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I Killed Your Dog

2023 •

Mexican Summer

9.3
Indo do rock psicodélico ao neo-soul, I Killed Your Dog explora os pensamentos mais íntimos e surreais de L’Rain — é um dos melhores e mais provocativos registros do ano.
L'Rain - I Killed Your Dog

I Killed Your Dog

2023 •

Mexican Summer

9.3
Indo do rock psicodélico ao neo-soul, I Killed Your Dog explora os pensamentos mais íntimos e surreais de L’Rain — é um dos melhores e mais provocativos registros do ano.
17/10/2023

Taja Cheek é uma paisagista musical. Em todos os três álbuns lançados por ela sob o nome artístico L’Rain, a cantora e experimentalista norte-americana construiu e continua a construir campos sonoros por meio de colagens únicas e inventivas que buscam desafiar o ouvinte e ressignificar os sentidos. I Killed Your Dog, seu novo disco, transporta conceitos comumente explorados pela música pop em direções tão instintivas quanto absurdas, mas igualmente cativantes e com uma vantagem: de uma espontaneidade genuína. É o seu trabalho mais visceral até hoje. 

L’Rain descreveu o álbum como um registro “anti-término”. Embora os temas românticos sirvam como o pontapé inicial das discussões propostas pelo disco, o seu olhar está voltado para a própria artista. I Killed Your Dog fala sobre um relacionamento intrapessoal, ancorado pela desordem cotidiana e sempre em busca de alguma forma de lucidez, mas incessantemente banhado por contradição e ironia. Isso fica bem claro na faixa-título, que, a priori, parece ter uma natureza vingativa, mas termina tomada pelo arrependimento. “I am your dog”, L’Rain canta no último verso, quando uma terrível percepção vem à tona: na tentativa de machucar alguém próximo, ela feriu a si mesma. No mesmo território, “Clumsy” lida com a auto-confiança, ou melhor, com a falta dela: “How do you trust the ground when it betrays you in ways you didn’t think imaginable? / How do you trust yourself when it feels like everything you do is bad for you?” — quando entre o chão e o teto não existe nada além da insegurança, em que confiar? 

Emocionalmente, muito de I Killed Your Dog vem de um lugar solitário e, de certo modo, sombrio, como é o caso de “Our Funeral”, faixa que abre o disco e lida com a desilusão de maneira quase melodramática. “End of days, are you ready?”, L’Rain indaga, antes de se mostrar perdida, sem futuro ou propósito. Na psicodélica “Pet Rock”, que segue, ela se compara a uma “garota morta com óculos escuros, apoiada em torturadores”, completamente alienada pelo sofrimento. Mas, ainda que ela abrace esse estado de melancolia, também existe uma vontade de acreditar em uma saída. O escapismo, introduzido em “Uncertainty Principle”, é o tema guia da segunda metade do álbum, quando L’Rain começa a enxergar significado em seus dilemas: “It’s a new day and I will believe in something / Maybe someday we will all believe in something / You’re convinced that in the dark there will be nothing / But to me, a little nothing’s got some something”, ela repete como um mantra. 

Por mais caótica que seja a narrativa existencialista levantada pelo registro, Taja mostra, novamente, um controle e assertividade gigantescos sob sua arte e musicalidade. Já no seu terceiro lançamento em seis anos, suas escolhas criativas ainda surpreendem, e ela continua a construir seu próprio espaço no cenário alternativo. Uma das discussões que também está em pauta nesse novo trabalho é a forma como o público enxerga sua expressão artística enquanto mulher negra. É comum ver pessoas colocando sua música na caixinha “jazz-soul-R&B” quando, na verdade, seu som é essencialmente inspirado no rock, no folk e na psicodelia, e I Killed Your Dog também se trata de reconquistar e remodelar esses gêneros que, ao longo das décadas, foram sendo “branqueados”. Aqui, eles não só fazem parte da história, como são levados ao máximo do experimentalismo com maestria. 

I Killed Your Dog é um dos álbuns mais interessantes, progressivos, imersivos e provocativos do ano. Um registro que encara o existencialismo por lentes psicodélicas e encontra, na introspecção, uma força expressiva que irradia criatividade e ousadia até mesmo nos interlúdios. L’Rain é uma artista que se distancia do convencional e é bem sucedida porque tem certeza de suas escolhas, e este disco explora o melhor delas.

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