Born to Run
1975 • ROCK • COLUMBIA
POR LEONARDO FREDERICO; 1 de AGOSTO de 2021
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No início dos anos 1970, Bruce Springsteen não estava nem perto da grande estrela que ele se tornaria da metade até o final daquela década. Seus dois primeiros álbuns de estúdio, Greetings From Asbury Park, N.J. e The Wild, the Innocent & the E Street Shuffle, apesar de receberem grande aclamação da crítica, foram um grande fiasco comercial. Naquela época, ele era apenas um menino sonhador que havia acabado de começar. Ele ainda estava na casa dos 20 e poucos anos e os outros artistas daquele tempo pareciam fazer melhor do que ele. Enquanto a memória e o brilho de The Beatles e Elvis Presley ainda estavam frescos na mente de todos, Bob Dylan estava em seu auge artístico. Para muitos, parecia ser um momento difícil para ser um artista novato, já que grandes nomes já estavam estabelecidos e os melhores artistas da história tinham acabado de passar. Mas isso não assustava Springsteen.

De fato, aquele período entre o final dos anos 60 e os primeiros 4 anos dos anos 70 foi complicado para Springsteen, mas, de certa forma, toda sua vida foi um tipo de batalha que sempre o colocou à prova de seus sonhos. Em 1964, ele viu uma apresentação dos Beatles no The Ed Sullivan Show, que o inspirou a comprar seu primeiro violão por pouco mais de 18 dólares. Algum tempo depois, naquele ano, a mãe de Bruce, depois de ver que ele tinha potencial após vê-lo tocar em diversos locais, decidiu fazer um empréstimo para comprar um violão Kent de 60 dólares. Springsteen continuou tocando em vários locais até 1965, quando ele visitou Tex e Marion Vinyard, que patrocinavam e ajudavam bandas jovens e recém-formadas, e foi colocado como o guitarrista principal e, mais tarde, um dos principais vocalistas dos Castiles. Na época, ele havia dito a Marion que ele teria sucesso e ela, sem dúvida, acreditou nele.

Se esses primeiros anos de carreira já pareciam complicados — mas ao menos tinham um certo objetivo — os próximos pareceriam ainda mais confusos e incertos. Os Castiles não duraram muito. Em 1968, Springsteen partiu e formou outro grupo musical, o Earth, que seguiu um formato de banda conhecido como Power trio. Naquela época, Bruce, em algum momento dentro de sua jovem cabeça criativa, deve ter se perguntado se este era um sonho instável e talvez inalcançável. Se isso aconteceu? Não sabemos, entretanto, uma das razões que provavelmente desencadeou isto foi o fato de que o Earth, sua segunda banda, acabou com apenas um ano de atividade. Então, em 1969 até 1971, Bruce tocou com a Steel Mill, onde começou a ganhar seguidores, e quando foi elogiado pelo crítico Philip Elwood, que escreveu: “Nunca estive tão sobrecarregado por um talento totalmente desconhecido”.

Se Bruce realmente pensou em desistir ou considerou impossível aquele sonho de se tornar um cantor, ele nunca o demonstrou. Depois de participar da Steel Mill, Bruce saltou de uma banda para outra, incluindo o Dr. Zoom & the Sonic Boom, a Sundance Blues Band, e a Bruce Springsteen Band. Para alguns, parecia uma insistência inútil. Foi somente em 1972, após chamar a atenção de Mike Appel e Jim Cretecos — que acabaram levando Bruce aos olhos da Columbia Records, onde ele assinou seu primeiro contrato — que ele se estabeleceu com um grupo de homens que, ironicamente, o acompanhariam até hoje. Pela primeira vez, talvez, mais do que nunca, seus sonhos estivessem se tornando realidade.

Springsteen assinou com a Columbia Records uma década depois que Bob Dylan. O primeiro álbum de Bruce, Greetings From Asbury Park, N.J., como já mencionado, foi um grande sucesso crítico, com faixas como “Blinded by the Light” sendo o ponto alto dos elogios, mas ainda assim um fracasso comercial. Foi também nessa época que Springsteen começou a ser comparado a Dylan graças à poesia que as letras de ambos os artistas tinham, o que o fez mudar um pouco suas composições, algo que décadas depois seria visto por ele como um arrependimento. E, assim como a estreia, o segundo álbum de Bruce, The Wild, the Innocent & the E Street Shuffle, também foi um fracasso comercial. Por um momento, a sorte inicial que ele tinha pareceu diminuir e os sentimentos do tempo em que ele estava pulando de uma banda para outra pareciam retornar.

