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Nó Na Orelha

2011 •

Oloko Records

10
Representando a vida urbana, Nó Na Orelha, de 2011, é a materialização musical das lutas de classe brasileira e, devida maestria produtiva, é um divisor de águas na MPB contemporânea.
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Nó Na Orelha

2011 •

Oloko Records

10
Representando a vida urbana, Nó Na Orelha, de 2011, é a materialização musical das lutas de classe brasileira e, devida maestria produtiva, é um divisor de águas na MPB contemporânea.
05/03/2023

Lançado em 2011, Nó Na Orelha, como já indicado no título, foi um puxão de orelha, uma bronca de um pai bravo, porém amoroso, um estopim filosófico aos ouvidos, uma verdade ácida, porém necessária. Resumidamente, foi a concretização do potencial da poesia e do que ela pode revolucionar. Não é à toa que hoje o disco é considerado uma obra-prima da música brasileira contemporânea, com uma produção que, apesar de buscar raízes na cultura sedimentar nacional, criou movimentos para além do velho e conservador, fazendo surgir pensamentos que atingiram não só o público-alvo, mas toda uma massa de ouvintes atentos ao cenário do rap. Criolo é, não só em Nó Na Orelha, mas em toda a sua rica discografia, um observador aguçado da desigualdade brasileira e foi nesta obra que sua assinatura foi criada: mesmo trazendo temas abordados há décadas na música urbana, Criolo temperou sua musicalidade com uma sonoridade culturalmente específica, inspirada no samba, na MPB e em outros subgêneros da música contemporânea nacional, dando vida a algo que rompe as barreiras da indústria fonográfica para a cultura de modo mais geral. Em resumo, a obra se torna nossa (dos brasileiros) pois é a expressão artística pura, serena, melancólica e, às vezes, raivosa das dores sofridas por um povo historicamente forçado a sofrer.

Nó Na Orelha se inicia com “Bogotá”, onde o tráfico e a desigualdade são temas centrais e que têm como fruto a violência e a opressão nas periferias. Apesar do tema ácido, a melodia é vibrante e utiliza de instrumentos de metal para seus períodos de excitação musical. Fica claro que o eu-lírico tem dois alvos, o proletariado e a burguesia. Para os trabalhadores, “Bogotá” além de expressar sua realidade e cutucar feridas que, até mesmo, as pessoas mais politizadas deixam passar batido, Criolo cria, em forma de cantigas antigas de samba raiz, o cenário da percepção de uma realidade doída mas que, para ser mudada, precisa ser vista. Para a elite burguesa, que detém o lucro máximo com o tráfico, ‘Bogotá’ é o início de uma denúncia contra seu papel na perpetuação das injustiças nas periferias.

Em sua época de lançamento, “Subirusdoistiozin” foi criticada por romantizar o crime organizado — quem assim a criticou, errou. A segunda faixa do disco descreve a realidade violenta vivenciada pelas comunidades mais pobres, como uma fotografia de cena, e ganha importância documental. A linguagem utilizada é proveniente do mundo do crime organizado, de fato, porém fica óbvio com alguns versos que a intenção foi, além de conscientizar, denunciar a desigualdade na Justiça brasileira e a hipocrisia cometida pelos próprios traficantes, que, em alguns casos, se apresentam como justiceiros contra a as injustiças socioeconômicas. “Feio é arrastar e nem perceber”, citada por Criolo na canção, pode significar tanto o modo de propagação do uso de drogas, que, geralmente, é por recomendação de “amigos”, como também o recrutamento de crianças por parte do tráfico, que, devido à necessidade financeira de pertencimento ou à grave insegurança alimentar e falta de apoio familiar e social, acabam entrando no mundo criminoso. Nos últimos segundos, com teor revoltante e rebelde, Criolo deixa claro os reais inimigos: “Acostumado com sucrilhos no prato, né, moleque? / Falar o quê? / Enquanto o colarinho branco dá o golpe no Estado”.

