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When I Get Home

2019 •

Columbia

8.5
When I Get Home é uma ode ao lar e às raízes.
Solange When I Get Home

When I Get Home

2019 •

Columbia

8.5
When I Get Home é uma ode ao lar e às raízes.
03/03/2024

Eu e alguns amigos temos uma piada recorrente: “se a Beyoncé é a irmã rica, a Solange com certeza é a irmã talentosa”. O trecho sobre a hiperestrela que é a irmã mais velha terminou um tanto desatualizado — afinal Beyoncé se prova cada vez mais uma artista de calibre inédito na indústria —, mas a parte sobre sua irmã Solange ainda é recorrente em cada escuta de seus trabalhos: é talento puro, bruto e com raízes profundas no verbo de ligação ser. Ser artista, negra, estadunidense e ainda, depois de tudo, irmã da maior estrela do planeta.

Ser irmã de Beyoncé por vezes ocultou o trabalho de Solange Knowles, mesmo que de forma não-intencional. O puro tamanho da fama e do estrelato que a Queen B amontoou no decorrer do século XXI seriam capazes de atordoar até o mais impávido dos artistas; Knowles-Carter, entretanto, parece não perder um dia de sono sequer, com sua visage pública calculadíssima e seus atos no momento exato de sua vontade e não um instante antes ou depois. Solange por anos foi posta na caixinha de “irmã de Beyoncé” num estado artístico ligado, quase aos confins, à arte da própria irmã, como se em simbiose: “o novo álbum da irmã da maior cantora viva”, numa colocação de artista-sem-nome ou sem motriz própria, era a reles irmã de Beyoncé Knowles-Carter.

Isso, para o olhar do público, tem fim num momento comentadíssimo até a atualidade: ao supostamente descobrir uma traição de JAY-Z, marido de Beyoncé, Solange agride em defesa emocional da própria irmã o cunhado, dentro de um elevador, sendo registrada por câmeras de paparazzi. Para a ideia popular, morre ali Solange irmã, e nasce a artista, a mulher Solange, que tem desígnios próprios, mesmo que esses desígnios sejam atacar aos tamancos o marido infiel de sua irmã.

Nesse sentido, seu álbum de 2019, When I Get Home, é como nenhum outro. Se o trabalho anterior, A Seat at the Table, torna grandiosa a negritude dos seus, aqui, a artista fala de sua família, de suas mazelas, de seu lar, de si. De si enquanto negra, de si enquanto mulher. “I grew up a little girl, with dreams, dreams” ela recita em “Dreams”, sétima faixa do disco. Ainda que esses sonhos tenham se desvanecido com o crescer, Solange se mostra disposta a novos sonhares, a novos destinos, levando sua bagagem de vontades e sabendo para onde ir em seguida.

When I Get Home evoca uma mitologia texana, um ode de amor à Houston, cidade natal da cantora, como se fosse sua Pasárgada, aos moldes de Manuel Bandeira. Desde “S McGregor”, segunda faixa do disco, homônima a um desvio em Houston, até suas referências ao candy paint dos carros texanos.

Em sua sonoridade, o álbum usa de um mix de referências, indo do spiritual jazz de Alice Coltrane, Pharoah Sanders e Sun Ra, ao kitsch do rap crunk dos anos 2000, ainda que, sobretudo, se mantenha basicamente um álbum de Soul com toques de R&B. E é nesse gênero que a voz melodiosa e delicada de Solange consegue extrair o máximo de sua beleza, com seus vibratos e arpejos, salpicada com música  ambiente. Isso se torna mais evidente quando a cantora diz “Black faith still can be washed away / not even in that Florida Water” ou quando se gaba de consumir black-owned things em “Almeda”, nona faixa do disco, num instrumental chopped n screwed característico da cena hip-hop sulista nos anos 1990. É, também, a instrumentalização de fés sulistas com bases africanas, o vodu e o hudu, nas descrições de crenças e sonhos que não podem ser retirados da universalidade negra.

When I Get Home é, acima de tudo, sobre o lar, sobre voltar para casa, para sua cidade natal, voltar a cultura em que Solange cresceu, a cultura com que ela mais se identifica enquanto mulher negra, e que lhe dói o coração quando se afasta por muito tempo. É uma ode à família, a sua mãe e irmã e a Houston. Um louvor quieto, mas grato. Uma descrição de mazelas pungentes, mas que não apagam o brilho do ser. Solange sabe que apesar de estar por vezes muito longe, e não importa o quão longe estiver, seu lar estará esperando, como sempre esperou, no conforto e no aconchego.

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