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What Now

2024 •

Island

9.0
What Now se exemplifica como uma obra primorosa do início ao fim.
brittany Howard - What Now

What Now

2024 •

Island

9.0
What Now se exemplifica como uma obra primorosa do início ao fim.
15/02/2024

No seu primeiro disco, Jaime, Howard nos mostrava a sua interpretação única do amor, da religião e da família, através dos arranjos arrojados das guitarras, pianos e bateria, que remontam as versões mais instigantes e surpreendentes do soul contemporâneo. Em seu segundo, lançado recentemente, What Now, ela procede a partir dessas mesmas narrativas, só que com um foco maior em sua vida amorosa e soando menos abstrata; sendo mais concreta com a forma como trabalha a própria sonoridade. Não há nenhum momento do qual ela faça interrupções ou implementações com gravações de voz, como fez anteriormente. E, também, ela deixou-se levar mais pela psicodelia, fazendo com que esse verniz ganhasse mais volume e passasse a englobar mais densamente todo o universo da obra. A incidência dessa camada aumenta o som produzido pelos estrondosos instrumentais e deixa suas ondas divagarem pelo ambiente, ajudando a compor uma produção detalhada e formosa.

Em “Earth Sign”, o álbum inicia-se do silêncio, para depois trazer à tona batidas fervorosas de bateria, acompanhadas de um piano, que dá um tom dramático e preenche o espaço. Na letra, a cantora se questiona se será capaz de reconhecer o sentimento do amor quando finalmente o sentir novamente, depois de ter passado tanto tempo sofrendo num relacionamento angustiante. A voz majestosa de Brittany toma a dianteira da produção e a conduz até seu ápice, para, então, subitamente, encerrar e começar “I Don’t”, segunda faixa do disco. Nesta canção, Howard está de luto pela felicidade dos bons momentos que não pode voltar a experienciar. Ela se pergunta se alguém ainda se lembra como é sorrir, rir a noite toda e, em seguida, responde que não consegue, o que a entristece profundamente. A música parece fazer paralelo a “Stay High”, de seu álbum anterior, cuja composição falava sobre querer permanecer eternamente num episódio tranquilo de sua vida, curtindo juntamente de parentes e amigos queridos.

 Em seguida, começamos finalmente a adentrar nos eventos terríveis que deram decorrência ao término de Brittany com sua antiga parceira. Em “What Now”, ela diz desejar se libertar desse relacionamento conturbado, chegando até a aceitar ter toda a culpa dos problemas que criaram ser jogada nela, portanto que tudo aquilo acabasse de uma vez: “If you want someone to hate, then blame it on me / Blame it on me”. Nesta guerra que ambas estão travando, Howard quem estende a bandeira branca, se rendendo às forças de sua adversária. A produção da faixa é bem movimentada, com uma batida contínua e pesada de bateria ao fundo, junto de alguns acordes de baixo e notas de teclado, o que ajuda a estabelecer essa paisagem distópica, na qual estaria havendo o confronto entre as duas. Depois que a batalha se encerra, damos início a “Red Flags”, onde ouvimos a cantora falar sobre como deixou passar todos os “alertas vermelhos”, caindo nessa relação desarmônica. Nesta canção, a musicista canta de forma primorosa, nos arrebatando num refrão ardente: “Don’t let it die / Don’t say that it’s only love”. Um detalhe curioso, no entanto, é que em meio a uma crescente arrebatadora, ocorre uma pausa inesperada para, logo após, haver novamente uma tremenda ascensão e tudo terminar em impetuosidade.

 Adiante, encontramos Brittany em seu momento mais divertido e audaz de toda a sua carreira até então, na dançante “Prove It To You”, uma surpreendente canção de electro-house e dance-pop. Por mais que esteja num território que para ela seja desconhecido, os vocais de Howard, altamente influenciados pelo soul, conseguem se adaptar facilmente. A performance da cantora é magistral. Ela soa como uma verdadeira ícone dos anos 80, cujas músicas dominavam as pistas de dança. Na letra, ela discorre sobre as complexidades de sua relação tortuosa. Tudo o que ela quer fazer, naquele momento, é se provar digna do amor de sua amada: “All I wanna do is prove it to you / All I wanna do is prove it to you”. A guitarra, que acompanha a batida, durante os versos e, principalmente, o refrão, dão um toque perspicaz à faixa, ajudando a emoldurar esse ponto da obra como sendo o seu ápice, mesmo que se diferencie demais do restante.

 Caminhando em direção ao seu fim, podemos ouvir outras canções espetaculares. “Patience” nos encanta com sua batida suave de psychedelic soul e reggae, e nos admira com sua letra adorável sobre tentar se segurar para não apressar demais a formação de um novo relacionamento e, assim, acabar estragando tudo novamente. “Power To Undo” faz um resgate às memórias entristecedoras do relacionamento passado de Brittany, nesta canção, no entanto, ela não retorna a eles por saudade ou apego, retorna para dá um ponto final naquela história e seguir em frente. Na faixa, ela enfrenta sua ex manipuladora, falando que por mais que tivesse dado o poder para conseguir manipular suas emoções, não possui mais nenhum direito sobre Howard. A cantora finalmente se liberta de suas amarras. E, em conclusão, escutamos “Every Color In Blue’’. Na música que encerra seu segundo álbum, a cantora expressa a alegria que sente por finalmente estar livre e feliz. Batidas ligeiras acompanham acordes levianos do baixo e a crescente dos trompetes e montam, juntos, uma melodia magnífica, da qual a voz da artista coordena com sua força estrondosa. E, dessa forma, tudo termina, com ela desbravando um arco-íris de emoções: “Eviscerates me / Too raw / Tuned out / And I can’t believe I’m all out of rainbows”.

What Now se exemplifica como uma obra primorosa do início ao fim. Ao longo de todo o percurso seguido, Brittany faz com que experienciemos vários sentimentos. Raiva, tristeza, alegria… Podemos sentir tudo isso; tudo o que Howard sentiu durante essa etapa difícil de sua vida. Sua performance é espetaculosa. A voz da cantora facilmente passa por nossas barreiras, nos atingindo nos lugares mais vulneráveis. Esta é uma habilidade rara dentre os artistas de hoje em dia. É muito fácil aprender a cantar bem, no entanto, é difícil estabelecer, por intermédio destes dotes, uma ligação com o ouvinte e o fazer se sentir ouvido nas letras. Por isso, considero seu talento de valor inestimável para a indústria. E, além disso, a produção do álbum é extraordinária, conseguindo tecer melodias esplêndidas e criar uma instrumentação sólida e diversa, com uso de diversos instrumentos, desde teclados, pianos até saxofones e trompetes. Com certeza, este lançamento se destaca como um dos melhores do ano.

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