SOUNDX

What Happened To The Beach?

2024 •

Columbia

7.4
What Happened to the Beach? é diferente de tudo o que Declan já fez.
Declan McKenna What Happened To The Beach

What Happened To The Beach?

2024 •

Columbia

7.4
What Happened to the Beach? é diferente de tudo o que Declan já fez.
13/02/2024

“What happened to the beach?”, é o primeiro verso que ouvimos Dylan cantar quando tocamos o seu novo álbum, What Happened to the Beach?, porém, eu acredito que a pergunta em si não seja referente a alguma praia, e sim ao próprio cantor. O que aconteceu com ele? Ou melhor, o que aconteceu com o glamour do glam rock que continha em suas produções?

O disco é muito diferente de tudo o que já havia feito até então, e o próprio Dylan chegou a admitir isso. Em entrevista para a revista NME, logo após lançar o lead-single do álbum, “Sympathy”, o inglês diz ter se distanciado o máximo que pôde da sonoridade de seus outros discos, Zeros, de 2020, e What Do You Think About The Car?, de 2017. Se no passado cantava canções mais voltadas para o glam rock e indie rock, hoje em dia apenas canta sobre o ritmo entusiasmante do indie pop, com um verniz psicodélico e uma pitada de indietronica. Para McKenna, o processo de desenvolvimento deste projeto lhe pareceu mais natural e orgânico do que nos outros. Ele ficou menos absorto em grandes números de ideias, estando mais focado em desfrutar os sabores dos momentos que estava vivenciando. Ora junto de seus colegas, ora sozinho com seu computador, se divertiu enquanto escrevia sobre os sons e batidas diferenciadas, geradas por pura espontaneidade e descontração. Nesse sentido, o músico até lembrou artistas mais famosos, como Harry Styles, porém, em uma versão melhor e mais interessante, por conta de sua personalidade única e rebuscada e maior domínio dos gêneros.

Em What Happened to the Beach?, o cantor inglês se desvinculou dos nexos interdimensionais que alinhou nos seus álbuns passados para realizar uma obra que exprimisse as boas sensações que sentiu nos últimos tempos, enquanto explorava Los Angeles e aproveitava o aconchego da casa de seus pais em Enfield. Dessa forma, dando fundamento a ideias subjacentes, como a de uma dupla dinâmica do mundo do crime na psicodélica “Mulholland’s Dinner and Wine”, e também as reflexões impertinentes, como a descredibilização das fontes dos canais de notícia pelo público, por sua descrença na veracidade dos fatos elaborados por perspectivas de mundo diferentes das deles, na “I Write The News”, uma canção de folk delirante, com um tom ácido e acordes inóspitos de violão e sintetizadores. O que, por sua vez, levou ao melhor desenvolvimento dos temas discorridos por McKenna e um disco mais consciente e interessante, no entanto, menos atraente, visto que a tomada de um direcionamento divergente levou ao trabalho de idealizações confusas. “WOOBLE”, música que Declan diz ser a sua favorita dentre todas, soa esquisita e desconcertante. O contraste entre as batidas e os adereços sonoros, como o baixo e a percussão, gera uma estranheza difícil de ser ignorada. E a própria ponderação que fez sobre a descrença das pessoas umas às outras, “I Write The News”, também é muito estrambólica, por conta de sua estrutura destrambelhada e a desarmonia dos vocais de apoio.

Contudo, a confusão gerada rapidamente é resolvida pelas próximas faixas, cujos instrumentais conseguem trabalhar em concordância e gera momentos proveitosos, como “Sympathy”, com sua produção alto astral de indie pop e ragtime, “Mulholland’s Dinner and Wine”, seu refrão cativante e suas influências no funk-pop e neo-psychedelia, “Breath Of Light” e as duas melhores canções do disco, “Nothing Works” e “The Phantom Buzz (Kicks In)”. Na primeira, consecutivamente, McKenna canta sobre sua frustração em não conseguir agradar os outros — que, neste caso, seria a sua gravadora —, porém de forma bastante descontraída, com guitarras, bateria e palmas ao fundo: “Whеn I sing the song and you didn’t like the vеrse / I try to fix myself but nothing works”. A sonoridade da música soa como um resgate bem sucedido do entusiasmo do rock britânico de antigamente, de tal forma a soar pouco original, porém, muito divertida e nostálgica para que esse detalhe consiga fazer algum mal. E na segunda, Dylan se mostra vulnerável ao falar sobre suas experiências enquanto um fumante inveterado, com a manifestação de sua natureza explosiva e impetuosa e uma performance fervorosa do cantor.

Adiante, McKenna aumenta mais e mais a incidência da psicodelia no disco, de modo a deixar de ser apenas um verniz, ou apenas um gênero adjacente, e se tornar um dos aspectos mais agravantes, cuja compreensão é imprescindível para o entendimento da obra como um todo. Esse aumento fez com que as últimas canções do disco desacelerassem um pouco o ritmo e desenvolvessem uma argúcia. Ao fundo podemos ouvir, mais detalhadamente, os sintetizadores, crescendo e se tornando abrasivos, os xilofones se apresentando graciosamente e as melodias maravilhosas da farfisa — uma espécie de piano eletrônico cujas notas são mais suaves. Espontaneamente, Dylan começa a cantar sobre amor na apaixonante “Honest Test”, em que declara-se para sua pretendente, dizendo que vive por ela, e “Mezzanine”, onde fantasia se encontrando e tendo relações palpitantes com sua querida no mezanino da sala: “And catch me somewhere no one else can be / You want to catch me in your mezzanine”. Nesse ponto, o músico inglês chega a lembrar a banda Tame Impala e seu álbum mais recente, The Slow Rush, de 2020.

Por mais que tenha sido muito diferente do que tínhamos imaginado que seria, tendo em vista como foram os seus últimos álbuns, What Happened to the Beach? não decepciona nem um pouco. Há sim algumas situações em que tenha soado meio esquisito e desorientado, como em “WOOBLE” e “I Write The News”, porém, como já havia discutido, se recupera rapidamente. “Nothing Works” e “The Phantom Buzz (Kicks In)” são duas das melhores canções já lançadas pelo cantor, e, juntamente dessas, “Mezzanine” e “Honest Test” marcam os seus melhores momentos musicalmente falando. Num futuro próximo, consigo imaginar ele aperfeiçoando mais esse estilo e se consagrando nesses gêneros. A voz do cantor, e sua personalidade, parecem ter nascido para o neo-psychedelia e rock. Porém, seria interessante que ele não abandonasse completamente o glam rock e o indie rock, que tanto marcam o início de sua carreira. Um projeto que conseguisse equilibrar com firmeza essas duas facetas de sua discografia seria perfeito, mas eu acho que ainda irá demorar um pouco até que isso finalmente aconteça.

Esse e qualquer outro texto publicado em nosso site tem os direitos autorais reservados. 

FIQUE ATUALIZADO COM NOSSAS PUBLICAções

Assine nossa newsletter e receba nossas novas publicações em seu e-mail.

MAIS DE

plugins premium WordPress