamento do álbum, postado nas redes sociais do grupo, o seguinte trecho chama a atenção: “Não existe arte sem cultura / Bote pra fora”. É possível vê-lo como uma síntese de tudo aquilo impresso no disco: a proposta artística de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é cultural porque referencia a expressão de grandes atos da música, mas também porque tem a coragem de experimentar e inovar sobre ela em um cenário onde a reciclagem de ideias se limita apenas ao “copia e cola”. Ademais, é admirável ver que a banda não se pondera quando vai abraçar a natureza barulhenta e desordenada do punk — como podemos ver nas curtas, mas intensas, “Minha Mãe É Perfeita” e “Neurose” —, bem como os grooves dançantes que se fazem presentes nas ótimas “Quem vai apagar a luz” e “Baby míssil”. Afinal de contas, Música do Esquecimento é um reflexo direto da jovialidade escancarada que o gênero tanto tenta reproduzir.

Esse e qualquer outro texto publicado em nosso site tem os direitos autorais reservados. 

FIQUE ATUALIZADO COM NOSSAS PUBLICAções

Assine nossa newsletter e receba nossas novas publicações em seu e-mail.

plugins premium WordPress