2022

Rough Trade

Hellfire

Hellfire é o álbum mais pop do black midi, mas não é, necessariamente, acessível.

8.0
EM 22/07/2022
 

De acordo com David Hatch e Stephen Millward, em seu livro From Blues to Rock: an Analytical History of Pop Music, a música pop é um conjunto musical que é divergente da música popular, folk e jazz, mas que figura como uma versão mais leve do rock. Eles lembram também que, embora grande parte das canções pop sejam de cunho voltado para o público jovem, nem todas as faixas de sucesso se configuram dentro do gênero. Além disso, é destacado como esse fenômeno se separa dos demais por seu desenvolvimento contínuo mais acentuado. Em outras palavras, música pop é a música altamente midiática, e geralmente, feita para o consumo em massa, como afirma Thiago Soares em seu livro A Estética do Videoclipe: “entendendo o pop como uma premissa notadamente midiática”.

Seguindo nessa narrativa, pode-se ver o último lançamento da banda inglesa de rock progressivo black midi, Hellfire, como um registro inspirado por essa lógica e enredo pop, ainda que não se configure nela. Isso porque, a maioria das canções desse disco se ordenam dentro de elementos tradicionais e históricos do gênero. O álbum, que foi gravado em isolamento em Londres e foi descrito pelo vocalista do grupo, Geordie Greep, como “um filme épico de ação”, conta com diversos momentos que se apoiam sobre arquétipos que, ao longo das últimas décadas, seguiram e estavam presentes em canções que eram taxadas como pop. No entanto, Hellfire não se apresenta com um disco pop visto que, apesar de suas inspirações, ele está longe de ser acessível Ou seja, é a obra mais pop do grupo, mas ainda assim não é propriamente popular.

Grande parte das canções que se encaixam nessa racionalidade são as primeiras faixas do álbum. Curiosamente, também, essas são as músicas que se reproduzem nas menores durações. Isso é interessante visto que, considerando os gêneros em que os discos de black midi se encaixam, uma das características principais é seu viés de apreciação das sonoridades, na maioria das vezes, com peças de maior duração e lento desenvolvimento, com enfoque quase total na contemplação dessas peças, bem como entendimento de seus subtextos. Embora os outros registros dos britânicos não sejam ainda mais longos do que esse, outras obras dos gêneros progressivos do final dos anos 1990 atuam indo para além dos sessenta minutos. Por outro lado, a primeira metade se encaixa dentro de um teor de consumo rápido, se juntando ao nexo pop desenvolvido aqui, limitando essa relação não apenas a estética, mas também produção e consumação. 

Olhando para essas músicas, na prática, não é muito difícil entender essa ligação. “Sugar/Tzu”, por exemplo, para além de dar início para uma certa história digna de um filme em Las Vegas, conversa com os anos 1960, principalmente com as faixas de Frank Sinatra, mas com uma forte presença do jazz. Do mesmo modo, mais tarde, “Dangerous Liaisons”, com seu carisma e estética sonora, e “The Defence” parecem homenagear o estilo popular clássico do cantor norte-americano. Entretanto, em todos esses casos, a abordagem de black midi leva essas canções, tal qual suas tradicionalidades, para outros níveis: enquanto na primeira a progressão constrói algo concreto e denso, na segunda há uma certa elegância seguida pela extravagância teatral da terceira. Em outros casos: “Still” lembra melodicamente os The Beatles; “Welcome to Hell” ressoa o rock dos anos 1990 e 2000; e “Eat Men Eat” funde vocais do Talking Heads com um pouco de metal. Em outras palavras, a banda realiza não somente um resgate, mas traz uma nova roupagem.

Claro que não é sempre que isso funciona. Hellfire, assim como Cavalcade, tropeça em alguns momentos em que suas faixas se tornam mornas ou carregam problemas de composições. Em paralelo com “Chondromalacia Patella”, do disco deles do ano passado, “The Race Is About to Begin” é densa e robusta, com uma ótima produção, no entanto, em diversos instante, a letra parece confusa, criando passagens que nem sempre se conectam, ou, ainda, parecem redundantes. “Hellfire”, por sua vez, abre o álbum não da forma mais interessante, com uma falta de sintonia entre os ritmos que, ainda proposicional, incomoda pelos motivos errados. Observando tanto esse quanto os outros registros do black midi, é difícil dizer se eles estão ou não progredindo, mas é totalmente plausível dizer que eles estão provando sua versatilidade. 

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