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Gentle Confrontation

• Hyperdub

• 2023

8.3

Gentle Confrontation, de Loraine James, exemplifica perfeitamente o bem causado pela forte incidência da modernidade na sociedade atual.

Gentle Confrontation

• Hyperdub

• 2023

8.3

Gentle Confrontation, de Loraine James, exemplifica perfeitamente o bem causado pela forte incidência da modernidade na sociedade atual.

PUBLICADO EM: 12/10/2023

PUBLICADO EM: 12/10/2023

Quanto mais o tempo passa, maiores e mais agravantes se tornam as implicações da tecnologia em nossa sociedade. A otimização da captação de informações dos nossos dispositivos eletrônicos para níveis internacionais, que outrora tinha-se como uma evolução inalcançável para a humanidade, atualmente é uma realidade na qual o mundo está tão adaptado que o mesmo sequer conseguiria existir em sua ausência. Hoje em dia, caso você esteja precisando de um transporte, basta alguns toques imprimidos na tela do seu celular e pronto! Um motorista se encontrará de prontidão para lhe transportar até o seu destino na frente de sua residência em cerca de dois a três minutos. Assim como observado, as invenções dos seres humanos sempre tiveram como princípio fornecer praticidade, satisfação e conforto às suas vidas. Há certas ocasiões nas quais tal subterfúgio fora violado ou distorcido em favor dos desejos perversos das pessoas, como no caso da criação das armas de fogo, por exemplo. Entretanto, este pretexto continua escrito nas entrelinhas de cada nova invenção científica, e dentre estas se encontra o instrumento musical mais inventivo e acessível de todos os tempos: o computador.

Após a criação do primeiro protótipo de computador por George Stibitz em 1937, e dada procedência ao desenvolvimento de versões sucessoras mais desenvolvidas e melhores executadas deste aparelho, tal dispositivo ganhou uma utilidade de importância e influência imprescindíveis para os músicos, mais especificamente os produtores musicais. A partir da infinita diversidade de funções encontradas nessa inteligência, estes profissionais passaram a possuir um meio mais rápido, prático e acessível para expressar suas ideias e emoções. Não é como se eu estivesse querendo dizer que os mesmos descobriram na tecnologia um grande “facilitador” para a geração de sua arte. Longe disso, a engenhosidade dessa modernização é gigantesca. É uma tarefa extremamente difícil conseguir dominá-lo plenamente ao ponto de tornar o seu uso algo simples ou descomplicado. O que estou querendo comunicar é que, depois de tal inovação no âmbito artístico, as pessoas passaram a possuir uma proximidade maior com a música e, agora, podem exprimir os seus sentimentos da maneira mais bruta e honesta possível, como é o caso da brilhante produtora britânica Loraine James, cujo mais recente lançamento, Gentle Confrontation, exemplifica perfeitamente isso.

Gentle Confrontation, quinto álbum de estúdio de Loraine James, de acordo com a própria, é o resultado final da instituição de ordem e prosseguimento às músicas que criou durante suas sessões de gravação no estúdio, nas quais deixou correr livremente todas as emoções conflitantes sentidas por ela acerca do seu passado e imprimiu suas influências no R&B contemporâneo ao lado das melodias de sua sonoridade caracteristicamente IDM e glitch hop progressivo. É um disco muito experimental e, ao mesmo tempo, único; originado de uma viagem da musicista até os lugares mais íntimos de si mesma. O primeiro ponto turístico da sua história, no qual Loraine se dispõe a nos levar, é o fatídico momento em que ela perdeu o seu pai, em “2003”. Inicialmente, James canta: “When I was seven, my dad went to Heaven, possibly / I looked at the sky, uncertainty / It hurt me, uncertainty”. James descreve toda a confusão que sentiu, enquanto apenas uma criança, por meio do trabalho dos diferentes empregos da palavra “certeza”, como mostrado no refrão da faixa: “It hurt me, uncertainty / It hurt me, certainty / It hurt me, uncertainty / It hurt me, uncertain”. Depois, no segundo verso, a produtora ainda homenageia sua mãe, dizendo que a mesma a protegeu e cuidou dela mesmo estando completamente despedaçada por dentro. Na produção da faixa, a mesma desenvolve a ideia de incerteza e confusão trazidas na letra, com  uma sonoridade instigante de eletrônico progressivo e ambiente, em que há a incidência de notas musicais computacionais de caráter oscilante e a impressão de diferentes texturas e nuances para a criação de uma atmosfera intimista.

