SOUNDX

Malvatrem

2023 •

Heavy Baile Sounds

7.2
Em Malvatrem, Slipmami expressa o seu gosto pela liberdade através da absurdidade.
Slipmami - Malvatrem

Malvatrem

2023 •

Heavy Baile Sounds

7.2
Em Malvatrem, Slipmami expressa o seu gosto pela liberdade através da absurdidade.
27/11/2023

Por mais que historicamente seja muito subestimada, a cena do rap feminino do Brasil vem se fortalecendo cada vez mais nos últimos tempos. Mesmo longe dos grandes holofotes, várias rappers talentosas estão se estabelecendo nas mais diferentes subcategorias do gênero. Urias vem se destacando no experimental com o lançamento de seu último projeto, HER MIND, a dupla Tasha & Tracie no hip-hop e, mais recentemente, Ebony com a polêmica e abaladora “Espero Que Entendam”. Nessa faixa, a carioca expressou a sua frustração com o tratamento misógino no meio profissional. Com um jogo de palavras estupendo e uma língua mais afiada que ponta de folha de papel, a artista desferiu críticas pertinentes a vários músicos populares, indo desde Baco Exu Do Blues, passando por Major RD e até Djonga. Dessa forma, a mesma defendeu o direito de permanência de todas essas musicistas incríveis dentro da indústria e as enalteceu num ataque épico ao machismo no meio hip-hop. Uma das protegidas pela qual a compositora indiretamente intercedeu foi a querida Slipmami, que esse ano nos presenteou com a disponibilização do seu primeiro trabalho sobre o selo da Heavy Baile Sounds, Malvatrem.

Yasmin Pinto da Silva, nome por trás de Malvatrem, diz ter encontrado na música o lazer que lhe faltava para passar o dia. Nascida e criada na Vila Urussaí, em Duque de Caxias, na Baixada Flumenense, Slipmami teve uma infância muito humilde. Por conta das dificuldades que sua família passava, a vida dela foi delimitada apenas as redondezas de sua casa. Entretanto, conforme foi amadurecendo, foi se conhecendo melhor e mudando a situação. Assim como muitos outros artistas da cena do trap, a rapper estabeleceu o seu direcionamento artístico com base no caminho percorrido por grandes nomes do hip-hop e do rap estadunidenses, sendo estes Jay-Z, XXXTentacion e Ski Mask, the Slump God, e o percorre até então. Seu primeiro álbum de estúdio, lançado em Janeiro deste ano, marca, porventura, o primeiro e mais importante passo dessa longa caminhada.

Em Malvatrem, Slipmami expressa o seu gosto pela liberdade através da absurdidade. Com seu álbum de estreia, a artista extrapola os limites do que se considera ser sensato uma mulher fazer em nossa sociedade, esbravejando insultos do mais baixo calão, falando abertamente sobre sua sexualidade e negando a se submeter às vontades dos outros. É uma obra muito empoderadora, que estimula a procura do prazer feminino e o crescimento da autoestima.

Sonoramente, Malvatrem é uma obra amálgama de diversos sons ouvidos em trabalhos de trap lançados na atualidade. Tal característica poderia ter feito o álbum não ter unicidade e soar desestimulante para um novo público, no entanto, a personalidade exuberante de Slipmami faz com que o projeto ganhe o interesse da audiência. No início, conferimos a faixa-título do disco, em que a rapper entusiasma o ouvinte com uma performance sensacional e uma batida enlouquecedora — concebida pelo tão conhecido produtor Leo Justi e também pelo Dorly Neto. Contudo, mais adiante na lista de faixas, a artista e seus colaboradores perdem as rédeas e deixam a produção soar um pouco bagunçada, apesar desse problema pouco consegue afetar o resultado agradável adquirido graças a pouca duração que a canção possui. Posteriormente, ouvimos a abrasadora “Oompa Loompa”, parceria entre Yasmin e LARINHX. A música dispõe de uma batida fenomenal, criada a partir do sample de “Halloweenie III: Seven Days” de Ashnikko, e um refrão divertido e muito cativante: “Unha de fibra segurando o copão / Trem bala da v.u que quebrou seu coração” — que, inclusive, ganhou popularidade nas redes sociais e ajudou  cantora a ser mais conhecida nacionalmente.

Depois, nós ouvimos “Problemas de Confiança”. Nessa faixa, Slipmami mostra possuir problemas de confiar nos outros após ter confiado em alguém e ter sido decepcionada: “Não é nada pessoal, mas não quero me envolver / Essa mina nesse pique, não quero pagar pra ver / Se eu confiar nessa vadia, eu sei que ela vai me fuder”. A música conta com uma batida simples, mas eficiente, de pop trap, que serve apenas para realçar a performance concisa da rapper, encerrando com ela entoando novamente o refrão, contudo, com um efeito incisivo de vocoder posto sob sua voz. Posteriormente, temos “Celibato”, em que a cantora canta por cima de uma produção muito interessante, que mistura R&B, alt-pop e trap, e “Chris Drew”, uma colaboração entre Yasmin com AllahSoulja e Vhulto, onde ela e seus colaboradores se desafiam numa batida forte de hard trap.

Malvatrem dispõe tanto de erros quanto acertos. Há momentos em que Slipmami se empolga demais e acaba entregando performances desajeitadas, existem algumas músicas que, em minha opinião, poderiam ter sido melhor trabalhadas, como a faixa-título e “Sou Eu” (parceria entre a rapper com Puterrier) e é inegável que depois de um certo tempo, o disco não passe a soar meio redundante e repetitivo. No entanto, as qualidades do disco conseguem sobrepor facilmente seus problemas. A performance voraz da rapper é muito carismática e efervescente e as batidas do Leo Justi são muito criativas e envolventes. Só espero que em seus lançamentos futuros, Yasmin se impeça de cometer novamente tais empecilhos. Com tamanho talento e desenvoltura para construção de bons jogos de palavras, o futuro da jovem promete bastante.

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