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The Loveliest Time

2023 •

Interscope / School Boy

8.7
Além de um álbum em que Carly Rae Jepsen se sente confortável ao demonstrar mais da sua faceta amorosa, The Loveliest Time é um material no qual se apaixonar também parece inevitável.
Carly Rae Jepsen - The Loveliest Time

The Loveliest Time

2023 •

Interscope / School Boy

8.7
Além de um álbum em que Carly Rae Jepsen se sente confortável ao demonstrar mais da sua faceta amorosa, The Loveliest Time é um material no qual se apaixonar também parece inevitável.
04/08/2023

Desde E•MO•TION, tornou-se comum a Carly Rae Jepsen lançar uma peça acompanhada do disco principal. Assim, lançado em 2016, o EP EMOTION: Side B, deu aos fãs um sabor extra do aclamado trabalho. O mesmo foi feito com Dedicated, só que o projeto complementar veio acompanhado, dessa vez, de um álbum, o Dedicated Side B. Essas versões adicionais são possíveis porque Jepsen escreve um amontoado de canções e como ela não consegue, e nem pode, abraçar o mundo para construir um material, muitos elementos de destaque são deixados pelo caminho. Com isso, os b-sides são produtos remanescentes do trabalho da artista e uma espécie de presente aos fãs. O que inicialmente foi uma iniciativa da gravadora, na qual a cantora não se sentia à vontade, configurou-se como algo característico da sua artisticidade. Dessa vez, no entanto, a situação é um pouco diferente. 

Em 2022, com o lançamento de The Loneliest Time, Carly já estava trabalhando em outro disco, o que hoje se sabe é o The Loveliest Time. Todavia, ela contou em entrevista ao The Line of Best Fit que prefere vê-lo como um projeto associado, pois carrega identidade própria. Logo, são contextos diferentes. A própria sonoridade do recente material já indica isso, assim como a simples mudança de nomenclatura ao nomear o registro – o termo “side b” não aparece mais. Desse modo, é possível pensar que Jepsen está trabalhando com álbuns de um mesmo universo e que estes contemplam seus estados emocionais, um mais melancólico e o outro mais vibrante e florescido, respectivamente, o antecessor e o atual. A similaridade dos títulos sustenta essa interpretação. Com The Loveliest Time complementando o disco passado, The Loneliest Time, tem-se um conjunto que conversa sobre solidão e amor. Nesse caminho, o andar solitário foi necessário para encontrar a renovação e a gentileza em um álbum que é seu melhor trabalho desde E•MO•TION

Como uma paixão arrebatadora, o sétimo LP de Carly transborda emoções e sentimentos díspares. Suas letras estão rodeadas de borboletas no estômago e momentos de leveza, ao passo que, a vulnerabilidade e a incerteza também aparecem. No entanto, não é qualquer sentimento tristonho capaz de impedir a sonoridade dançante, esta que bebe de espaços já dominados pela artista, como o synthpop, mas canções, como a envolvência disco do primeiro single, “Shy Boy”,  apresentam extensões bem desenvolvidas do que foi visto em The Loneliest Time. Jepsen não escapou da forte influência que esse gênero teve na música pop nos últimos anos, assim, em The Loveliest Time, ela demonstra uma excelente desenvoltura ao produzir faixas atraentes que conversam com essa sonoridade. 

Não seria exagero assumir que Carly Rae Jepsen é uma das artistas mais talentosas que prevalecem no cenário pop. Desde seu grande sucesso com “Call Me Maybe”, a cantora foi progredindo em cada álbum e em todo lançamento ela consegue desbravar novos componentes sem deixar de soar autêntica. Quem apenas a reconhece por essa música, está perdendo peças de excelente qualidade. O que prevalece nessa autenticidade é, em parte, suas harmonias e melodias sempre muito bem concebidas, explorando além do agradável sintetizador, instrumentos de sopro, percussão e cordas, criando um som coeso e substancial. The Loveliest Time não difere, e melhor, Jepsen transparece estar mais madura e confortável com seu repertório lírico e sonoro apaixonado.

O disco inicia com a exuberante sinfonia funk de “Anything to Be With You”, uma faixa que abre o material com percussão e uma linha de baixo em tons solares emprestados de The Loneliest Time. Mais adiante, o saxofone, timidamente adicionado ao fundo, vai embalando a canção em que Carly sente o amor se renovar a todo momento: “I feel like I know love / Second chance, almost slipped away / When it comes to me, boy / Falling for you is never over / Never, never over”. Essa é a forma de estruturação melódica e harmônica que torna seu som atraente e singular ao repaginar bons elementos da música pop com habilidade. 

“Kamikaze” deslancha para espaços noturnos e dançantes, prenunciando o ritmo do restante do álbum que segue o tom com firmeza, a não ser quando, pontualmente, em um ou outro momento, a produção desacelera. A respeito da faixa, Jepsen está em terrenos confortáveis, uma canção pop robusta com sintetizadores antêmicos envolvendo a composição repleta de atitude na qual a colisão com a paixão é premeditada – fazendo referência aos pilotos kamikazes (em português, camicase) que compunham o exército japonês da Segunda Guerra Mundial, os quais suas missões eram realizar ataques suicidas contra as forças dos Aliados. O choque, bem-sucedido, parte para o refrão transformador e a produção acelerada de Rostam Batmanglij – colaborador de longa data – em “After Last Night”.

