SOUNDX

BRAT

2024 •

Atlantic Records

9.0
Charli passa por diversas vertentes da EDM para criar um registro que representa muito bem a cultura rave.
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BRAT

2024 •

Atlantic Records

9.0
Charli passa por diversas vertentes da EDM para criar um registro que representa muito bem a cultura rave.
07/06/2024

Uma característica de Charli XCX é que a artista nunca se mostrou contrária a explorar novos horizontes. Quando ela fez seu retorno em 2016 com o EP Vroom Vroom, após sua era mais comercial, Sucker, ela apresentava uma nova faceta em um registro de caráter vanguardista. Propondo uma abordagem sem precedentes na música pop, caracterizava-se por produção eletrônica carregada de texturas plásticas e metálicas junto ao ritmo e estrutura desconcertada. Foi muito importante para a formação de dois gêneros: bubblegum bass e hyperpop. Partindo disso, ela manteve sua discografia pautada no vanguardismo dentro do pop por muito tempo.

Nessa década, Charli se propôs novamente a trazer mudanças significativas em sua obra. Crash, de 2022, por exemplo, representa o contrário de tudo que foi sua carreira desde 2016. Aqui, ao invés de ir contra a maré de artistas populares e buscar experimentar, ainda que se mantendo a nível considerável de acessibilidade, a britânica explora a futilidade pop. Isso quer dizer que ela incorpora a imagem de diva pop que apenas tem como proposta entregar aos seus fãs bops divertidos. Foi justamente a forma excelente como ela se adequou a essa persona de maneira a não se levar a sério que ela conseguiu apresentar um pouco do melhor que um dance-pop despretensioso pode proporcionar: Crash trazia diversão intensa. 

Nesse sentido, nós chegamos em BRAT, novo álbum da artista lançado nesta sexta (7 de junho). Esse paralelo é interessante, pois, assim como em diversos outros momentos de sua carreira, o registro é mais uma abordagem inovadora de Charli. Aqui ela decide explorar as diferentes facetas que compõem a cultura rave e, embora alguns de seus antigos projetos sejam alinhados às músicas de clube, a cantora nunca se propôs a se aventurar tão intensamente nas diversas formas de EDM que embalam a noitada.

“360”, abertura do registro, remete muito a seus trabalhos antigos, trazendo sintetizadores com textura plástica sedutora do bubblegum bass, porém, logo na canção seguinte, é evidenciado que a proposta na exploração do eletrônico está longe de se manter apenas nos territórios mais conhecidos pela artista. Se inicialmente “Club Classics” é marcada por bumbos intensos de Jersey Club fenomenais, a partir do segundo verso sintetizadores com efeito filter reminiscentes do fidget house trazem aspecto eletrizante para o resto da faixa. 

Ao longo da obra são várias as vertentes da EDM que Charli explora de forma a criar energia de clube arrepiante. Em “Talk Talk”, o french house, apresentado principalmente no uso do filter para criar um som funky, é usado de maneira a elaborar groove sensacional. “Everything Is Romantic” começa como uma faixa tomada por orquestra, o que causa uma estranheza ao ouvinte, após diversos momentos marcados por eletrônico forte, no entanto, logo surge o funk mandelão envolvente que ao seu decorrer se torna cada vez mais hipnotizante. Já em “B2B”, a produção imponente caracterizada pelo EBM feroz cria um dos principais destaques. “Von Dutch” carrega consigo instrumentação electroclash densa e suja que, em resultado, se mostra eletrizante.

A faixa “Sympathy Is A Knife” é outro momento da obra que remete ao seu trabalho antigo ao apresentar em sua produção eletrônicos com textura metálica, similar com o que ela se propôs a fazer em projetos como Vroom Vroom e Pop 2. No entanto, a canção tem êxito em maximizar a energia club arrepiante que embala o registro que não era tão forte em álbuns anteriores, tanto pelo uso por si só do bubblegum bass em seus aspectos mais abrasivos, como nas influências de techno e miami bass. Charli XCX acerta todas as vezes ao adaptar abordagens bem estabelecidas na sua carreira e mesclar com outras vertentes de EDM para elaborar resultado eletrizante. “365” é outro excelente exemplo de como isso é feito, sampleando a abertura “360”, uma das canções que trazem mais fortemente o bubblegum bass no disco, porém, ao longo dela, é apresentado eletrônico mais intenso, se opondo a “360”, que tinha produção mais limpa, o que resulta em algo hipnotizante.

Mesmo que seu destaque seja na exploração formidável da cultura rave, um outro curioso aspecto em que BRAT se destaca é em sua parte lírica. Muitas das letras trazem temas comuns nas músicas destinadas às pistas de dança, como em momentos que ela afirma sua autoestima — “360” e “Von Dutch” — ou quer que o “crush” fale com ela — “Talk Talk”. Embora Charli seja a DJ de sua festa no disco e queira animar o ouvinte com suas faixas eletrônicas extremamente envolventes, há diversos pontos no registro em que ela demonstra uma vulnerabilidade. Nesse sentido, eu adoro como ela exibe tanta sinceridade ao expor seus sentimentos que às vezes temos vergonha de admitir que sentimos. “Sympathy Is A Knife” causou polêmica nas redes sociais pois fãs de Taylor Swift associaram a composição à artista, entretanto, quer seja de quem ela está comentando aqui, acho muito interessante ela ter a coragem de falar sobre uma emoção que muitos passam mas poucos gostam de comentar: a inveja. “I don’t wanna share the space / I don’t wanna force a smile / This one girl taps my insecurities / Don’t know if it’s real or if I’m spiraling”, ela canta. Já “So I” é uma demonstração apaixonante dos pensamentos da cantora em relação à morte de sua amiga e colega de trabalho, SOPHIE. “Track was done, I’d make excuses / You’d say: Come on, stay for dinner / I said: No, I’m fine (now I really wish I did)”, ela diz em um dos vários trechos em que ela mostra arrependimento com a sensação de que poderia ter aproveitado melhor a amizade delas. 

BRAT é uma fascinante exploração da cultura rave na qual Charli se aventura em diversos ritmos que marcam os clubes, todos esses de maneira a apresentar energia eletrizante. Esse é um projeto que apresenta inovação sonora para a discografia da artista, mas também, ela não deixa de olhar para trás e trazer à obra sonoridades que fizeram parte significativa de sua carreira que também pertencem ao espectro da EDM. Nesse sentido, seu novo álbum contém características fascinantes presentes em seus discos anteriores, no entanto, XCX também se mostra disposta a se aventurar em novos horizontes da Electronic Dance Music para fazer registro que melhor representa a club music. O resultado é um dos lançamentos pop mais arrepiantes deste ano.

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