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Big Sigh

• Chrysalis

• 2024

8.4

Big Sigh é calmo e brando, assim como um bafejo.

Big Sigh

• Chrysalis

• 2024

8.4

Big Sigh é calmo e brando, assim como um bafejo.

PUBLICADO EM: 18/01/2024

PUBLICADO EM: 18/01/2024

A significação dos exercícios respiratórios consegue ser bem mais abrangente do que seus significados principais. Idealmente, inspirar seria apenas o ato de inserir ar nos pulmões e expirar seria o de expelir, ou seja, liberar. No entanto, há uma profundidade muito grande nessa atividade. Quando inspiramos e expiramos, tomamos do ambiente a força necessária para que consigamos ponderar as coisas e, finalmente, entramos em equilíbrio para, assim, terminarmos de realizar aquilo que ainda temos pendente. A respiração é um processo essencial para o ser humano, pois além de adquirir energia para o funcionamento das células do corpo, é o que nos faz retomar o controle sobre nós mesmos em momentos estressantes. E o reconhecimento da importância desses movimentos e sua realização foi o que tornou possível a confecção de Big Sigh para Marika Hackman, cantora e compositora inglesa.

Enquanto fazia Big Sigh, Marika inspirou e expirou o ar diversas vezes. Para Hackman, o desenvolvimento da obra foi um processo muito estressante. Ela teve de processar todos os acontecimentos que ocorreram no período em que estava comprometida com o seu antigo parceiro, compromisso esse marcado por momentos aflitivos, ainda quando tinha de lidar com a execução de toda a complexa metodologia de criação de música, que ia desde produção, composição a engenharia musical. De acordo com a mesma, este foi o maior problema que teve de solucionar em sua carreira, por conta de tudo o que o álbum representava. Este projeto é um ponto de virada na discografia da inglesa. Dessa vez, não estava tentando esconder nada. Muito pelo contrário, estava a mostrar tudo o que vinha sentindo nesses últimos tempos e explorar a vastidão de seus sentimentos, assim como uma criança investiga os arredores de um lugar desconhecido.

Conquanto a sua criação tenha sido muito estressante, Big Sigh é calmo e brando, assim como um bafejo. A sonoridade toma como rumo uma adjacente atípica do indie rock, moldada a partir da serenidade dos instrumentos de corda ouvidos no folk americano, porém com um foco maior na ambientação, remetendo bastante aos últimos trabalhos de Alex G. Marika e seus colaboradores aderem a melodia das canções camadas sucintas, mas palpáveis, de sintetizadores e violinos, e a percussão acentuada de guitarras, toques de bateria e trompetes, confeccionando canções grandiosas, cuja magnitude é encantadora. E sobre essa instrumentação majestosa, Hackman discorre habilmente sobre assuntos bastante pessoais de forma direta e honesta, estimulando a criação de familiaridade entre o público com o material.

A ansiedade de Marika inicialmente a fez se preocupar demais com a tradução de suas emoções nas letras escritas, no entanto, com o passar do tempo, a mesma percebeu que poderia se fazer sucinta em suas palavras e deixasse ser compreendida apenas pelas sensações provindas pelos instrumentais. Afinal, há coisas que você só entende quando as sente ou vivencia. E foi desse direcionamento criativo que Marika tornou Big Sigh mais introspectivo e tenro, tendo incluso canções como “The Ground” e “The Lonely House”, que fogem completamente de tudo o que ela fez em sua carreira ao não fazerem disposição de grandes composições em seu conteúdo. Na primeira, consecutivamente, a cantora apenas canta “Gold is on the ground / I was happy for a while” repetida vezes, enquanto um violoncelo, violinos e sintetizadores abrasivos nos absorvem para dentro da realidade remansada e reflexiva, e na segunda passagens de piano, que dão um ar dramático e cinematográfico para a obra.

Quebrando o intervalo de tempo de quatro anos desde o lançamento de seu último álbum, Any Human Friend, em 2019, Marika lançou “No Caffeine”, lead-single de Big Sigh, no ano passado. Na música, Hackman discorre sobre a “implacabilidade da ansiedade”, fazendo uma longa lista de afazeres, dos quais sempre acaba falhando em concluir, o que, por sua vez, acaba agravando a situação e a fazendo sentir mais e mais ansiosa. O fracasso da inglesa com a realização de seus objetivos mostra com clareza o estado mental daqueles que possuem com este transtorno, os cativando pelo reconhecimento de sua condição a partir da expressão da angústia. A produção da faixa é muito dramática e volumosa, possuindo violinos volumosos acompanhados por batidas abrasivas, cordas, notas de piano e entre outros instrumentos.

Depois, ouvimos a “Blood”, uma balada brutal sobre seu último relacionamento amoroso, na qual Marika lamenta por não conseguir se adequar aos padrões estabelecidos pelo parceiro, o desapontando diversas vezes por sua suposta incompetência. A cantora manteve a instrumentação desta canção em particular simples e direta, com grandes momentos de cantoria, procurando dar enfoque a letra e sua mensagem. Esta decisão, felizmente, prova-se ter sido adequada, pois gera uma quebra das orquestrações mirabolantes, dando dinamismo à obra. A canção seguinte, “Hanging”, dá certidão a esse julgamento. Nessa faixa, Hackman aumenta novamente o volume dos instrumentais, só que, dessa vez, a um nível estrondoso, para comunicar a gravidade do acontecimento representado nessa música, que seria o término entre ela e seu pretendente. Em seu subconsciente, a inglesa diz ser mais honesta consigo mesma e seus sentimentos, vivenciando experiências de quase-morte com seu pretendente, o que mostra que aquele laço que eles compartilham a está fazendo mal e precisa ser desatado: “Maybe I’m just brave when I’m asleep / I tell you how you kill me in my dreams”.

A medida que Hackman imerge nas profundezas de seus sentimentos, conseguimos apreciar a vastidão do talento da cantora em comunicar seus sentimentos pela música. A poesia escrita pela inglesa instiga o interesse do ouvinte pela variáveis de seu significado, dando liberdade para que possa a interpretar da forma que quiser e integrar as canções no seu próprio cotidiano como reflexo das dificuldades que passa em seu dia-a-dia. A faixa título de Big Sigh, por exemplo, possui passagens que facilmente podem dialogar com aqueles que possuem baixa autoestima em seu refrão cativante (“(I’ve been better) Dumb, I’m a fool / (I’ve been better) I don’t wanna fight it”), por mais que idealmente seja centrada no tema de fragilidade e recaídas com um ex-amante. São poucos aqueles que possuem tal qualidade em seus trabalhos, e a conquista desse feito faz do álbum ainda mais marcante e importante na carreira de Marika, pois firma um laço mais forte com o público do que seus antecessores.

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