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GRIP

2024 •

Secretly Canadian

4.6
GRIP fracassa em quase tudo que se propôs a fazer, decepcionando muito o público.
serpentwithfeet - GRIP

GRIP

2024 •

Secretly Canadian

4.6
GRIP fracassa em quase tudo que se propôs a fazer, decepcionando muito o público.
17/02/2024

Josiah Wise, mais popularmente conhecido como serpentwithfeet, é um artista emblemático da cena do R&B e soul, aclamado pelos seus ótimos álbuns. DEACON, seu último álbum, foi estimado pela crítica como um dos melhores lançamentos de 2021. A obra foi marcada como sendo uma linda celebração ao amor; a forma como Wise experiencia o amor, em suas diversas facetas, enquanto um homem preto e abertamente gay. E em GRIP, seu novo disco, ele segue do mesmo ponto, mas pendendo para um lado mais íntimo, falando, sem nenhuma rédea, sobre fazer sexo com o seu amado; o estimando como uma parte essencial de sua vida. Da claridade, fomos para a obscuridade; a escuridão, as sombras, o que fazemos nas encobertas. A capa representa muito bem isso, mostrando Josiah e seu parceiro deitados juntos numa cama, com as bordas escurecidas e um céu azul e branco pintado no fundo. Dessa narrativa, poderia se desenvolver as mais criativas e ousadas das ideias. Outros artistas, do mesmo nível do nova iorquino, já fizeram trabalhos com propostas parecidas e ocorreram de entregar músicas estupendas, então seria difícil não conseguir suprir com as expectativas e obter sucesso novamente, certo? Infelizmente, depois de ouvirmos tudo, se torna evidente que a resposta é um frio, seco e amargo “não”. GRIP fracassa em quase tudo que se propôs a fazer, decepcionando o público.

É admirável a investida do cantor num álbum que mostra a doçura dos agrados compartilhados entre homens pretos num relacionamento gay, de maneira tão simples e direta, como deveríamos está habituados a ver. Mas não estamos por conta de uma falta de visibilidade da convivência dessas pessoas dentro e fora da comunidade queer; que evidencia mais aqueles dentro das normas as quais a sociedade estabeleceu — pessoas brancas — do que aqueles que se estão distantes — pertencentes a grupos minoritários e, marginalizados. A representação de negros em obras midiáticas é imprescindível para a formação de um corpo social saudável: a compreensão dos cidadãos desse fato inquestionável vem gerando obras mais representativas e próximas à realidade, e, de modo consequente, trabalhos audiovisuais melhores e profundos no meio artístico. Pudemos ver isso em lançamentos marcantes como MONTERO, de Lil Nas X. No entanto, Josiah não conseguiu dar às suas canções sobre amor afrocentrado batidas que a fizessem uma boa companhia. Na produção de GRIP, Wise e seus colaboradores parecem apenas ter reutilizado moldes básicos do R&B contemporâneo, não conseguindo imbuir a sua sonoridade nenhuma camada de originalidade.

“Lucky Me”, penúltima faixa de GRIP, é idêntica a outros momentos de introspecção em outros trabalhos de R&B, como “Butterflies” da cantora Tyla, só que em uma versão completamente sem a graciosidade e magnificência da canção original. “Ellipsis” soa como um descarte requentado de algum álbum de Summer Walker, com uma batida genérica de trap e performance entediante, tanto do cantor quanto da outra vocalista, Orion Sun. E até quando se encontra em seu ápice sonoro, o disco ainda soa desinteressante, como é o caso de “Damn Gloves” e “Safe Word”. A primeira é uma inesperada colaboração com o rapper Ty Dolla $ign e Yanga YaYa, onde Josiah fala sobre amor usando uma analogia com a teatralidade, fazendo uma exaltação a feminilidade contemplada dentro da comunidade queer: “Hold you closer, closer than those damn gloves / Kiss you longer, longer than a opera / If we keep on dancin’ we gon’ make love”. A letra é fascinante, mas sem profundidade. A participação de Tyrone é completamente descartável. E, além disso, a produção não é devidamente desenvolvida, parecendo faltar certo refinamento para alcançar todo o seu potencial. Já a segunda música consegue ser mais competente, possuindo um refrão cativante, uma composição sólida e uma influência encantadora de flamenco.

Concluindo, termino dizendo que GRIP é extremamente aquém do talento de Josiah. Para alguém que há pouco tempo estava a cantar ao lado da Björk em alguns de seus trabalhos mais únicos e complexos, Fossora (2022) e Utopia (2017), seu álbum soa medíocre. Há esse ponto de sua carreira, esperava-se que conseguisse melhorar e amadurecer mais enquanto músico, mas, pelo visto, ele regrediu tanto que parece até um mero novato, ainda tentando achar o seu lugar no mundo. Torço para que ele se reencontre consigo mesmo e tudo aquilo que o fez uma personalidade tão singular na cena underground, pois quem ele representa e, principalmente, passou a representar a partir de sua música, precisa de sua permanência.

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