Meu Coco
2021 • MPB/SAMBA • SONY
POR KAIQUE VELOSO; 26 de OUTUBRO de 2021
8.5
MELHOR LANÇAMENTO

Cânones da música são admirados porque, em algum momento, foram espetaculares de sua própria maneira. Porém, quando esses artistas são convidados a colaborar com novos cantores, os jovens sempre parecem reduzir os antigos ao seu passado, isto é, trazem a mesma sonoridade, agora, já insossa e desconexa ao presente. Isso ocorreu, por exemplo, no álbum visual de Anitta, Kisses, no qual Caetano é lixiviado de qualquer carisma, de forma que a canção “Você Mentiu” seja nada além do mais básico e desinteressante que a MPB pode oferecer. Meu Coco, em contrapartida, evidencia o desejo vivaz dos antigos compositores de estender a sua criatividade e contribuir para o necessário enriquecimento do cenário cultural brasileiro. Afinal, a situação combatida por eles no passado, meados de 60 e 70, parece reconstruir-se sobre os olhos de quem conhece os perigos de governos e de governantes antidemocráticos para a sociedade, além de reconhecer — igualmente ao movimento do Cinema Novo — a urgência de trazer justiça ao Homem comum brasileiro, esquecido naquela época e também nos dias de hoje.

Sob esse aspecto, as observações de Caetano Veloso sobre a política nacional — e internacional, de certa forma — são precisas no seu novo álbum de inéditas em quase uma década. O início suave de “Não Vou Deixar” alicerça a mensagem de Veloso: “Não vou deixar você / Esculachar com a nossa história”, a qual revela o protesto contra o acovardamento e contra os interesses escusos da gerência do Brasil. Diante disso, as batidas de funk, mescladas com toques em pizzicato, soam certas ao passo que relacionam elementos de culturas subjugadas pela massa burocrata às intenções de Caetano, das quais se extrai, principalmente, a rejeição à destruição dos valores simbólicos nacionais: a nossa gana, a nossa pinta, o nosso drama e a nossa fama da bacana.

Somado a isso, em Meu Coco, o rei da Tropicália parece abrir mão de seu notável — merecido decerto — protagonismo na música brasileira. Nos diversos momentos do disco, por exemplo a faixa-título, Veloso nomeia — subsidiado por alternâncias de trechos de violão estanque e melódico — personalidades históricas e atuais, bem como aspectos intrínsecos à cultura local, sem que, entretanto, percam-se a efervescência do samba e o ritmo contagiante. “Sem Samba Não Dá”, por sua vez, contém uma mensagem de resiliência e alegria, dando continuidade, também, à sua homenagem aos ícones brasileiros atuais, como Duda Beat, Simone e Simaria, Gabriel do Borel, entre outros. É um fraterno acalento ao ânimo, mas também, aos que percebem na sutileza, uma forte reafirmação do ideal de futuro.

Apesar das observáveis críticas políticas que o álbum reserva, Meu Coco também é e tem seus momentos sobre amor, seja romântico, seja familiar. Em “Autoacalanto”, o baiano homenageia seu neto de 1 ano Benjamim, filho de Tom Veloso. Nela, o cantor admira-se com as manhas do bebê e cria um certo cântico de ninar entre os versos, “O que é mesmo que isso me ensina? / Um ser que a si mesmo se nina”. Noutra, “Enzo Gabriel”, reflete-se sobre o porquê das influências norte-americanas terem sido, no século passado, tão abraçadas pelas classes baixas brasileiras ao apelidarem seus filhos, e, agora, quem toma o lugar é, por exemplo, Enzo Gabriel, o nome mais dado (ou recebido) no ano de 2018. É uma intrigante indagação na medida em que Caetano objetiva a esses novos cidadãos que não cometam os mesmos erros de sua geração, que tenham papel decisivo na formação do novo mundo, que sejam parrudos, pois estes já, logo verão o que é nascer no Brasil.

Meu Coco é, em última instância, a serena brisa que refresca as cálidas tardes eufóricas de 2021. Entremados pela profusão de problemas que os aflige, os indivíduos de atualmente precisam de um descanso, de um sossego para si. Nesse sentido, é conveniente apreciar aquilo que é tão repelido, o tédio, pois este é a prova máxima de desapercebimento do caos exterior. Quando sentir o tédio, ouça esse novo projeto de Caetano: sua voz grave engrandece os ouvidos, sua voz frágil capta atenção. Devido à quarentena e sua ânsia por esbravejar suas opiniões sobre o desmonte cultural, em “Não Vou Deixar” e “Sem Samba Não Dá”; sobre as novidades tecnológicas e as influências dos algoritmos no cotidiano, em “Anjos Tronchos”; sobre a afetuosidade entre avô e neto, em “Autoacalanto”; sobre amor, em “Noite de Cristal”, o cantor decidiu reunir-se em seu estúdio caseiro e gravar. Aqui, Caetano Veloso vive e transborda o carpe diem.