Mas, se em nenhum momento dos últimos 10 anos Springsteen desistiu, ele não desistiria agora. Como uma última tentativa da gravadora — e provavelmente um ultimato — de fazer um disco comercialmente viável, a Columbia forneceu um grande orçamento para que Bruce fizesse seu terceiro álbum. Então, ele começou a trabalhar em novas técnicas, como a produção em Wall of Sound, além de melhorar sua escrita, tornando-a mais identificável do que nunca. Todos estes esforços e os 10 anos de luta valeram a pena, porque, em agosto de 1975, ao lado da banda E Street Band, Springsteen lançou Born To Run, que é não apenas sua grande revelação, mas também um dos álbuns mais importantes da história do rock.

Um dos melhores elementos do Born To Run é a composição de Springsteen, que agora assumiu um papel muito mais importante do que antes. Enquanto seus dois primeiros álbuns raramente conseguiram estabelecer uma conexão com seu público-alvo, em Born To Run, Springsteen muda isso completamente. Sua letra é agora parte do universo onde New Jersey é o ponto mais interessante e lucrativo, criativamente falando. Imagine por um segundo o contexto de Jersey nos anos 1970: a Guerra do Vietnã ainda rolava do outro lado do mundo enquanto uma depressão P&B dominava o estado por um nevoeiro. Apenas com as palavras de Bruce e um pouco de imaginação, você poderia imaginar este cenário perfeito para um filme Noir dos anos 1940. Na faixa título do álbum, por exemplo, ele canta: “The amusement park rises bold and stark / Kids are huddled on the beach in a mist”. Na época, isto deve ter soado insignificante, talvez apenas como uma frase de enriquecimento cinematográfico lírico. Anos depois, soa aguçado e pode testemunhar a história das pessoas esquecidas melhor do que qualquer livro de história.

Além disso, a maneira como Springsteen trata tudo o que aconteceu em sua composição é fenomenal — talvez, ninguém jamais tenha atingido seu nível. Para ele, o amor é selvagem e rápido como um Chevrolet. A juventude é uma oportunidade única que nunca deve ser negada. A vida, por sua vez, é uma experiência insubstituível. Na abertura, “Thunder Road”, ele demonstra todas estas características em uma poesia que consegue transformar sonhos simples de adolescentes em um filme clássico. A faixa começa com uma gaita aguda e depois aparece um piano suave ao fundo quando Springsteen aparece cantando. Ele começa: “The screen door slams, Mary’s dress waves / Like a vision she dances across the porch as the radio plays”. A declaração amorosa do Springsteen, que aqui parece um jovem de 20 anos que acabou de comprar seu primeiro carro e não quer acabar como os outros perdedores, não é bonita (“You ain’t a beauty, but, hey, you’re alright”), mas é honesta. À medida que a canção avança, o desejo do jovem se torna cada vez mais forte. No final da canção, ele canta antes que um solo de saxofone exploda: “It’s a town full of losers / And I’m pulling out of here to win”. Ele ganhou.

Ao longo de sua carreira, Bruce sempre foi conhecido como um dos maiores heróis da classe trabalhadora. Seu auge nesse quesito foi apenas uma década depois de Born To Run, em Nebraska e Born In the U.S.A., mas naquela época ele já demonstrava seu desejo de fazer justiça àqueles que geralmente são esquecidos. Em “Night”, a canção mais curta do álbum, Springsteen conta a história de um homem que trabalha o dia inteiro e ainda consegue viver seus sonhos e desfrutar de sua liberdade à noite. A faixa começa com um solo de guitarra elétrica que se dissolve em uma mistura homogênea de cordas, bateria, gaita e saxofone. Ele começa na primeira linha da faixa: “You get up every morning at the sound of the bell / You get to work late and the boss man’s giving you hell”, e conclui quase no final: “You work nine to five and somehow you survive ’til the night”. Embora a faixa seja curta e provavelmente a peça mais opaca do álbum, ela ainda consegue ser uma música incrível, com uma escrita impecável e uma produção impecável. Anos mais tarde, “Night” poderia ser vista como a semente que foi plantada na cabeça do Springsteen que daria frutos como “Atlantic City” e “Glory Days”.

