CRASH
2022 • POP • ATLANTIC
POR GERSON MONTEIRO; 26 de MARÇO de 2022
8.5
MELHOR LANÇAMENTO

Charli XCX é um dos nomes de maior referência quando falamos sobre o futuro da música pop. A artista tem um percurso de carreira bastante interessante: desde a sua ascensão a cantora underground, a sua rápida elevação à fama como estrela pop, até uma das pioneiras do movimento PC Music, mais conhecido como hyperpop. No seu novo projeto, a cantora redescobre as suas origens e, ao mesmo tempo, explora novas nuances do que significa ser uma “main pop girl”.

CRASH é o quinto álbum oficial da cantora e o seu último com a Atlantic Records. Grande porção do disco aborda o seu contrato com a gravadora e como ela afetava a sua visão artística. Previsivelmente, após o sucesso extremo da era Sucker, com inúmeros hits, desde a vibrante “Boom Clap” até à rebelde “Break The Rules”, era de esperar que o público geral e a Atlantic estranhasse uma mudança da estética bubblegum pop para um experimentalismo inovador, nomeadamente o hyperpop. Esse gênero envolveu um enorme movimento e construiu grande parte da complexidade artística da estrela britânica, desenvolvendo vários trabalhos tais como o aclamado how I’m feeling now e o autointitulado Charli.

O single “Used To Know Me” é um testamento que encapsula formidavelmente os sentimentos que a cantora tem pela gravadora (“You used to know me, now you don’t / You used to hypnotize me, did it so easy / I’m finally free from your control”). Ironicamente, a canção tem uma das produções mais pop e a menos levada a sério do álbum. O euro house é, claramente, uma das principais inspirações para o single, com um sample implementado na perfeição de “Show Me Love”, de Robin S., exibindo que a sua artisticidade não é limitada a apenas um certo tipo de gênero, podendo expressar-se de mil e umas maneiras e formas, sem sabermos o que esperar dela.

O projeto é muito direcionado aos sons dos anos 1980, com músicas bastante nostálgicas, como o bass energético de “Baby” e o sample extravagante de “Cry For You” de September em “Beg For You”, junto com a espantosa Rina Sawayama. O estilo não é novidade para Charli. Quando olhamos para o seu primeiro disco, True Romance, lançado em 2013, possui imensas das mesmas inspirações que impulsionaram CRASH, tal como a maquilhagem, visuais extravagantes e a estética oitentista. Prince e Janet Jackson são grandes aspirações para o disco, desde a implementação de mais coreografias nos videoclipes até à atitude feroz e icástica deles.

Apesar de todas as integrações de estilos de pop moderno e vintage, não significa que o álbum seja limitado e não tente fazer algo diferente e único também. Um dos maiores destaques de CRASH é precisamente a mais “anormal”, “Lightning”. Ela apresenta um bass pesado, vocoder, alguns sintetizadores incrivelmente afiados e até implementos de música espanhola e latina. Toda esta combinação caótica de produção e instrumentação cria algo único na discografia de Charli, uma verdadeira experiência relâmpago. É de relembrar que Ariel Rechtshaid, antigo produtor da estrela para o seu disco de estreia, foi uma parte integral nesta canção em específico, ajudando-a a incorporar o espírito emocional e dramático dos anos 80.

As colaborações de CRASH são inteligentes e perspicazes. Na enigmática “New Shapes”, contamos com a participação de Christine and The Queens e Caroline Polacheck. As artistas fazem um excelente trabalho em mostrar a dualidade de um casal que está destinado ao fracasso devido a barreiras mentais que impedem ambos de serem vulneráveis e sinceros um com o outro (“But sometimes I need all night, all day / We could fall in love in new shapes / And when the morning comes / I’m sorry, I stayed”). Essa ideia de noite versus dia e amar em “novas formas” surgem entre ela e a outra pessoa devido à escuridão da noite. Quando ela acorda no dia seguinte com o sol da manhã, faz tudo parecer diferente, incluindo a versão do seu amado que se apaixonou durante a noite, lamentando depois a sua decisão de não sair antes que o sol revelasse a verdade da situação.

Em conclusão, CRASH é um círculo completo na vida e carreira de Charli XCX. É uma viagem que elabora a complexidade emocional e mental da popstar, passando por todas as etapas da sua existência no mercado musical, quer seja em letras, estilos ou até técnicas de produção. Não importa a identidade que a cantora aborda, ela vai continuar a servir em todos os aspetos possíveis, mostrando ser uma aprendiz astuta da música pop e uma influência para gerações futuras.