A percussão minimalista, acompanhando “Aeroplanes”, reduz a velocidade do disco, não impossibilitando ser uma boa surpresa com camadas preenchidas que puxam o violão na saída da canção ao repetir o lirismo avassalador de “Anything to Be With You”: “And every day, I want you / We’re gonna have to make time / We’re gonna have to build each other’s lives / We’re only earth angels”. A rumada violinista reaparece no refrão de “Kollage”, acompanhada de um piano melancólico que firma a atmosfera mais contida, ao passo que, os versos de Carly são imparáveis admitindo seus erros e lembrando que, mesmo no tempo amoroso, sentimentos e ações falhas pertencem ao humano. A faixa, além de um dos maiores destaques do disco, é um bom exemplo de como a cantora consegue agraciar com registros que vão além de refrões grandiosos e produções uptempo

Em meio a canções destacáveis, como “Kollage” e “Shy Boy”, “Shadow” fica, de fato, nas sombras. Não é um descarte, mas também não é nada além de uma canção fofa predominantemente guiada por percussão. Um dos maiores momentos é “Psychedelic Switch”, uma faixa repleta de energia e o habitual dance-pop contagiante que estamos acostumados a ver Carly executando – especialmente em E•MO•TION. O baixo e o sintetizador guiam Jepsen em uma aventura eufórica em que seus sentimentos se confundem entre sonho e realidade, levados adiante para um efervescente psicodelismo na ponte. Sua composição faz uma relação única, abandonado os tons enluarados recorrentes desde The Loneliest Time e se permitindo brincar com o singular e reconfortante nascer-do-sol – que aparece uma única vez no disco – firmando a unicidade do extasiante amor que a atinge: “I think all my life / I never met anybody like you / Sunrise all the time / When I touch you”.

A introdução falada presente em “So Right” abraça o clima noturno que segue com força durante a faixa, acompanhada de um baixo marcante – “Come Over” também vai de encontro a essa construção. Espaços estes que a artista esbanja confiança, e mesmo sendo canções que a proposta é simples, a condução dançante não decepciona graças a personalidade e a voz marcante da cantora, assim como a produção repleta de elementos, indo de guitarra elétrica a saxofone. “Put It To Rest” igualmente se encaixa nesse grupo de faixas agitadas, mas seu início é traiçoeiro e sai do ambiente das discotecas. Isso porque ela começa excêntrica com notas de piano sendo preenchidas gradualmente pelas batidas aceleradas do drum and bass. Um registro fantástico! Música que poderia compor Desire, I Want To Turn Into You de Caroline Polachek. Demonstra inventividade e talento para com as tendências que estão crescendo, principalmente as direcionadas para a cena eletrônica. 

Desbravar novos espaços não parece um problema para Jepsen. Quando o álbum se encaminha para sua finalização, além das convencionais estruturas pop praticadas durante o registro, “Stadium Love” adiciona personalidade ao inserir um solo de guitarra que parece emprestado de Rina Sawayama. Como uma paixão dilacerante, que não sai da mente, a composição acaba saindo, por vezes, repetitiva, como se pensar além disso fosse quase impossível: “Got you on my mind for the second time / Got you on my mind but it’s not enough”. A canção ainda faz uma ponte lírica para a última música do disco: “This is for the weekend lovers” canta Carly no segundo verso de “Stadium Love” aprontando terreno para “Weekend Love”. Este é um encerramento ajustado, não é dos melhores, nem dos mais grandiosos, mas funciona adicionando a mesma tranquilidade que o álbum inicia. 

Inegável que The Loveliest Time seja um registro apaixonado: o título, as letras e mesmo a sonoridade não deixam isso escapar. Mas além de um trabalho em que Jepsen se sente confortável em demonstrar sua faceta amorosa, é um material no qual se apaixonar também parece inevitável. Obviamente ele não vai agradar a todos, nenhuma obra consegue essa façanha. Mas o sétimo LP da cantora reúne o que amantes de pop mais apreciam: produções agradáveis, dançantes e que fujam de qualquer maneirismo com adições instrumentais inteligentes. Durante a efervescência amável, esse ângulo inventivo ficou mais uma vez visível. A artista faz a música cintilar criatividade indo ao encontro do disco, funk, dance-pop, arrisca caminhos singulares do eletrônico e do pop-rock. Sendo um registro tão completo e único, é uma pena que ele seja visto por muitos ouvintes como um b-side de The Loneliest Time. Claramente não é, e esse tipo de leitura nem deveria ser feita. Tudo soa diferente e os ares são díspares, adicionando originalidade. Mas parece que, diante da própria singularidade em lançar álbuns adicionais, Jepsen criou uma armadilha e The Loveliest Time caiu nela apenas por ter um título similar ao seu antecessor, o que impede que sua recepção seja mais abrangente – como deveria ser.

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