Outro fator incrível sobre o álbum é a produção, que é de tirar o fôlego. Born To Run tem um som que pode ser complexo e simples, limpo e turbulento ao mesmo tempo. Enquanto, em um momento, você pode distinguir cada aspecto de cada instrumento, rapidamente, você se perde nesse mar de sons que colidem na criação de uma sonoridade voraz, visceral e enérgica. “Tenth Avenue Freeze Out” é uma das músicas mais diferentes e visuais que Springsteen já fez. A faixa começa com várias cornetas e depois evolui para uma mistura inteligente de saxofones, trombones, pianos e guitarras. Além disso, a música apresenta uma voz masculina demoníaca sintética na ponte que soa contemporânea, assim como detalhes cautelosos — quando Springsteen canta: “Big Man joined the band”, Clarence Clemons faz um pequeno solo.

No entanto, o destaque de todo o  disco é a faixa título, que levou aproximadamente seis meses para ser concluída. Já foi mencionado aqui que Springsteen sempre teve uma cabeça criativa. Segundo ele, a faixa levou tanto tempo para ser concluída porque ele tinha sons em sua cabeça que nem conseguia explicar. Isto pode ser confirmado pelo som selvagem da música que inexplicavelmente carrega aquele sentimento único de juventude. A faixa apresenta solos de violão, buzinas, baixos e bateria enquanto Bruce canta sobre viver a vida ao máximo, não importa o que aconteça. Ademais, ela carrega a ideia central do restante da carreira dele: “I want to know if love is real”. Ele canta enquanto os instrumentos soam atemporais no segundo plano:

Everybody’s out on the run tonight

But there’s no place left to hide

Together, Wendy, we can live with the sadness

I’ll love you with all the madness in my soul

Oh, someday girl, I don’t know when

We’re gonna get to that place

Where we really want to go, and we’ll walk in the sun

But till then, tramps like us

Baby, we were born to run

Além de tudo isso, o álbum apresenta músicas que são simplesmente incríveis por serem um produto de um verdadeiro desejo. “She’s the One” é uma das mais cativantes de todo o disco. Embora Bruce não saiba descrever muito bem uma pessoa (“With her killer graces / And her secret places / That no boy can fill”), a música ainda é ótima com seus solos eufóricos e os incríveis vocais do Springsteen. “Backstreets”, por sua vez, pode ser vista como uma das canções mais interessantes e instigantes do cantor. Nesta faixa, ele conta sua história com Terry, um amigo de Bruce com quem ele prometeu ser amigo para sempre, no entanto, acabou sendo abandonado. A coisa mais curiosa sobre a faixa não é a instrumentação ou como soam os vocais sofisticados e refinados do Springsteen, mas sim a dualidade dos sentidos que cada linha carrega. Em geral, as palavras dele às vezes, indicam que ele e Terry são amigos, mas os sentimentos de dor podem indicar um certo romance entre os dois. “Me and Terry became friends / Trying in vain to breathe / The fire we were born in” e “I hated you when you went away” são exemplos disso, além do próprio gancho da canção: “Hiding on the backstreets”. A esta altura, só podemos imaginar.

Na reta final do álbum, também temos canções impecáveis. “Meeting Across the River” é a mais sofisticada do disco com um foco total em piano e saxofone. Na letra, que também pode ser vista como outra semente para o trabalho posterior do Springsteen, vemos ele encarnando um jovem que vai se encontrar um homem perigoso, provavelmente um criminoso. A letra da música faz com que a música se torne esse tipo de filme policial dos anos 70. “Jungleland”, que encerra o álbum, é um épico, com quase 10 minutos de duração. A letra pinta imagens da vida cotidiana, desde batalhas de rock no submundo da cidade até garotas comendo sorvete em cima de carros. Ao mesmo tempo em que Springsteen consegue traçar uma certa romantização destas cenas, ele percebe as críticas, quase mostrando que isto não é adequado para as pessoas, mas mesmo assim elas ainda veem uma certa beleza nelas. Com o tempo, a faixa se torna cada vez mais intensa, chegando a uma ponte instrumental de um saxofone solo de três minutos, o que Clarence Clemons levou dezesseis horas para gravar. Isto é muito mais do que apenas uma canção.

Finalmente, vale a pena mencionar toda a experiência que Born To Run proporciona para aqueles que o ouvem. Além de toda estrutura baseada no cotidiano — enquanto as quatro primeiras faixas representam o dia, as quatro últimas representam a noite — em faixas como “Thunder Road”, você sentirá a esperança de um futuro enquanto em “Born To Run” você sentirá o mais selvagem que já sentiu. É uma energia que é quase inexplicável. Ele faz você rir, chorar, sentir-se melhor do que nunca e sentir-se nostálgico por algo que você nunca testemunhou. Eu realmente acredito que todo jovem deve ter a sorte de ter Born To Run como trilha sonora para sua juventude. Quem o teve é eternamente grato por isso.