Em seguida, Loraine desdobra a inconstância palatável da produção de “2003” na cadência deleitosa das batidas de UK bass de “Let U Go”. Nesta faixa, James nos leva para um ponto no tempo mais próximo do seu presente, sendo este referente a uma desilusão amorosa sofrida pela musicista. De forma exemplar, a compositora destrincha toda a complexidade das suas emoções e da situação na qual se encontrou anteriormente numa letra bastante concisa e consciente, falando sobre como ela tem que deixar tal pessoa ir embora e seguir em frente com a sua vida. Falando assim, pode até parecer se tratar de uma letra simplória sobre término de relacionamento, porém, lendo na íntegra, se descobre que este não é o caso — como mostrado no incrível trecho: “I pick up my heart and attempt to look inside / It won’t come apart despite how I try / I’m eager to discover the secret of my mind”.

Depois, ouvimos a formidável colaboração entre Loraine e RiTchie — um dos membros do antigo grupo Injury Reserve e do recentemente inaugurado By Storm —, “Déjà Vu”. Nesta parceria, James dispõe-se de possuir quaisquer participação nos vocais e permite que os holofotes sejam apontados unicamente para o seu colaborador, atuando apenas nos bastidores. A excelência da performance vocal do rapper se destaca bastante na faixa, com versos longos que se estendem do início até quase a metade da canção, entretanto, também é necessário apontar a sublimidade da produção experimental entregue pela produtora, cuja sonoridade resgata algumas ideias estruturais da inconstância de “2003”, a energia vibrante de “Let U Go”, e também alguns elementos sonoros típicos da música eletrônica progressista e do drill and bass.

Mais adiante, ouvimos “I DM U”, uma estupenda faixa instrumental que consta com uma das produções mais épicas já feitas por Loraine. Nessa canção, James mistura incrivelmente a percussão e batidas da bateria, as texturas e nuances sonoras do gênero glitch hop e a atmosfera tenra e introspectiva do ambient e produz uma solução sensacional e muito satisfatória. Também escutamos outras músicas estupendas, como “Speechless”, colaboração com a cantora George Riley, cuja sonoridade concentra o maior peso da influência de James no R&B contemporâneo, se assemelhando bastante aos trabalhos de Kelela e, até mesmo, Ravyn Lenae — graças ao timbre vocal leviano de Riley —, “Disjointed (Feeling Like a Kid Again)”, que remete um pouco à discografia de Skrillex, “I’m Trying To Love Myself”, e, finalmente, “Saying Goodbye” com Contour.

Por mais que, num geral, Gentle Confrontation seja um álbum muito bom, fluído e consistente, eu diria que a falta de um impulsionamento na segunda metade do álbum, ou alguma virada de chave que quebrasse a monotonia de certas produções, o deixa um pouco previsível demais. Contudo, tal falha não é tamanha ao ponto de diminuir consideravelmente a satisfação sentida pelo ouvinte ao terminar de ouvi-lo. Afinal, assim como dito anteriormente, o disco é muito bom. As batidas de UK bass e drill and bass, neste projeto, diferentemente dos ouvidos aos montes na cena mainstream ultimamente, soam genuinamente interessantes e bem construídas — graças à implementação do glitch hop e da música eletrônica progressiva —, e os colaboradores trazidos por James (como o RiTchie ou a George Riley) enriquecem muito suas respectivas canções com performances vocais perspicazes e excelentes.

Ao terminar de ouvir o novo álbum de Loraine James, observar o longo caminho que a música caminhou durante todas essas décadas, analisar todas as mudanças ocorridas em sua constituição e o futuro à nossa frente, um sentimento genuíno de satisfação preenche o meu peito. Nunca na história da humanidade tantas pessoas se conectaram tanto com a arte quanto no momento atual. É verdade que há vários problemas envolvendo a tecnologia e diversos malefícios que o seu uso está trazendo para a nossa sociedade, porém é um fato incontestável o quão benéfico é a proximidade que a mesma trouxe entre o consumidor e o produto. Mais do que apenas uma maior facilidade na obtenção de um Item estimado, a modernidade e suas inovações conseguiram conectar mais fortemente as pessoas à arte e umas às outras. E vários frutos saborosos estão sendo provindos dessa inestimável conexão, como o próprio Gentle Confrontation, que nunca poderia ter sido feito caso não houvesse a incidência do modernismo no nosso dia-a-dia. Enfim, que esta fique como aprendizado: tudo tem o seu lado ruim e o seu lado bom, ambos não devem ser ignorados, mas o segundo sempre tem de ser o mais destacado.

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