Após duas faixas com significados mais políticos, “Não Existe Amor em SP” chega para evidenciar a humanidade de uma sociedade. Apesar de simples em sua produção, contém tanta poesia, elementos culturais e filosóficos que ficaria difícil mencioná-los num só parágrafo. Foi com essa música que Criolo se consagrou com o público mais jovem, fazendo então da balada melódica o maior sucesso do disco. Retratando a solidão em cidades lotadas, Criolo não está somente denunciando a depressão de uma população em uma época específica, mas sim, com muito sentimento envolvido, refletindo sobre como o sistema capitalista, com sua filosofia individualista, competitiva e assassina, desumaniza uma população que, desesperadamente, clama por felicidade. Já no final da música, Criolo bradea: “Não precisa morrer pra ver Deus / Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você / Encontro duas nuvens / Em cada escombro, em cada esquina / Me dê um gole de vida”, e fica clara a mensagem que tem como alvo a inocente alma que acredita na glória e justiça vinda após sua morte, que decapita uma vida sofrida, com pingos de humanidade em um mar cheio de sofrimento.

Não podendo ser diferente, “Mariô”, faixa que dá sequência ao álbum, é uma canção raivosa. Levando em consideração a sequência das faixas, é possível interpretar como o grito de raiva após um choro melancólico e sofrido. Apesar da composição bem elaborada, reflexiva e bem estruturada, são os instrumentos musicais que ganham destaque, trazendo africanidade — e logo, brasilidade — à canção. O uso extravagante da produção continua com “Freguês da Meia Noite”, uma composição com duplo sentido que evidencia dois possíveis tipos de negócio: não sabemos se a canção fala de prostituição ou tráfico de drogas, visto que, em ambas as situações, os versos se encaixam perfeitamente. Os violinos trazem tristeza, a percussão uma sensualidade enigmática e os versos humanizam uma terceira pessoa, que não é mencionada pelo nome, mas deixa clara a sua difícil busca por felicidade.

A frase “The grajauex, duas laje é triplex / no morro os moleques, o valor” é o refrão de “Grajauex”, a sexta faixa do disco. Nessa gravação, Criolo também aborda temas como a desigualdade, a fome e a corrupção, utilizando ainda mais a linguagem periférica. “Grajauex” é um clássico do hip-hop, mais evidente até do que as outras faixas que apresentam mais elementos da MPB. A faixa subsequente, “Samba Sambei”, tem como objetivo intensificar a mensagem de que a música cura as dores humanas, utilizando elementos do reggae.

As três últimas faixas, “Sucrilhos”, “Lion Man” e “Linha de Frente”, possuem um papel fundamental na mensagem do álbum como uma obra completa, pois evidenciam os alvos do Nó Na Orelha. Em “Sucrilhos”, obviamente a mensagem é para o público-alvo,, ou seja, para toda a população brasileira, especificamente, aqueles que se consideram mais politizados e engajados. Resumidamente, é uma crítica à própria esquerda, que, muitas vezes, se afasta da realidade das desigualdades no país e adota um discurso liberal. O verso “Cientista social, Casas Bahia e tragédia, gosta de favelado mais que Nutella” teve grande repercussão para além dos fãs de Criolo. Em “Lion Man”, a música mais forte e revoltante, Criolo utiliza poesia e instrumental para criar um sentimento único de revolta e o objetivo é tocar a população, utilizando emoção e ação para criar movimentos que possam mudar o presente. Podendo ser traduzida como um hino revolucionário, a canção declara guerra à realeza, que se traduz na burguesia. Já em “Linha de Frente”, um samba animado que utiliza personagens da Turma da Mônica para explicar o tráfico de drogas, é criticada a adesão de crianças e adolescentes ao mundo do crime. A composição lírica ressalta como é importante que a população brasileira se una em uma luta contra a desigualdade.

De fato, Nó Na Orelha é um registro fantástico e necessário. Apesar das dores brasileiras serem facilmente percebidas devido à sua gravidade e evidência, foi com esse disco que Criolo conseguiu capturar as emoções específicas e necessárias para movimentos de entendimento de um povo sobre sua situação e vivência. O poder da obra está, além de sua qualidade, em seu acerto indiscutível: tocou quem tinha que ser tocado. Os sentimentos causados, as palavras usadas, os instrumentos tocados e as inspirações aproveitadas são, resumidamente, as vivências de uma nação e, portanto, facilmente absorvidos e aceitos por estes. É por esse motivo que considero Nó Na Orelha o LP mais importante da MPB contemporânea, pois além de se conectar com gêneros dominantes na atualidade, como o hip hop, oferece a reflexão necessária para entendermos que a guerra de classes no Brasil não acabou com a abolição da escravidão e está longe de acabar. As palavras doem, de fato, mas o que esperar de um nó na orelha?

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