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Desire, I Want To Turn Into You

2023 •

Perpetual Novice

9.2
Desire, I Want to Turn Into You é um projeto ambicioso e que expõe toda a genialidade de Caroline Polachek. É de um conhecimento musical brilhante e raro hoje em dia.
caroly (1)

Desire, I Want To Turn Into You

2023 •

Perpetual Novice

9.2
Desire, I Want to Turn Into You é um projeto ambicioso e que expõe toda a genialidade de Caroline Polachek. É de um conhecimento musical brilhante e raro hoje em dia.
17/02/2023

O desejo dói. Talvez, doa mais do que provoque sensações como prazer ou coisa do tipo. A todo instante, procuramos ver ou impor o desejo em tudo que fazemos ou no que amamos. Isso se justifica, na verdade, através de uma persuasão da mente humana em trabalhar melhor com aquilo que, de alguma forma, nos faz bem. O desejo, explorado por Caroline Polachek em Desire, I Want to Turn Into You, é mais uma explicação, menos científica e mais humana, sobre o que esse estado mental é capaz de provocar.

Podemos argumentar que a artista, nesta altura, utiliza dos seus múltiplos desejos para explorar o fio narrativo do álbum — inclusive, o desejo de querer se tornar ele. Embora não seja totalmente o foco de Desire, I Want to Turn Into You, o desejo de fazer música pop com brilhantismo raro é um desejo ainda mais assertivo. Em Pang, de 2019, Caroline partiu rumo a dezenas de sentidos, estilos, sons e gêneros que se podia traçar diante de uma obra que caminhava pelo acessível e pelo experimental ao mesmo tempo. Claro que, inicialmente, houveram dúvidas sobre a real provocação dela na época.

Mas, hoje, é quase impossível não reconhecer a genialidade em que Caroline Polachek baseia as suas experiências. Desire, I Want to Turn Into You segue pelo quase mesmo caminho que seu antecessor. Claro, Caroline ainda mantém firme a sua convicção de passear por gêneros e estilos variados. Ela só consegue fazer isso graças a sua linguagem, dotada de inteligência e referências próprias, as quais, entre arranjos tortuosos e vocais penetrantes, criam imagens e desenvolvem ambientes capazes de nos transpor da realidade. 

Em “Welcome To My Island”, faixa abertura marcada por gritos e sintetizadores dissolvidos por versos repetitivos, Caroline, de maneira autoexplicativa, faz a introdução perfeita do disco. “Welcome to my island / Hope you like me”, canta ela em um exercício desafiador onde vemos, o mínimo que seja, a dificuldade dela em abrir o jogo sobre o seu ego — assim como todo mundo. Na sequência, “Pretty In Possible”, sem refrão e sem versos estruturados, é uma intenção genuína que deu certo graças à produção de Danny L Harle, que faz restar apenas o trip hop e um aceno à “Unfinished Sympathy”, do Massive Attack. 

“Bunny Is A Rider”, com assovios, e  “Sunset”, que se destaca pela guitarra flamenca e um lirismo condescendente sobre o amor, colocam questionamentos sobre a virtude de Caroline frente a sua razão de ser. Nestas duas faixas, a ambientação e a produção eletrônica que se misturam com elementos orgânicos — ora o barulho da floresta na primeira, ora as palmas calorosas na segunda —, mostram-se ótimas contribuições ao pop divertido, mas rico em detalhes que tanto vemos aqui. Enquanto isso, em “I Believe”, dedicada à SOPHIE, Caroline expele o seu pensamento acerca da imortalidade, abrindo margem para criarmos um paralelo entre o desejo e o amor, cujos quais ela tenta alcançar, mas, muitas vezes, não consegue. Não consegue, talvez, por conta de si mesma. Se em “Bunny Is A Rider” ela cantou: “But I’m so non-physical”, aqui, a vemos expor a crença no insubstancial, intáctil e incorpóreo através do refrão: “I don’t know, but I believe”. 

Este é, sem sombra de dúvidas, o ponto alto do álbum. Em paralelo, surge “Fly To You”, parceria com Grimes e Dido. A energia sonhadora e o refrão sobre a emoção de um reencontro, são pequenos fragmentos essenciais na construção da música, que começa embalada por um drum & bass e termina com sinos de igreja, esses que também estão presentes em “Blood and Butter”, mas que, diferentemente, ganha um realce na gaita de fole e nos vocais emprestados de “Billions”, que encerra o álbum nas alturas — assim como começou. Nesta última, porém, Caroline — com um coral de crianças e um drone se movimentando sem permissão — parece disposta a expurgar os seus pensamentos de forma como se estivesse prestes a testemunhar algo tão complexo quanto a realidade que estamos inseridos.

Desire, I Want to Turn Into You consegue, em sua essência, representar a mensagem de Caroline, ainda que precise de muito esforço para isso. “Smoke”, parte da ponte ao fim da obra, é um completo exemplo de tudo apresentado nos mais de quarenta e cinco minutos. Os vocais — quase santificados — disputam terreno com a produção cheia de estilo e, dentro das possibilidades da música eletrônica alinhada aos dizeres do pop, comprimidas a versos e refrões viciantes.

Caroline, sem esforço algum, consegue criar canções incrivelmente pulsantes, cheias de vida, bem produzidas e que chamam atenção pelo embrulho viciante que penetra na barreira do experimental. Desire, I Want to Turn Into You é um disco denso, catártico e profundamente revelador. Polachek une as suas melhores características e apresenta ao mundo um documento rico que, desde muito tempo, não víamos. O desejo, tão referido e tão presente aqui, nada mais é do que um ponto de vista recriado com base na visão de quem está apaixonado. Caroline Polachek está apaixonada pelo desejo e, como qualquer pessoa nesta situação, anseia por querer conhecê-lo melhor, por estar com ele, e por possuí-lo. No final das contas, mais do que o desejo, Desire, I Want to Turn Into You se trata, na verdade, do amor.

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