Screen Violence
2021 • POP/ALTERNATIVO • GLASSNOTE
POR LEONARDO FREDERICO; 01 de SETEMBRO de 2021
7.4

Atualmente, as telas possuem um papel indispensável nas nossas vidas. Desde o entretenimento, até questões médicas, como pedido de socorro ou agendamento de consultas, tudo é realizado por ou através de telas. Contudo, ao mesmo passo que elas trouxeram facilidade e rapidez para coisas que levariam horas ou dias para serem realizadas, há outro lado obscuro sobre elas, como ser stalkeado, sofrer com padrões de beleza irreais e de vidas totalmente idealizadas. É um mal constante que está longe de acabar em mundo agudamente dependente do mundo digital. Tomando essa narrativa, o quarto disco da banda escocesa CHVRCHES, Screen Violence, foi definido em um pronunciamento deles como “um aprofundamento da violência nas telas em três formas principais: na tela, das telas e através das telas”. É o melhor trabalho deles até então. 

Screen Violence foi produzido durante a quarentena da pandemia da COVID-19, o que fortaleceu a questão das telas para a formulação do álbum. “Para mim, o aspecto da tela era um pouco mais literal. Quando estávamos gravando, era como se metade de nossas vidas fossem vividas através das telas”, disse Martin Doherty para o NME. Logo, Screen Violence narra, por tendências sonoras sintéticas dos anos 1980, todos os tipos de histórias de violência, medo, angústia e terror que se concretizaram nos últimos tempos, ou, então, que seguem um modelo mais antigo, mas foram transportadas para os dias de hoje. Apesar de não ser um projeto propriamente ambicioso que negue algum padrão pressuposto, é um disco que trabalha da melhor forma com o que há de mais sofisticado e afiado nos padrões do alternativo e synthpop atuais. 

Uma das maiores características do álbum são as influências dos anos 80 que estão presentes na composição e na produção de Screen Violence. Ao longo de todo o disco, a banda concretiza um cenário visualmente perfeito para um filme slasher qualquer de 40 anos atrás, ou um videoclipe para uma música de academia futurista. Na abertura “Asking for a Friend”, sintetizadores ressoam direto de um visual atmosférico luzente, tornando se uma faixa dançante que tem, ironicamente, uma letra dolorosamente triste. “But if I can’t let go, will you carry me home? / Can we celebrate the end? I’m asking for a friend”, ela canta. Esse ambiente oitentista tem marca também na composição, sendo “Final Girl” o melhor exemplo, carregando uma relação entre o arquétipo da última garota a morrer de filmes de terror da década de 1980 com a experiência de ser uma mulher nos dias de hoje. “In the final cut / In the final scene / There’s a final girl / And you know that she should be screaming”, ela canta.

Mas, ainda que Screen Violence se oriente em torno dessa pegada voltada para as tendências dos anos 1980, o disco ainda consegue entregar uma variedade sonora impressionante, partindo de uma sonoridade norteada para um futuro eletrônico ou para as bandas de garagem amadoras do início dos anos 2000. Olhe, por exemplo, para o contraste entre “He Said She Said” e “How Not to Drown”: enquanto a primeira soa como um hit orgânico digno de uma produção coordenada por Charli XCX, a segunda voa para duas décadas atrás, ecoando como uma canção de uma banda alternativa de rock que está fazendo seus primeiros sons na garagem dos pais. Ademais, a diferença de intensidade pode ser sentido através do álbum, com “California” sendo uma das faixas mais calmas, com cordas e baterias espaçadas em reverbs, e “Nightmares”, uma das mais violentas, com solos agressivos de guitarras e batidas grossas de percussões. O mais incrível disso, contudo, é como a banda fez essas diferenças, contrastes e antíteses funcionarem e não parecerem dissonantes em momento algum. 

Todavia, a melhor faixa de Screen Violence é “Good Girls”. Ordenada por sintetizadores simples, a faixa começa com samples de vozes digitais que somem rapidamente  no meio de batidas de snares e kicks. Com uma construção e progressão perfeita, composta por eletrônicos, a faixa dilui no refrão, quando ela conclui sua quebra com os padrões impostos sobre as mulheres na sociedade. “Good girls don’t cry / And good girls don’t lie / And good girls justify / But I don’t”, ela canta. Por fim, por mais que todo o cenário que CHVRCHES pinte não seja tão real, e o mundo ainda esteja um pouco longe desse estágio, Screen Violence pode se tornar uma visão precoce de um futuro negativo.